Representatividade: Um Assunto de Que Temos de Falar

Quase dois terços das mulheres dizem não se sentir representadas pelos media. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: D.R. e Imaxtree.

É possível alterar um padrão de beleza instituído e propagado todos os dias como ideal pelos media? Uma nova geração de mulheres questiona o statu quo e pede para ser reconhecida.

De acordo com um estudo partilhado pela Dove, em março de 2019, 70% das mulheres não se sentem representadas pelos media. Isto significa que mais de metade das mulheres não conseguem rever-se nas imagens partilhadas todos os dias pelos meios de comunicação tradicionais, pelos spots comerciais das marcas e nas redes sociais. Os motivos multiplicam-se e assumem contornos diferentes dependendo da geografia.

«Todos os países têm os seus próprios estereótipos», refere Phillippa Diedrichs, professora universitária e especialista em Estudo Corporal na Universidade de West England, que esteve envolvida neste estudo. «No entanto, independentemente do mercado, o resultado foi o mesmo: as mulheres não se consideram representadas nos media e em campanhas publicitárias», devido à promoção de padrões de beleza irreais e inalcançáveis, conclui.

A discussão continua

Esta discussão não é propriamente nova. Aliás, a forma como as mulheres são retratadas pelos media tem sido alvo de investigações académicas ao longo dos tempos, mesmo antes de aparecerem as redes sociais. Margaret Gallagher, num estudo da UNESCO, «The Portrayal and Participation of Women in the Media», com data de 1979, notava que «no geral, o tratamento das mulheres pode ser descrito, nas melhores das hipóteses, como limitado», evidenciando que, à época, a mulher ainda era vista – e assim retratada – como a dona de casa perfeita, dependente de um homem para subsistir e sem ter uma voz ativa e participativa na tomada de decisões.

Hoje, passados 40 anos da publicação do estudo de Gallagher, a discussão persiste com uma nova roupagem e com acesso a mais informação, muito por culpa das redes sociais e da rápida propagação de mensagens. Por exemplo, o movimento #MeToo, que promove a exposição de casos de assédio e agressão sexual a mulheres, teve a sua maior exposição no fim do ano 2017, aquando da publicação de um artigo do jornal New York Times sobre o produtor Harvey Weinstein.

Apesar de não ter tido a mesma magnitude em Portugal como teve noutros países, a conversa e a partilha de histórias não desanimaram, mesmo sendo apenas online. O hashtag #MeToo tornou-se num espaço seguro de apoio para mulheres. Outro dos movimentos que surgiram nos últimos anos está ligado à aceitação corporal – também ele com uma hashtag associada: #BodyPositive –, onde muitas mulheres encontraram, pela primeira vez, uma oportunidade de se mostrarem e serem vistas tal e qual como são.

O valor de uma imagem

Se olharmos para as estatísticas, sete em cada dez mulheres sentem-se pressionadas a alcançar padrões de beleza não realísticos, o que contribui para uma epidemia de ansiedade relacionada com a sua aparência. O facto de as mulheres se sentirem mal com o seu corpo e a forma como se apresentam ao mundo é um resultado de serem confrontadas todos os dias com uma definição de beleza muito limitada.

«Quando vemos fotografias nas revistas, temos consciência de que foram retocadas com Photoshop. As mais jovens também o sabem, mas o estrago já está feito. Todas nós já fomos expostas a este conceito de imagem ideal. É por isso que, mesmo sabendo que aquela foto foi alterada, nos sentimos mal por não sermos assim», conta-nos Diedrichs. Esta insegurança instalada pelas hierarquias e pressões sociais, segundo o estudo apresentado pela professora universitária, tem um reflexo real nas nossas vidas e no nosso dia-a-dia: impede-nos de sermos assertivas (30%), de usarmos a roupa que queremos (40%) e de nos expressarmos como verdadeiramente somos (37%).

Inclusividade na moda

Sete em cada dez mulheres é um número grande e impactante na promoção da diferença. Sendo assim, porque é que estamos em 2019 e ainda falamos nisto? Porque «deixámos que os homens nos educassem sobre o ideal de mulher», responde Amanda de Cadenet, fundadora da plataforma Girlgaze.

Como explica a socióloga Liesbet van Zoonen no seu estudo «Perspetivas Feministas dos Media», «é provável que desentendimentos apareçam quando existe uma falta de simetria nos códigos da fonte e do recetor no momento de transformação do discurso». Contextualizando esta realidade, porque é que são os homens a maior fonte de decisão quando são as mulheres e as suas necessidades que estão em causa? Porque «a maioria do poder de decisão pertence aos homens, o que na maior parte das vezes resulta numa visão muito estereotipada, sexualizada, do corpo da mulher, e não representativa de como a mulher realmente é», diz Phillippa.

A fantasia da Victoria’s Secret

Para obtermos um exemplo perfeito disto que a professora universitária refere, basta recuarmos até ao fim do ano passado e às declarações do CEO da L Brands, que detém a marca de lingerie Victoria’s Secret, Ed Razek, à Vogue americana, sobre a diversidade e a inclusão de modelos plus size e transgénero no desfile da marca de lingerie. Uma das citações mais polémicas foi: «Vocês não deviam ter transexuais no desfile? Não. Acho que não devíamos. Porquê? Porque esta apresentação é uma fantasia.»

Várias foram as vozes que se levantaram contra as afirmações de Razek, incluindo personalidades da indústria, mas nenhuma declaração teve tanto alcance quanto o vídeo de Nikita Dragun, youtuber e trans. O clip partilhado nas contas de Twitter e Instagram da influencer, onde se vê Nikita a usar lingerie e umas asas de anjo, tinha apenas esta pequena descrição a acompanhar: «Querida Victoria’s Secret, disseste que as mulheres trans não conseguem vender a fantasia. Por isso, aqui estou eu, uma mulher trans, a vender a fantasia!»

Correndo o risco de ser uma mera coincidência, as vendas da marca norte-americana, em 2018 e no primeiro trimestre deste ano, registaram uma baixa histórica, levando ao encerramento de 53 lojas.

Imagens de mulheres reais

Nikita e os movimentos nas redes sociais já mencionados, que pedem um mundo mais inclusivo e respeitador, não são acontecimentos isolados. Cada vez mais mulheres promovem a mudança do espaço público. Exemplo disso mesmo é o projeto #MostremNos, que nasceu a partir do estudo mencionado logo no início deste artigo. Numa iniciativa conjunta da Dove, da Getty (o maior banco de imagens do mundo) e da Girlgaze (uma plataforma de networking para fotógrafas mulheres e pessoas não binárias), este projeto reúne mais de 5000 fotografias de mulheres sem estarem retocadas com ferramentas de edição, da autoria de mulheres de todo o mundo.

«Este banco não é para a Dove usar; é para o mundo usar. É para todos os media e marcas publicitárias. Se queremos mudar o paradigma, temos de ir à fonte. Já não é suficiente a Dove fazer uma nova campanha publicitária sobre a beleza real. Agora, na condição de grupo coletivo, temos de alterar as estruturas», afirmou Sophie Galvani, vice-presidente global da marca de cosméticos do grupo Unilever, no evento de apresentação do projeto em março passado, em Londres. Este projeto é mais do que um convite para as marcas adotarem um discurso honesto; é para darem a oportunidade às suas consumidoras de criarem uma ligação real tendo como base valores reais.

Este incentivo da Dove, da Getty e da Girlgaze tem um motivo – além de ser o que é justo. No banco de imagens, o termo de pesquisa «pessoas reais» aumentou 192%, comparativamente com o mesmo período transato. Já o termo «mulheres diversas» registou um aumento de 168% nas pesquisas. Isto pode ser explicado pelos primeiros passos que várias entidades estão a dar no caminho da representatividade social em diferentes plataformas de comunicação. Como os filmes pornográficos de Erika Lust, que acabam com a visão plástica e falsa deste género e que apresentam o sexo como algo natural e feito por pessoas de carne e osso, rugas e celulite incluídas.

O combate ao preconceito

A conta de Instagram @glitterstretchmarks apropria-se de algo que é encarado pela sociedade como feio e motivo de vergonha – estrias, cicatrizes de automutilação ou marcas de vitiligo – e, com recurso à colagem de brilhantes, transforma-o em algo belo.

Na música, jovens mulheres sobem aos palcos desprovidas das amarras convencionais e cantam aquilo que sentem, tal como são. A cantora Lizzo, que vai passar em junho por Portugal no NOS Primavera Sound, deu início a todo um movimento de amor-próprio com o seu novo álbum, por saber «o quanto é difícil ‘amares-te a ti própria’ numa sociedade em que os media nos dizem que não temos dinheiro suficiente para o fazer», revela num artigo de opinião ao site do canal de televisão NBC.

Também na TV começa a haver espaço para estereótipos e preconceitos serem debatidos e dissipados, como o reality show Naked Beach, do Channel 4, no Reino Unido, onde os concorrentes aparecem nus com o propósito de desenvolverem a sua autoestima.

Na imprensa, principalmente a feminina, novas normativas estão a aparecer, muito graças a modelos como a Halima Aden ou Tess Holliday; no entanto, a criação de publicações de nicho foi a verdadeira resposta às necessidades de representatividade. Exemplos disto são títulos como a Darling, uma publicação que não recorre a ferramentas de edição de imagem para as suas fotografias, e a Diva, a principal revista para lésbicas e mulheres bissexuais na Europa, entre outras.

Representatividade, uma exigência

Há pessoas a participarem ativamente na mudança do paradigma e a contribuírem para termos um espaço público verdadeiramente mais representativo, através do qual todas consigamos estabelecer uma relação de aceitação connosco próprias.

No entanto, como Lisa Smolarski, diretora da revista inglesa Stylist, nos contou no evento de lançamento do projeto #MostremNos, «os media devem ser um espelho da sociedade, e se não consegue rever-se, onde é que pertence? (…) Digo isto com a maior transparência e em consciência: se não se vir representada nas páginas das revistas, nas publicações das influenciadoras no Instagram, nos sites, faça um favor a si própria e boicote essas publicações. Não perca com elas o seu tempo nem o seu dinheiro, e faça a sua voz ser ouvida». Fale e exija ver-se representada.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2019.