Queda de Cabelo: Porque Acontece e Como a Evitar

É o mesmo todos os outonos: as folhas caem das árvores e o cabelo cai em todo o lado. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: Hana Knizová

Já deu por si a andar e a olhar de repente para trás, e ver cabelos seus a flutuarem no ar, sem muita pressa de chegarem ao chão? Num movimento em slow motion, quase como se estivessem a gozar consigo, a fazerem questão de lhe lembrar que tem menos um fio ou vários na sua cabeça? Deixe-nos adivinhar: está neste preciso momento a olhar em seu redor para confirmar qual a situação atual do seu cabelo solto à sua volta, pela roupa e arredores… O que nos leva à sua resposta, que é com certeza positiva. Mas não entre pânico, estamos todas no mesmo barco.

Os números da queda de cabelo

Estudos apontam que, em média, cada pessoa perde 50 a 100 fios de cabelo por dia. A queda é um fenómeno natural e que faz parte do ciclo de vida de um fio de cabelo. «Metabolicamente, é suposto o nosso cabelo renovar-se», explica à ELLE Ricardo Vila Nova, tricologista – um especialista na saúde do cabelo e do couro cabeludo – e proprietário do espaço 212.2 Hair Doctors (Avenida da Liberdade, 212, 2 direito B, Lisboa). «Quando o nosso organismo tem necessidade de se defender ou reiniciar defesas, o primeiro sintoma é rejeitar ou promover a renovação das células mais antigas. Ou seja, os fios de cabelo mais longos ou os que têm um período de fixação à raiz de dois, três, quatro ou cinco anos, serão os primeiros a ser rejeitados pelo nosso organismo para dar lugar a um novo crescimento», conta-nos Vila Nova.

Há diferentes fatores que influenciam este processo de renovação natural e, por consequência, podem determinar a quantidade de fios perdidos. O tipo mais vulgar é aquele que sofremos todos os dias. Como menciona o tricologista, «com a queda diária, acabamos por não nos assustarmos tanto porque é uma percentagem mínima. As pessoas lavam, sai um ou dois cabelos durante a lavagem ou quando se penteiam, mas não desperta o pânico» devido ao conceito básico de renovação: tem de cair para nascer um novo.

Não obstante, é importante estar atenta, principalmente quando a percentagem de queda de fios de cabelo aumenta. Isto pode acontecer por vários motivos, como períodos de stress acentuados, uma dieta alimentar desequilibrada, se está a fazer algum tipo de medicação ou – um dos mais comuns e recorrentes – se está a passar pela mudança de estação do ano. Duas vezes por ano, na primavera e no outono, passamos por períodos de perda de cabelo logo após mudanças de temperaturas acentuadas, ou seja, depois de sentirmos muito calor no verão e muito frio no inverno.

Época alta

A alteração da temperatura tem um impacto direto no funcionamento do nosso organismo, tanto a nível celular como hormonal. «O nosso corpo, instintivamente, consegue adaptar-se à mudança de estação», explica Vila Nova. «É quase como a questão das rotas migratórias: os animais sabem quando está na altura de voar para outro país e fazem essa viagem de antemão», conclui. Apesar de as condições climáticas e o aquecimento global estarem a baralhar o nosso sistema, «o nosso corpo [principalmente no verão], está preparado para se ir ajustando à mudança de temperatura, quer quimicamente quer biologicamente», menciona ainda o tricologista.

Sim, leu bem. Uma das grandes quedas sazonais acontece no outono, a estação que (supostamente) estamos a viver agora. Depois de ter passado o verão exposta ao calor e ao sol de forma persistente – além de outros agentes prejudiciais para a saúde do fio capilar – e se não aplicou as devidas medidas de proteção durante essa época, é muito provável que já esteja a sentir consequências em forma de queda acentuada. Por isso, o seu cabelo está a necessitar de doses enormes de amor, carinho e dedicação.

Os cuidados a ter após o verão

Neste período pós-exposição solar, é essencial perceber o que deve fazer para tentar ajudar o processo de recuperação. «Cortar as pontas é sempre a primeira opção, mas também deverá nutrir o cabelo depois de ser exposto à corrosão salina», alerta Ana Fernandes, hairstylist e educadora da Kevin Murphy (@anafernandeshairstylist). Dependendo do estado dos fios, «normalmente é aconselhável fazer uma hidratação profunda no seu salão habitual e, depois, manter em casa, com uma boa máscara de hidratação», acrescenta. Depois deste primeiro momento de avaliação profissional, tente estabelecer uma rotina de tratamento no seu dia a dia para a fazer de forma consistente. Os produtos que deve considerar usar regularmente são: «um champô, um condicionador e uma máscara (que deve ser aplicada a cada 15 dias)», sugere Ana Fernandes. Neste período, concentre a sua atenção em champôs hidratantes e máscaras de cabelo reparadoras. Se utilizar produtos de finalização, procure que estes também tenham propriedades hidratantes.

É possível que, depois da exposição solar, não só o cabelo esteja sensibilizado mas também o couro cabeludo. Desta forma, precisa de ter dupla atenção aos produtos que escolhe. «Antes de mais, faça uma boa análise com o seu cabeleireiro para perceber qual é a origem dessa sensibilização e aplique o produto que melhor efeito fará», avisa Ana Fernandes. Um passo muito importante a ter presente na sua rotina é a esfoliação do couro cabeludo. A realização deste ato, pelo menos, uma vez por mês vai ajudar não só a tornar o ato de limpeza mais eficiente mas também a estimular o processo de renovação dos folículos durante a queda sazonal, principalmente quem tem fios de cabelo finos.

Como avaliar a nossa queda do cabelo

O nível de atenção que devemos dar ao nosso cabelo, mesmo se estivermos a passar por uma fase de queda típica das estações de outono e primavera, deve ser alto de forma a termos um conhecimento real do que se passa connosco e com o nosso organismo. Por exemplo, se estivermos em modo alerta, podemos perceber que a quantidade de fios que está a cair pode não ser normal e que os fios que caem podem não estar a renovar-se em número ou no prazo que deveriam, significando que algo mais sério pode estar a acontecer, como queda permanente.

«Quando se trata de uma renovação prolongada e de uma mudança genética, ou quando o nosso organismo – por envelhecimento – induz uma queda permanente, o paciente começa a perceber que a percentagem de cabelo que vai caindo até pode não ser em grande quantidade sazonal, pode ser dividida ao longo do ano em quantidades reduzidas, mas a percentagem total que caiu não volta», Ricardo Vila Nova explica à ELLE como se identificam os primeiros sinais de queda mais definitiva. Esta pode manifestar-se por duas razões: devido à genética ou por uma questão metabólica. «A nível genético, o paciente tem uma predisposição para a redução permanente, ou seja, o fio (ou todo aquele folículo) vai cair e pode não voltar a nascer, resultando na calvície», revela o tricologista, por haver antecedentes familiares. A ação metabólica «pode ser induzida por algo relacionado com o nosso próprio metabolismo» em que fatores externos a nós exercem influência no nosso organismo e provocam a queda. A toma de medicamentos é um dos motivos mais comuns, tal como questões hormonais, explica Vila Nova.

A queda de cabelo metabólica não se apresenta de maneira diferente da genética (o desfecho é que pode ser diferente). Acompanhe o processo: cada folículo pode ter dois a três fios de cabelo e «por ação de perda metabólica, esse mesmo folículo, passa a ter dois fios ou um fio», contextualiza o tricologista. O processo de renovação começa a ficar mais lento até que deixa de se completar; e as pessoas só se dão conta desta situação se estiverem atentas aos sinais mais percetíveis: ver cada vez mais pele do couro cabeludo.

Queda de cabelo nas grávidas

A queda sazonal pode também acontecer a pessoas que estejam num processo de queda permanente, deixando sensação de que ainda têm menos cabelo. É importante destacar que a queda pós-parto não se encaixa em nenhuma destas categorias por se tratar de um processo de reequilíbrio hormonal. Apesar de ser um período específico no tempo e por isso podermos pensar que é sazonal, a verdade é que se trata de um momento de recuperação de um choque hormonal e de um desgaste corporal tremendo. Em média, são necessários seis meses depois do parto para a mulher conseguir ter o seu cabelo no estado original. No entanto, se estiver grávida, deve ter consciência de que este período pode ser mais longo ou pode até não voltar a ter o cabelo que tinha antes da gravidez. «Às vezes, algumas clientes têm dificuldade em ter o cabelo como tinham», avisa Vila Nova.

A culpa pode estar na rotina de beleza capilar

Há outras influências externas que estimulam a queda de cabelo, quer sazonal quer permanente, nomeadamente a metabólica. O excesso de produtos cosméticos é um deles. É comum ouvir as pessoas que fazem alisamentos progressivos dizerem que nos dias seguintes aos tratamentos perdem muitos fios. Já em relação aos produtos de uso diário, «há muita oferta cosmética, champô com silicones, champô para alisar, produto para dar gloss… Tudo isso contém polímeros que entram e, de uma certa forma, plastificam a superfície do fio do cabelo, mas que também podem causar congestão do couro cabeludo», afirma o profissional.«Fazendo uma comparação com a pele, se utilizarmos maquilhagem todos os dias e não a tirarmos, os nossos poros ficam congestionados. Então, as pessoas vão ter ainda mais necessidade de usar maquilhagem para tapar os sinais de inflamação da pele», dá Vila Nova como exemplo.

Com a diminuição da quantidade de cabelo, por exemplo, as mulheres têm tendência para utilizar produtos que conferem volume, o que se revela contraproducente porque estes produtos vão congestionar os folículos; e, por sua vez, «o nosso corpo, por uma questão de defesa, para expelir estas toxinas, pode rejeitar o cabelo juntamente com esse excesso de produto e pode rejeitá-lo prematuramente», afirma o tricologista.

Como prevenir aqueda de cabelo

Então, o que podemos fazer para ajudar o nosso cabelo a não entrar em processo de calvície prematuro? «Temos de seguir uma rotina semelhante à que fazemos na pele», diz Vila Nova. «Pelo menos uma vez por semana ou de 15 em 15 dias» fazer uma esfoliação, tal como aconselhamos no início no processo de recuperação durante o outono. Depois, deve ser compensada «por um hidratante melhor para balançar o pH da pele do couro cabeludo porque estamos a criar uma agressão. Nós estamos a tirar a particularidade má da pele, mas, ao mesmo tempo, também estamos a tirar a particularidade boa da pele ou do couro cabeludo, neste caso. Então, a seguir temos de utilizar os agentes que vão recompensar. É importante ter cuidados no tipo de champô que se utiliza», destaca o tricologista.

Se depois do período sazonal expirar se revê nalguns pormenores aqui partilhados, procure um profissional. Mas como o outono ainda não acabou, veja alguns dos produtos que podem ajudar no combate ao cabelo em queda livre, na galeria, em cima.

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição de novembro da revista ELLE.