Porque é Que Quando Queremos Mudar de Vida Mudamos Radicalmente o Cabelo?

Refletimos sobre o poder de um penteado e de como uma ida ao cabeleireiro pode ser uma questão de amor-próprio Por: Carolina Adães Pereira Imagens: Imaxtree (2) - Pexels, Artem Podrez e Engin Akyurt.

A quarentena serviu para várias coisas: aprendermos a fazer pão, arrumarmos e organizarmos todos os armários, pormos a leitura em dia e termos tempo para vermos aquelas séries que andávamos a adiar há anos. Foi por isso que, certo dia, dei por mim a ver Girls, a série da HBO. Na final da segunda temporada, Hannah, a personagem de Lena Duhnam e uma das protagonistas, no meio de uma espiral emocional, inspira-se num artigo de tendências da ELLE americana (fictício, convém destacar) e corta o seu cabelo curto. O resultado final deixou muito a desejar, mas o ato em si é, de certa forma, familiar: a vontade de mudar algo em si, no seu corpo, após um evento marcante.

Este episódio em concreto fez-me questionar a minha relação com o meu próprio cabelo. Não, nunca cheguei ao ponto da Hannah e fazer justiça com as minhas próprias mãos – a não ser quando decidi ter cabelos pequeninos (franja, entenda-se) aos quatros anos para desespero da minha mãe –, mas este corte desnivelado de Hannah, realizado com uma tesoura muito errada para esta tarefa, e as partilhas nas redes sociais de cortes caseiros durante a pandemia puseram-me a pensar: todas as mudanças que fiz no meu cabelo foram muito ponderadas, desde o dia em que eram realizadas ao resultado final. Para mim, há algo de terapêutico em sentar-me numa cadeira de cabeleireiro: estou ali, com a minha hair stylist apenas, prestes a decidir como vou deixar que o mundo me veja, cheia de expectativa pelo resultado final. O poder de decisão é todo meu. Este cenário tem o seu quê de dramático, bem sei, mas todos os meus looks ou mudanças também o foram: de ter o cabelo a tapar as costas e cortá-lo até à linha do maxilar, passando por umas franjas (várias e em diferentes formatos) e algumas cores fantasia.

Após uma breve reflexão, cheguei à conclusão que todas as mudanças capilares significativas que fiz foram motivadas por mudanças de vida ou vontade que essas mudanças se concretizassem. Sim, tenho uma relação séria com o meu cabelo, o que é normal. No caso das mulheres, em específico, o cabelo tem uma importância emocional muito grande «e, de alguma forma, carrega uma certa componente da nossa própria identidade, ao mesmo tempo que, também por ser a moldura do nosso rosto, acaba por ter muito impacto», destaca Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica (@filipajardimdasilva.psicologa).

O cabelo ser uma parte importante da nossa identidade enquanto mulheres é um facto histórico e cultural. Desta forma, as mudanças de visual – independentemente de ser um corte, um penteado novo ou uma cor diferente – são usadas como mensagens para o mundo exterior. Este conceito é continuamente perpetuado por Hollywood, tanto em ficção (como o caso da Hannah, em Girls, entre outros) como na vida real. Toda a gente se lembra da cabeça rapada de Britney Spears em pleno 2007: recém-saída de uma clínica de reabilitação e a meio de um processo de divórcio muito mediático, a cantora dirigiu-se a um salão de cabeleireiro e ela própria rapou o seu cabelo com uma multidão de paparazzi a registar o momento. O que muitos disseram ser apenas o resultado de excessos, revelou-se, antes de tudo, uma tentativa frustrada de tentar ganhar algum controlo sobre algo na sua vida, como foi partilhado num documentário do canal inglês Channel 5 sobre a cantora anos mais tarde.

No meio de tudo o que acontece no mundo, o cabelo parece ser um alvo fácil de ser controlado e «assume uma dimensão de projeção de uma mudança [interna] que aconteceu, mas também alavanca uma mudança que nós queremos consolidar», aponta a psicóloga. Isto é, fazer uma intervenção capilar tanto é uma prova da mudança que está acontecer a nível interior, como pode ser a força impulsionadora que conduz à mudança. Dois exemplos disto mesmo «são pessoas que fizeram o coming out e já podem ser aquilo que sempre foram», conta Maria Castello Branco, hair stylist e proprietária do Sala Hair Studio (@sala_hairstudio) ou o breakup hair, mais conhecido como uma «mudança de cabelo no seguimento de ruturas amorosas. Ou seja, “rompi com um laço importante na minha vida, portanto, quero ter um marcador visual para além daquele emocional e interno; quero ter um marcador externo e concreto de forma a que eu olhe e veja uma diferença, porque de alguma maneira preciso disso”», explica Filipa.

O processo de aceitação da mudança passa muito pela sua materialização física e «o cabelo, muitas vezes, é um marcador visual que todos os dias nos pode recordar do caminho que podemos percorrer», lembra a psicóloga. Ou seja, precisamos de ter consciência que qualquer intervenção que possamos fazer ao nosso cabelo é apenas um instrumento e não uma mudança de vida instantânea. «O exterior pode ajudar-nos, obviamente. Mas é importante colocarmos o foco dentro, no sentido de “eu preciso de pensar diferente, eu preciso de sentir diferente”», conclui Filipa. É mesmo uma questão de amor-próprio; é um compromisso que fazemos, connosco, de que cuidamos de nós e não menosprezamos a nossa saúde mental nem a nossa aparência. «Com tantos aspetos que nós não controlamos, a ideia aqui é focarmo-nos em algo que podemos controlar – o que não acontece com a pandemia obviamente – e, assim, sentimos que controlamos alguma coisa», contextualiza a psicóloga relativamente ao momento que vivemos.

Um corte de cabelo radical ou uma cor completamente diferente não lhe garante uma mudança de vida, como já vimos. Mas, quer seja o fim de uma relação, uma saída do armário ou apenas uma vontade forte de mudar o rumo da sua vida sem mais nenhum motivo aparente (o que é igualmente válido), se quer recuperar o controlo do seu destino começando com uma intervenção ao seu cabelo, não dê uma de Hannah e procure um profissional. Já basta todo o trabalho emocional que tem pela frente, não precisa de acrescentar um corte mau e uma série de expectativas goradas à bagagem. «O primeiro passo é avaliar se essa mudança vai favorecer a cliente. Favorecendo, é importante que haja uma conversa de ainda algum tempo para me certificar de que a mudança de visual é feita com consentimento informado, isto é, de que não só a cliente tem a certeza da mudança, como tem conhecimento de todos os cuidados a ter em casa, que produtos utilizar e como secar/pentear», explica Maria Castello Branco sobre o seu processo de aconselhamento em salão. «É fácil eu mudar o look de uma pessoa em salão, mas se a pessoa não conseguir ter exatamente o mesmo resultado em casa, pode acabar tudo num grande arrependimento», conclui a hairstylist. Perante a forma como 2020 correu, pode ser que fazer alguma mudança no cabelo seja a solução – ou a motivação – que precisamos para começar este novo ano com um espírito mais positivo.