Herbes Folles, Uma Marca de Beleza Feita a Partir de Ervas Daninhas

Esta é uma marca portuguesa muito original. Por: Inês Aparício Imagens: © D. R.

À primeira vista, as papoilas, hipericão, chicória ou beldroegas parecem plantas como qualquer outras. Plantas que precisam de atenção, sol e água para crescer. Porém, na verdade, estas nascem espontaneamente e, deste modo, assumem a designação de ervas daninhas. Apesar do título aparentemente negativo, estas têm propriedades benéficas para a saúde, reconhecidas pela medicina há anos. Mariana Santos também o sabe e, por isso, deu vida à Herbes Folles, uma marca de cosméticos natural, com assinatura portuguesa.

A insígnia é ainda um recém-nascido projeto da fundadora, que apenas vê a luz, pela primeira vez e oficialmente, esta segunda-feira, 29 de junho. Foi no digital que encontrou o seu berço e onde os três primeiros produtos de cuidados para o rosto se preparam para mudar o olhar dos consumidores sobre as ervas espontâneas. Completamente vegan e natural, a linha é composta por um bálsamo multiusos, um óleo de limpeza e uma loção hidratante bifásica.

Falamos com a mente por trás da Herbes Folles para perceber como é que esta marca, regida pela sustentabilidade, passou de ideia a realidade.

Criar a marca foi tão espontâneo como a forma como nascem as plantas que são o foco da marca?

Não, de todo. Criar a marca foi super desafiante, e é um processo que envolve tantas escolhas e intervenientes que as coisas têm de ser pensadas e planeadas com tempo e cuidado. A única coisa que posso qualificar de espontânea é a própria ideia, contrariamente a todo o processo de lhe dar corpo e existência.

Diz que a escolha dos fornecedores, ingredientes e embalagens foi cuidadosamente pensada. Há quanto tempo tinha esta ideia na gaveta e como foi todo o processo de a trazer ao público?

A ideia nasceu no primeiro ano de existência da minha filha. Foi nascendo, enquanto eu fazia uma formação em medicina herbal (The Herbal Academy) e outra em formulação de cosméticos (Formula Botanica). Desde esse momento até agora, a altura do lançamento, passaram-se quase três anos. Na verdade, a ideia nunca esteve na gaveta: como decorreu de uma prática que me ocupava e tinha dinheiro para investir, comecei logo a trabalhar: encontrar uma designer para o logo, criar e trabalhar as fórmulas, estudar, escrever… O que demorou mais tempo foi de facto a escolha dos fornecedores e a finalização das fórmulas, onde pode contar com a ajuda do laboratório com quem trabalho.

De que forma é que a atual pandemia afetou o lançamento da marca?

O lançamento da marca estava previsto para a primavera. Devido ao confinamento, a partir de março encontrei-me a ser mãe 24h sobre 24h, sete dias por semana: o meu tempo de trabalho ficou assim consideravelmente reduzido. O tempo de produção e de transporte das últimas coisas a serem encomendadas também aumentou bastante devido às restrições do confinamento em todos os países europeus.

 

 

«Sempre achei piada a essas ervas que crescem por todo o lado, apesar de todos os esforços humanos para as erradicar»

 

 

A área da botânica foi algo que sempre lhe interessou?

Quando eu tinha 18 anos, morei durante cerca de um ano em Salvador da Bahia. Foi o primeiro lugar em que estive onde era frequente e popular as pessoas cuidarem-se com plantas, e vários amigos e amigas conheciam os seus nomes e propriedades. Havia bancas de plantas medicinais e espirituais nos mercados da cidade e eu fiquei super fascinada com aquele mundo. Lembro-me perfeitamente de pensar «como é que isto se perdeu em Portugal e na Europa?». A partir desse momento comecei a usar plantas para doenças menores (constipações e afins) e a estudar as suas propriedades.

O facto da minha mãe ter falecido de cancro, poucos anos depois, também contribuiu bastante para que esse interesse crescesse em mim, mais no sentido da alimentação. Foi nessa altura que comecei a usar cosméticos naturais, uma vez que tomei consciência dos ingredientes duvidosos que entram na composição dos produtos de beleza sintéticos.

Como nasceu essa paixão pela potência e beleza das ervas daninhas?

Sempre achei piada a essas ervas que crescem por todo o lado, apesar de todos os esforços humanos para as erradicar. Parece que estão sempre a piscar-nos o olho… São rebeldes, não se deixam domar, fogem das nossas tentativas de ordenação do mundo. Chamar-lhes «daninhas» é uma construção humana e diz muito sobre a forma como consideramos a natureza. Um dia, já há alguns anos, foi-me parar às mãos um livro de uma artista francesa, Lise Duclaux, com o título L’observatoire des simples et des fous (O observatório dos simples e dos loucos, em português), no qual ela enaltece estas plantas e questiona a forma como as vemos, julgamos e lidamos com elas. Esse livro contribuiu muito para o enriquecimento do meu olhar e perspetiva.

Quando e como se apercebeu das propriedades benéficas destas plantas e ponderou adaptar ao universo da beleza?

Apercebi-me que nos manuais da “Herbal Academy”, as ervas ditas «daninhas» apareciam frequentemente enquanto plantas medicinais. As beldroegas, por exemplo, contêm altos valores de omegas 3; as urtigas e os dentes-de-leão são altamente antioxidantes e remineralizantes; as raízes da chicória são ricas em inulina,… Também fui descobrindo que estas plantas já são usadas em produtos de cuidados para a pele por diversas marcas, sem, no entanto, sublinharem este seu carácter espontâneo e livre, sem questionarem a sua classificação comum de «daninhas».

Visto que eu já tinha o fascínio pelas ditas ervas e estava a fazer as duas formações, pareceu-me evidente (e divertido) a criação de uma marca que as enaltecesse.

 

 

«A expressão ‘se não as podes vencer, junta-te a elas’ assenta como uma luva à forma como considero que deveríamos lidar com as plantas espontâneas»

 

 

É esta escolha das plantas também uma forma de sustentabilidade, tendo em conta que está a dar uma vida a plantas que, em princípio, não teriam outro fim?

Claro que sim! Herbes Folles é um exemplo de um uso possível para dar a estas plantas, sendo que o conteúdo que escrevo para as redes sociais também passa muito pela partilha do conhecimento à volta delas. Para além de serem medicina para os seres humanos, também são benéficas para o solo e seus microorganismos, insetos e pássaros. Os herbicidas usados na agricultura são uma verdadeira praga para o planeta e para os seres que o habitam. Em vez de os esforços se concentrarem na sua erradicação, porque não usarmos a nossa criatividade para lhes (re)inventarmos usos?

Através da organização 1% for the Planet, criámos também uma parceria com uma associação eslovena que desenvolve propostas alternativas para a manutenção de espécies de plantas invasoras. Os nossos materiais promocionais (cartões de visita e fanzine) são feitos por eles, com fibras de Reynoutria japonica, planta esta que é considerada como uma das 100 piores espécies invasoras do mundo.

A expressão «se não as podes vencer, junta-te a elas» assenta como uma luva à forma como considero que deveríamos lidar com as plantas espontâneas.

Qual a relevância para a marca (ou para si) em fazer parte da organização 1% for the planet?

Para mim, é como um selo de engajamento, o que considero essencial para uma marca nos dias de hoje. Tenho consciência que estou a usar recursos comuns, o que torna imprescindível reinvestir uma parte dos lucros em projetos que fogem da lógica do mercado.

 

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Tendo em conta que os produtos são naturais e vegan, são adequados a todos os tipos de pele, incluindo os mais sensíveis?

Escolhi usar óleos essenciais e extratos de plantas – que podem causar reações ou alergias em peles mais sensíveis, mas que contêm também propriedades muito interessantes e benéficas – em vez de perfumes sintéticos. No entanto, tive cuidado em que estes ingredientes não ultrapassassem os 0,5% das três fórmulas. Não os recomendaria para peles atópicas (excepto o Mimo), mas considero que a maior parte das pessoas pode, sim, usá-los sem problema.

Já tem planos para alargar a gama a outros produtos ou categorias?

Por enquanto ainda não, e gostava que esse alargamento de gama/produtos fosse feito em conjunto com os consumidores – o que só pode acontecer após o lançamento. Quero perceber as necessidades e desejos das pessoas que gostam da marca e dos produtos, para depois então criar algo pensando nelas.