Dona De Mim: Mulheres Dos 20 Aos 41 Anos Falam Sobre O Seu Corpo

Testemunhos de pessoas reais sobre o processo de aceitação do seu corpo. Por: Mariana Vicente, Cristiana Morais, Ana Ribeiro, Patrícia Rebelo, Mafalda Beirão, Carolina Flores, Mónica Ribeiro, Lara Andrade, Wilma Moisés, Vanessa Alfaro, Cláudia Carvalho, Margarida Brito Paes, Madalena Abecasis, Vítor Machado -- Imagens: D.R.

Mariana Vicente, 28 anos

Às vezes, é difícil vermo‐nos como somos. Especialmente quando a nossa identidade é associada à nossa imagem. Escrevi o meu primeiro e único texto na gazeta do colégio sobre obesidade, quando tinha 15 anos, por ser um assunto que considerava relevante. No entanto, era algo que me magoava porque nunca era vista da mesma forma que as outras pessoas magras e populares da escola – por não conseguir ser igual.

Aos poucos, fui começando a praticar desporto e a dar a volta. Ganhei confiança, e o corpo foi‐se desenvolvendo. Perdi o peso que queria. Até que perdi controlo. De desportista e sociável passei a anorética. Tinha 17 anos quando me perguntaram (depois de ter atingido os 30 e tal quilos) se queria continuar a ler revistas de moda ou recuperar e fazer o último ano do secundário.

Decidi continuar a minha jornada, mas depois desenvolvi bulimia. Acreditava que teria de continuar assim para recuperar o peso que tinha ganho. Nunca olhei para trás. Pensei que eram fases. Perdi amigos, confiança e respeitava apenas uma coisa: a balança.

Hoje em dia, não “compro” as perspetivas de ninguém, evito dar importância às tendências, foco‐me no essencial, retomo o caminho perdido e, sobretudo, o tempo. Porque no fim, quem se levanta, quem se deita e quem vive neste corpo (marcado por cicatrizes e memórias) do passado sou eu, a responsável por mim mesma.

 

Cristiana Morais, imagem de João Descalço.

Cristiana Morais, 31 anos

Desde criança que sou julgada por o meu corpo não ir de encontro à forma “ideal”. No entanto, sempre consegui abstrair‐me dos comentários negativos e admiro‐me por isso. Não são os outros que definem quem eu sou. E desde cedo tive consciência de que, apesar de existirem diferentes tipos de corpos, não havia razão para o meu não ser considerado normal e aceite, por mim e pelos outros. Além disso, sempre fui vaidosa, o que me ajudou a perceber o meu corpo e a sentir‐me confortável nele.

Ao crescer, nunca tive “role models” com quem pudesse identificar‐me nestas questões, mas considero fundamental, no crescimento e no desenvolvimento da nossa identidade e da nossa autoestima desde criança, haver referências que possam fazer com que nos apercebamos de que não há mal em ser diferente. Esta foi uma das razões que me levaram a publicar esta fotografia. Poder, de alguma maneira, ajudar quem não aceita o seu corpo a valorizar‐se e a ganhar alguma confiança. É importante ter consciência de que somos diferentes e aceitarmo‐nos tal como somos.

Ana Ribeiro, 20 anos

A história do meu corpo apenas eu sei, pois sou eu que convivo e vivo nele. Nesta pele que me envolve. Nestas marcas que fazem de mim quem eu realmente sou.

Vivo com uma doença crónica da pele já faz cinco anos. Trata‐se de uma doença que vive em mim e que nunca irá deixar‐me. Já ouvi sussurros e já vi vários olhares julgadores, apenas por algumas marcas. Mas não deixo que isso me afete, porque ela faz de mim a pessoa que sou hoje. Uma pessoa humilde e com bondade.

Apenas temos um corpo e devemos amá‐lo e estimá‐lo, pois ele é o nosso templo, o nosso pilar. Vamos fechar os olhos e olhar para o nosso interior, porque realmente somos maravilhosas.

 

Patrícia Rebelo, imagem de Marta Soares.

Patrícia Rebelo, 29 anos

Sempre fui magra por natureza, apesar de comer grandes quantidades. Durante a minha vida, fui ouvindo comentários menos agradáveis, como “és só ossos”, “és um esqueleto andante”, “tens anorexia”. Era algo que, ao início, me deixava desconfortável, mas felizmente sempre consegui lidar bem com isso. Aceitava o meu corpo e tinha uma relação saudável com o que via ao espelho.

Decidi embarcar na jornada de aumento de peso e de treinos de musculação, por mim e para mim, não para agradar a terceiros. Tomei essa decisão porque subi umas escadas e fiquei logo cansada. Queria sentir‐me mais forte e perceber como é que o meu corpo iria reagir. Lembro‐me de que antes de treinar, em 2016, estava com 45 kg (isto a comer muito mas mal); no ano passado, consegui chegar aos 56 kg.

Se antes já estava grata ao meu corpo, hoje em dia amo‐o de paixão, pois é fantástico ver a transformação que sofri e que me tornou mais forte a todos os níveis. Sou totalmente a favor da mudança desde que a mesma seja feita de coração e porque queremos, não pelo que os outros nos dizem.

 

Mafalda Beirão, imagem D.R.

Mafalda Beirão, 29 anos

Tudo começou com um par de calças brancas. Isto de ter um blog e uma voz para quem me segue – seja uma pequena ou uma grande audiência – deixa‐me exposta a todo o tipo de comentários. Até aqueles mais chatos que, na grande maioria das vezes, preferia não ter de ler.

“Calças brancas não são para pessoas como tu. Só a Pipoca e a Maria Guedes é que podem usá‐las.” É o suficiente para me deixar a pensar: mas não eu porquê? Este foi o meu ponto de viragem e foi quando percebi que estava cansada de me sentir diferente. Cansada de me sentir deslocada, de me encolher porque não encaixava (literalmente) num 36, de me sentir menos bonita por não ser como as outras.

Porque é que temos de estar reféns dos padrões da sociedade? Porque é que eu, só porque visto calças L ou 40, não posso usar um tipo específico de calças? E porque é que temos esta sede incessante de viver presos a uma letra ou a um número impresso numa etiqueta? Mas não só. Questiono‐me também sobre a constante necessidade que temos de criticar quem nos rodeia.

Se o meu corpo é meu (e se eu considero que posso usar umas calças brancas), porque é que alguém decide ter voz para me julgar sobre as minhas escolhas? Desde quando é que o corpo dos outros se tornou um tema de conversa no nosso dia a dia? Não devíamos apenas preocupar‐nos com o corpo em que vivemos e com a saúde que nele habita?

De onde surge esta constante necessidade de validar a palavra “magra” como elogio e de massacrar a palavra “gorda” como um ataque ou até uma ofensa? Se ter uma plataforma me deixa mais exposta aos comentários que podem surgir, também me permite dar voz a todas estas questões. E enquanto a tiver, não me calarei. Porque todos os corpos são bonitos, sejam eles como forem. Com ou sem calças brancas.

 

Carolina Flores, imagem D.R.

Carolina Flores,  28 anos

“Tens os braços muito nos”, “De frente, parece que estás de lado e de lado desapareces”, “Tens de comer”, “Devias ir ao McDonald’s de vez em quando”, “Olívia Palito”. Tudo isto são coisas que me habituei a ouvir desde miúda.

Quando penso neste assunto é que percebo que, já na escola primária, ouvia bocas dos meus amigos, e uma vez até chegaram a ligar para a minha mãe a perguntar se me dava de jantar… Na verdade, e por ter começado tão cedo a receber todo o tipo de comentários, aprendi a lidar com a situação com algum humor, porque sou assim desde sempre, e provavelmente para sempre assim serei…

Quando chega a primavera e tiro as 50 camadas de roupa, não falha: “Estás mais magrinha.” Respondo sempre com um grande sorriso na cara e digo: “Nem por isso, só não tenho é tanta roupa. Gosto de mim e gosto do meu corpo, e as pessoas que me rodeiam sabem bem que, no que trata a comer, sou a primeira na fila e a que mais come. Isto não quer dizer que não tenha cuidado com a minha alimentação – tento que seja o mais saudável possível.

O que me entristece muito é que este tipo de comentários podem ser ditos numa fase em que, por algum motivo, me sinto mais insegura comigo, e não há nada pior do que nos dizerem que temos algo de errado quando nada podemos fazer para mudar isso. E mesmo que pudéssemos… Só a nós diz respeito!

As pessoas magras nem sempre são doentes. No meu caso, é genética pura e dura. Gosto muito do meu corpo e não mudaria nada. Nada! Gosto da magreza, gosto das manchas da psoríase e gosto das tatuagens. Fazem parte de mim e eu só sou eu com todos estes detalhes. Não é tão maravilhosa a variedade?

Mónica Ribeiro, 29 anos

Comecei a escrever o livro sobre o meu corpo há 29 anos. É, por isso, uma história em análise e com possíveis mudanças de finais e desenvolvimentos. Na verdade, não sei se quero terminá‐la.
Tive uma infância feliz, sem pensar muito no corpo, sem nenhum problema de excesso de peso, apesar de ter passado aquela fase de criança em que estava bem “gordinha”. Sempre adorei comer. Tenho 1,58 m, peso cerca de 69/70 kg e sou curvilínea.

Costumo dizer que tudo aquilo que como se acumula da anca para baixo, embora com a idade a tendência seja para começar a ir ter à barriga e aí a coisa já se agrava. Sim, porque o rabo bem abonado já é algo com que vivo naturalmente, mas jamais irei habituar-me a olhar‐me ao espelho e ver a minha barriga grande e ácida. Passei a minha adolescência com o corpo que sempre desejei: zero gordura a mais, peito q.b., um rabo bem jeitoso (segundo o que ouvia e o que agora vejo em fotos antigas) e uma barriga invejável. Na altura, achava que estava gorda. Gorda? Como assim? Acho que só o tempo e a distância nos fazem ver verdadeiramente como as coisas são. Eu era uma sortuda.

Depois de terminar a faculdade, com falta de exercício, pouco descanso e muitos deslizes na alimentação, engordei bastante e nunca mais consegui voltar ao que era. Estou há dez anos em constante aceitação e, apesar dos altos e baixos, este é talvez o momento em que, mesmo com todas as imperfeições, me sinto mais completa e mais realizada. Isto, no que diz respeito ao meu corpo, claro. Se antes me incomodavam as críticas, hoje consigo ignorá‐las e escolher o que me faz feliz.

Coisas como “Não podes usar vestidos compridos porque és baixinha e não te favorecem”; “Quando te casares, tens de usar um vestido caído e que não seja justo no rabo, porque só ficam bem
a pessoas magrinhas”; “Essa saia não te fica bem porque é muito curta”; “Roupa justa na barriga não é para ti”; “Essas calças de cinta subida fazem‐te mais gorda “; “Algo largo fica‐te melhor”… são comentários constantes no meu dia a dia.

Na verdade, eu uso aquilo com que me sinto bem. E daí? Chega de regras e de estereótipos! Vou continuar a vestir aquilo que quero e, sobretudo, aquilo que me faz sentir livre e segura. Quem disse que só as pessoas altas podem usar vestidos compridos? E o meu vestido de noiva não pode ser de sereia porquê? Estou muito longe de ser perfeita: há dias em que olho ao espelho e não me sinto tão confiante, mas depois penso que tenho de me amar. Não é egocentrismo. É valorização pessoal e amor‐próprio.

E a melhor forma de me cuidar é continuar a alimentar‐me bem, com escolhas saudáveis, mas também com os pequenos prazeres muitas vezes chamados “proibidos”. Sei que a luta vai continuar, mas de uma coisa tenho a certeza: apesar de todos os altos e baixos e das descobertas menos boas acerca do meu corpo, ele é meu. Prometo, para toda a minha vida, tratar dele e dar‐lhe a minha melhor versão. Eu sou aquilo que quero.

Lara Andrade, imagem D.R.

Lara Andrade, 26 anos

Aceitar o meu corpo sendo uma mulher transexual não foi uma tarefa fácil, porque eu via em mim todos os defeitos do mundo. Foi só com o tempo que consegui ver que todas as mulheres têm corpos diferentes e únicos, e que eu não era exceção! Eu apenas era mais uma mulher a tentar lidar com os padrões de beleza que a sociedade nos impõe, sendo mulheres cis ou trans, como é o meu caso.

Hoje em dia, posso dizer que aceito o meu corpo como ele é, apesar de, claro, haver partes dele de que não gosto tanto e talvez queira mudar, mas não gostar não quer dizer que não aceitei essas partes! Hoje em dia, em conversa com amigas, costumo dizer que até nem tive muito azar em relação ao meu corpo, agora consigo olhar‐me ao espelho e ver mais as coisas positivas e não as negativas, como antes. E sei que mesmo essas negativas eu posso trabalhar para conseguir mudar a minha visão sobre elas.

Agora sou feliz com o meu corpo, e tenho muito orgulho nele e em ser quem sou. Se para uma mulher cis pode ser muito complicado lidar com as críticas da sociedade por serem altas, baixas, magras ou gordas, para uma mulher trans é o dobro de complicação. É preciso ter muita força de vontade para não desistir e aguentar todas as críticas e os obstáculos que nos aparecem, e é preciso aceitarmo‐nos como somos e termos orgulho em nós!

 

Wilma Moisés, imagem D.R.

Wilma Moisés, 29 anos

Sou uma mulher negra, angolana, que vive em Portugal desde os 4 anos de idade, país onde existe, e continua a existir, uma grande falta de representatividade nos meios de comunicação de mulheres como eu.

Cresci a andar numa espécie de ponte metafórica. De um lado, tinha o que a sociedade portuguesa considerava “bonito”, e do outro, o que a sociedade angolana louvava como o “corpo ideal” (duas imagens bem distintas, já que em Portugal prevalece o culto do corpo magro e na cultura angolana é venerada a mulher curvilínea).

A minha mãe sempre me ensinou a celebrar o meu corpo. Sempre estive rodeada de mulheres confiantes, independentemente de serem magras, altas, baixas ou gordas. Houve desde muito cedo uma descomplicação do corpo nu e uma afirmação constante praticada em casa de que o corpo era motivo de orgulho. Essa é a base da relação que construí com o meu corpo. Não é uma relação perfeita e carece de uma aprendizagem contínua.

A minha adolescência foi a altura em que mais me senti insegura, pois perco peso com muita facilidade e achava‐me magra demais (e eu não queria isso). É algo com que lido até hoje, mas aprendi a utilizá‐lo como um ponto a meu favor.

Aprendi a gostar do meu corpo com as suas falhas, a criar a minha própria visão do “corpo ideal”. Atualmente, treino três a quatro vezes por semana, tento ter uma alimentação relativamente saudável, com batota aos fins de semana, e beber muita água. Nunca me senti tão bem fisicamente, e isto reflete‐se diretamente no meu bem‐estar psicológico e emocional.

 

Vanessa Alfaro, imagem D.R.

Vanessa Alfaro, 29 anos

Em pequena, nunca tive regras no que diz respeito à alimentação. Sempre tive uma alimentação variada, com direito a docinhos e salgados. Era uma criança que estava sempre em movimento, frequentava aulas de dança, fazia natação. Ainda hoje adoro estar em movimento, mas nem sempre foi assim: no ano 2009, entrei para a universidade e foram os anos mais incríveis que já vivi em toda a minha vida, mas foi também nessa altura que engordei. Não havia horários para as refeições, o que me levava muitas vezes a comer fora de horas. Os jantares com amigos existiam quase dia sim, dia não.

Tornei‐me uma pessoa sedentária, sem pôr os pés em cima de uma balança durante quase um ano, mas tudo por opção própria, até porque não tinha complexos com o meu corpo, vivia muito bem com ele e jamais me passava pela cabeça mudar a minha alimentação ou o meu estilo de vida. Era uma menina sem complexos nem vergonha do corpo que tinha, vivia bem com a opinião alheia e sentia‐me bonita, até porque sempre fui vaidosa.

Numa consulta de rotina, voltei a pesar‐me e o meu espanto foi grande: em apenas um ano, a balança marcava mais dez quilos. Estava numa situação‐limite e sabia que a mudança só dependia de mim e de mais ninguém.

Depois de alguns desvios alimentados pela falta de motivação, quando cheguei aos 72,5 kg tomei a decisão que mudou a minha vida. Por iniciativa própria e com o incentivo de uma amiga, mudei por completo o meu estilo de vida: voltei ao ginásio com outro foco, alterei os meus hábitos alimentares e, pelo caminho, descobri uma paixão enorme pela cozinha e pela vida saudável.

Tive receio de falhar, de desistir e, no fundo, não acreditava muito que iria ser capaz. Faltava‐me autoconfiança, foco e determinação, ou seja: tudo o que era importante numa fase inicial. Os meses foram passando, os resultados aparecendo e, após quatro meses e duas semanas, tinha menos 20 quilos. A minha vida mudou. Aliás, tudo mudou para melhor: a minha autoestima, o controlo, a organização, o equilíbrio.

Com o passar dos anos, a minha mente também mudou, hoje em dia tenho um estilo de vida equilibrado e o número na balança é apenas um número para mim. Ele não me define, não é ele que vai deixar‐me mais ou menos feliz. Continuo a ter uma alimentação equilibrada e a praticar exercício físico porque me faz sentir bem, porque me faz feliz, e não pelo meu físico.

Encontrei o meu próprio equilíbrio e acredito que este seja o caminho certo.

 

Cláudia Carvalho, imagem D.R.

Cláudia Carvalho, 41 anos

Durante muito tempo, escondi o meu corpo por causa das palavras do meu ex‐marido e de muitas pessoas que diziam: “Tu és magra demais e não tens carne para um homem agarrar.”

Hoje, com 40 anos, não vejo mais a necessidade de esconder o meu corpo. Durante muitos anos, encobri o meu corpo de 50 kg, e de seios pequenos, por baixo de saias e camisas largas. Nem me atrevia a usar uma saia acima dos joelhos.

Tive vergonha dos meus seios pequenos e ácidos depois de ter uma filha. Era mulher de um pastor, que ensinava muitas coisas a outras mulheres mas que não sabia amar‐se a si mesma, nem admirar a beleza do seu corpo. Hoje, depois do divórcio, renasci. Hoje posso olhar para o espelho e tocar‐me, admirar cada curva do meu corpinho.

Antes, raramente fazia isso. Passei dois anos sem ver o meu reflexo porque não me sentia linda, mas hoje tiro a minha roupa em frente ao espelho, e acaricio‐o, danço e fico feliz quando olho para os meus seios pequenos, para minha barriga trincada, para as minhas pernas torneadas, para meu bumbum sem estrias… Porque resolvi amar o meu corpo e cuidar dele com prazer.

 

Margarida Brito Paes, imagem Linkingphotography.

Margarida Brito Paes, 29 anos

Sempre me conheci magra e sempre gostei de ser magra. Lembro‐me de ter 6 anos e de pedir à minha avó para tirar uma fotografia minha da sala. A razão? Essa fotografia mostrava‐me com 1 ano e nessa altura eu era uma bola, e não gostava de me ver gorda. Nunca gostei, sempre adorei que as minhas clavículas se vissem por baixo da pele e que ossos da anca se notassem por cima do cós das calças de cintura ultradescaída do início deste milénio.

Com 6 anos, já tinha esta perfeita consciência de que gostava do meu corpo magro. Sei que isto pode parecer uma loucura para a maioria das pessoas, mas esta é a história do meu corpo! Eu gosto de ser magra e, por o dizer abertamente, muitas vezes me acusaram de ter um distúrbio psicológico e sempre partiram do princípio de que eu passava fome. Não é verdade! Nunca fiz uma dieta, nunca deixei de comer, nunca vomitei depois de uma refeição e até há três anos não corria nem para apanhar o autocarro.

Suponho que tenho sorte porque o meu metabolismo é rápido e por isso não engordo, mas nunca ninguém acreditou muito nisso. A dúvida latente sobre a minha saúde porque era magra e gostava disso levou‐me a questionar muitas vezes se teria mesmo de chegar ao ponto de deixar de comer, para que as pessoas percebessem realmente a diferença e compreendessem que nem todos os que são muito magros passam fome. Da mesma maneira que nem todos aqueles com peso a mais comem muito.

Hoje peso mais dez quilos do que há cinco anos. Gosto tanto de magreza como quando tinha 6 anos, e continuo a ser criticada por o dizer. Quando o faço, ainda acham que sou uma fanática das dietas, mesmo que eu esteja a comer um prato de cozido.

 

Madalena Abecasis, imagem D.R.

Madalena Abacaxis, 37 anos

Desde que me lembro de ser gente, tenho consciência das minhas sardas. Sempre foi algo que tentei esconder desde muito cedo, principalmente no verão, porque com o sol ainda se notam mais. Cheguei a andar com um penso rápido no cotovelo, onde tenho um conjunto de sardas que se uniram, tal era a vergonha que tinha delas. Mas é giro ver como as coisas mudam. Mais do que à nossa volta – e mais importante do que isso –, como mudam dentro de nós.
Quando vim do Alentejo para Lisboa, esquelética, sotaque alentejano, ruiva e – pior do que tudo – com sardas, era um fartote: “Cocó de moscas”, “Nestum”, e por aí fora… Foram tempos “chatos” e tentava arranjar inúmeras formas de as esconder. Só anos mais tarde comecei a aceitar‐me como sou. Talvez com a ajuda de amigos que elogiavam as minhas sardas, quando diziam que também gostariam de as ter… Mas foi um processo que demorou anos até eu estar confortável como estou.
Hoje as sardas são capazes de ser aquilo de que mais gosto em mim. E agora até há produtos para fazer sardas! Tempos modernos, viva a diferença!

 

Vítor Machado, imagem D.R.

Vítor Machado, 27 anos

Muito provavelmente, depois de ler todos os testemunhos anteriores, e pelo facto de ser um homem, deve estar à espera que diga: “Sempre vivi bem com o meu corpo, aliás nem nunca dei muita importância.” Mas essa não é a verdade.

Desde que me lembro, sempre tive um enorme problema em aceitar o meu corpo. Como nunca fui de grandes desportos (e acredite que tentei), o meu corpo nunca se desenvolveu como o dos meus pares, por isso, em vez de crescer com uma musculatura relativamente desenvolvida, cresci com uma barriga ligeiramente avantajada. Muitas pessoas não a veem, e podem até dizer que ela não existe, mas a verdade é que na minha mente eu sei que ela está ali. E não, nunca me apontaram o dedo, mas também nunca foi preciso, eu próprio o faço.

Sempre fui o meu pior inimigo. Ao longo dos anos, tentei habituar‐me a ela, depois acabar com ela, e finalmente aceitar a sua existência. Tem sido complicado, e não sei se vai terminar, mas quem sabe se um dia eu não vou olhar para ela, dizer “olá”, e tirar a camisola na praia sem ter medo de as pessoas a minha volta pensarem: “Olha a pancinha!”

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2019.