Tatuagens: Uma Forma de Expressão Que Mudou Muito Ao Longo dos Anos

As tatuagens têm percorrido um longo caminho nisto que é desafiar os padrões sociais. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: Thomas Ghiorzo, D.R.

A primeira vez que tive vontade de fazer uma tatuagem tinha 15 anos. Era uma noite quente de agosto e estava de férias com os meus pais e com o meu irmão na praia de sempre. Eu e o meu irmão, na tarde desse mesmo dia, tínhamos descoberto umas cassetes que o meu pai gravava quando éramos mais pequenos para ouvirmos nas viagens de carro ou nas noites de férias em família. Decidimos ouvir as mixtapes antigas para passar o tempo – naquela altura, não havia internet, nem nos telemóveis nem nos cafés lá do sítio, e na televisão de casa tínhamos apenas os quatro canais generalistas – até que depois de cantarmos Radio Gaga, Rihanon e outras tantas, chegou a música que todos sempre cantávamos: Wish You Were Here dos Pink Floyd. E foi ali, passados tantos anos a cantarmos os quatro a mesma canção, que eu decidi tatuar o título da nossa música para imortalizar em mim a minha família e aquele momento. Se está a questionar-se sobre se fiz esta tatuagem, não, não fiz. Quer dizer, ainda não fiz, porque 13 anos depois a minha vontade permanece. Mas a vida insiste em acontecer, ainda não encontrei a pessoa certa no momento certo para gravar o meu corpo e, para ser muito sincera, o meu irmão roubou o meu momento quando apareceu num aniversário da minha mãe com a assinatura dela tatuada como presente.

A aceitação das tatuagens

Recentemente, depois de um jantar de família em que falámos sobre a tatuagem do meu irmão e sobre o facto de ele ter de a tapar ou não quando ia trabalhar, questionámo-nos sobre a forma como as perceções em relação às tatuagens têm evoluído ao longo dos tempos. Segundo estudos recentes, um quinto dos adultos no Reino Unido tem tatuagens, além de que a arte corporal visível é cada vez mais aceite pelas entidades empregadoras. Algo similar acontece nos Estados Unidos, com as estatísticas a revelarem que metade dos Millennials americanos têm, pelo menos uma tatuagem e que 71% dos pais inquiridos não se importa que os professores dos seus filhos ou até mesmo os pediatras tenham tatuagens visíveis.

Se houve uma altura em que a imagem que nos surgia quando pensávamos em tatuagens era a dos clássicos Amor de Mãe ou Angola 1970, hoje em dia a body art não conhece limites, quer de proporções quer de cores, já para não falar que a tecnologia desta arte está muito desenvolvida e os materiais utilizados hoje são muito diferentes dos de outrora. Por exemplo: se já leu algures que Cristiano Ronaldo não tem nenhuma tatuagem porque é dador de sangue, saiba que essa máxima já não se aplica. No passado, pessoas tatuadas não podiam ser dadores de sangue devido ao mercúrio da tinta que entrava na corrente sanguínea, mas, hoje em dia, os materiais já mudaram tanto que, segundo o Serviço Nacional de Saúde, só nos primeiros quatro meses depois da realização da tatuagem é que estamos impedidos de doar sangue.

Numa breve pesquisa do tema pelo Reddit, surge um tópico interessante (com a discussão já fechada, infelizmente): «Ter uma tatuagem é tão comum que se tornou mainstream, fazendo das pessoas que não têm tatuagens os rebeldes do presente.» O que fez com que ter tatuagens se tornasse tão comum? Será a facilidade de as fazer? Ou será que nós, enquanto seres emocionais e criativos, encontrámos uma forma de dizermos aquilo que sentimos sem precisarmos sequer de falar? Estou inclinada a acreditar que esta normalização é mais um reflexo do estado em que a sociedade se encontra. Não querendo entrar em análises sociológicas, a verdade é que esta arte, que até há 20 anos (ou menos ainda) era considerada marginal, hoje em dia é utilizada também para mudar vidas.

Tatuagem de recuperação

Mariza Seita (@marizaseitatattoo), além de tatuar no seu estúdio de tatugens Ink And Wheels (@ inkandwheels) e de outros projetos paralelos, tatua mamilos de mulheres que venceram a luta contra o cancro da mama. Depois de ler um artigo sobre um tatuador que fazia a mesma coisa, Seita informou-se, estudou as especificidades inerentes a este tipo de trabalho e ofereceu a sua primeira reconstrução de mamilos. «O trabalho correu super bem e quando terminámos e vi a reação da cliente, apercebi-me de que o que tinha acabado de fazer não tinha preço. De repente, senti que tinha nas minhas mãos o “poder” de devolver uma coisa que é muito difícil de alcançar para estas mulheres: a sua autoestima», revela-nos. Este serviço que Mariza realiza é oferecido às mulheres. «Uma das coisas que mais adoro na minha profissão é fazer todos os dias pessoas felizes com a minha arte, neste caso, faço muito mais do que isso e é tão gratificante que muitas vezes nem consigo descrever o que sinto», conclui.

As tatuagens na Moda

A moda também teve o seu papel neste processo de democratização. Afinal, esta é uma indústria que sobrevive à base da exposição da imagem do corpo humano. Modelos a desfilarem sem esconderem as suas tatuagens com maquilhagem trouxe mais visibilidade a este nicho artístico. Aliás, ter grandes marcas como a Dior, em 2018, a apresentarem-se em passerelle com fake tattoos relembra-nos que a própria maquilhagem pode ser um bom substituto antes da tatuagem real.

O ‘para sempre’ já não é definitivo

Voltando ao tópico do Reddit, o argumento mais utilizado em relação às tatuagens é a sua duração, aquele “para sempre” que já não precisa de ser para sempre. Também neste campo a tecnologia não nos deixou ficar mal e disponibilizou-nos técnicas que removem as tatuagens, nomeadamente lasers como o PicoSure. Sobre estes procedimentos, Isabel Correia da Fonseca, dermatologista na Clínica Isabel Fonseca (na Rua Joaquim António de Aguiar, 43, 5o esq., Lisboa), explica–nos que «um laser de picosegundos é capaz de transmitir uma grande quantidade de energia num ínfimo espaço de tempo (picosegundos), tendo desta forma a capacidade de distender as partículas do pigmento, sendo eliminadas normalmente pelo sistema linfático».

Apesar de parecer fácil, é importante referir que estes procedimentos, em termos de tempo, podem ser mais penosos do que fazer a própria tatuagem, demorando, em média, «entre quatro e oito sessões espaçadas com intervalo de seis a oito semanas, dependendo da quantidade de pigmento usado» a ver resultados.

Enquanto não decido marcar a minha tatuagem, sinto-me mais descansada por saber que tenho em mim o poder de gravar no meu corpo algo que é pessoal; o poder de partilhar com o mundo sem pôr em causa o meu dever cívico (doar sangue); o poder de voltar atrás se um dia o quiser; e o poder de ir aprendendo a preparar a minha pele para receber a tatuagem. Se, como eu, vai entrar agora em período de estágio, na galeria em cima estão todos os produtos e passos para acrescentar à sua rotina de tratamento do corpo.

 

 

Este artigo foi publicado originalmente na ELLE de agosto de 2019.