Olivier Polge, Perfumista da Chanel, Revela os Segredos da Nova Eaux da Marca

A Chanel acrescenta mais uma paragem à coleção Les Eaux. A ELLE falou em exclusivo com o perfumista da Maison. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: D.R.

Depois de termos passado por Deauville, Biarritz e Veneza em 2018, chegou a vez de partirmos de Paris em direção à Riviera, o novo destino da coleção de eaux de toilette Les Eaux. Falámos com Olivier Polge, perfumista da Chanel, para conhecermos esta edição limitada e o processo criativo das fragrâncias da maison.

ELLE: Este ano, viajamos até à Riviera. Conte-nos um pouco sobre esta nova eau de toilette da coleção Les Eaux.

Olivier Polge: Paris-Riviera é mais sensual. Um aroma muito floral, com flor de laranjeira e um pouco de jasmim. Quando seca na pele, torna-se um aroma mais envolvente devido ao sândalo e ao néroli.

ELLE: Diria que é um aroma de verão mais óbvio?

Olivier Polge: Gosto que tenha referido isso. Para mim, faz-me lembrar o calor do sol no verão. Um dos ingredientes principais é o néroli, que é exclusivo da Chanel. Só para contextualizar um pouco sobre as possibilidades que temos aqui na Chanel, o néroli de Grasse é muito floral, luminoso e fresco, enquanto o néroli exótico é mais misterioso, quase masculino. Este é um dos aspetos do meu trabalho que gosto de comparar com o trabalho de um pintor: ele tem a possibilidade de criar e de transformar cores na sua paleta; na Chanel, posso criar e transformar aromas.

ELLE: De Paris para Deauville, Biarritz e Veneza. Agora chegou a vez da Riviera. Porquê?

Olivier Polge: Porque não? Mesmo que não iguale o espírito das três primeiras eaux de toilette, gosto de trazer algo novo ao que já existe. Há algumas notas que, apesar de quase pertencerem à mesma família olfativa, conseguem trazer uma nova faceta à coleção. Neste caso, mais feminina, chama mais pelo verão.

ELLE: No ano passado, no lançamento, disse que esta coleção é muito diferente de todas as que a Chanel já fez. Porquê?

Olivier Polge: A Chanel é conhecida pelas fragrâncias ricas, intensas. No entanto, havia espaço para um aroma mais fresco, fluído, leve. Talvez algo mais informal. Tenho sempre presente na minha memória o conceito de eau de cologne. Aplicamo-la sempre de uma forma mais generosa, mais livre. Com Les Eaux, podemos fazer isso. Apesar de a frescura não ser uma novidade na Chanel, havia espaço no nosso portefólio para algo ainda mais fresco.

ELLE: Utilizou a palavra “fluído” para descrever as Les Eaux. Em que sentido é que são fluídas?

Olivier Polge: Eu gosto dessa palavra. Não se revê no conceito?

ELLE: Sim, mas talvez não com o mesmo propósito com que foi dita… Será porque podem ser aromas unissexo?

Não, mas sim. Podem ser usados por homens ou por mulheres, apesar de poder dizer que este último, o Riviera, é bem mais feminino do que os anteriores. A fluidez a que me referia é mais sobre a textura. Uma fragrância mais leve, com menos textura.

ELLE: Quase como se este aroma se revelasse de uma forma muito livre e diferente de pessoa para pessoa?

Olivier Polge: Também, mas imagine um tecido mais grosso e um mais fino. Este perfume é algo que se encontra numa espessura intermédia, nem é no nem é grosso. É aquilo que cada um quer que seja. Cada um escolhe a intensidade do perfume à sua medida.

ELLE: O conceito da coleção e as histórias que a envolvem são quase tão fortes quanto as próprias fragrâncias. Como é o processo de criação do enredo?

Olivier Polge: Num mundo onde há tantas fragrâncias a serem lançadas e onde a concorrência é tão grande, tens de te manter fiel a ti próprio. Quando comecei a criar estas fragrâncias, algo em que reparei foi que, muitas vezes, relacionas o aroma a uma memória, a uma pessoa ou a um sítio. A simples evocação desse sítio dá-te uma ideia de como é o cheiro. Algo de que também gosto muito nestas fragrâncias é a combinação de Paris com outro destino: se tiveres um pouco de informação associada ao destino, enriquece a história. É por isso que, até agora, todas as Les Eaux estão ligadas à história da Chanel e evocam diferentes coisas. Neste caso, Gabrielle teve uma casa na Riviera. Foi lá que ela criou o Chanel No5. Há várias camadas nesta história.

ELLE: Há mais alguma paragem para esta viagem?

Olivier Polge: Já estou a pensar em algo, sim. Talvez voltar a um destino que não seja em França.

 

Este artigo foi publicado originalmente na ELLE de julho de 2019.