Analisamos o Simbolismo do Cabelo, à Luz da Religião

O que é que torna o cabelo feminino tão sedutor e simultaneamente tão pecaminoso sob a luz da religião? Por: Lígia Gonçalves -- Imagem: © Gtresonline

Semiótica, uma palavra improvável para começar um texto sobre cabelos e uma ciência que se dedica a uma área fundamental: o estudo dos símbolos, ou utilizando o termo académico correto, dos signos. E, não, a astrologia não é para aqui chamada. Apenas o significado dos sinais, que estão em tudo o que nos rodeia e que são inevitável e implacavelmente comunicação. O cabelo está assim obviamente abrangido nesse todo e não é difícil perceber porquê: atribuímos determinado significado ao cabelo branco, ao cabelo rapado, e ao cabelo loiro, apenas para nomear alguns exemplos de uma lista quase sem fim. Assim, quando as três principais religiões dos nossos dias (o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo) determinam, ainda que de formas diferentes, que o cabelo feminino esteja coberto, atribuem-lhe também elas um significado.

Associado a uma imagem de feminilidade, o cabelo é não só símbolo de sedução, como símbolo da posição feminina, inseparável ao longo dos tempos, e ainda hoje, da exigência de modéstia. Como explica, Carlos Quevedo, autor de E Deus Criou o Mundo (ed. Desassossego): «O cabelo é atrativo numa mulher. As religiões abraâmicas, de estrutura patriarcal, impuseram ou continuaram a impor certas restrições às mulheres por diferentes justificações, muitas delas para mostrar publicamente qual é a sua condição: virgens, casadas, viúvas, etc. Nestas religiões, por tradição, devoção e pertença, exigia-se a modéstia ou o decoro, de acordo com o contexto histórico».

O cabelo na Antiguidade Clássica

Esta associação não começa, no entanto, nos anos pós-cristo, mas sim na Antiguidade Clássica. A forma como «o cabelo feminino [é] percepcionado nas religiões que nós conhecemos hoje radica precisamente nas estruturas culturais do mundo antigo, em particular no mundo antigo da esfera do Mediterrâneo», esclarece Nuno Simões Rodrigues, especialista em História da Antiguidade Clássica e Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. «E isso de alguma forma radica na ideia de que o cabelo é um dos elementos diferenciadores do género», continua Simões Rodrigues.

Uma distinção que «em períodos muitos mais antigos» não existia. Aí «não há uma diferença entre o cabelo comprido para o homem e para a mulher. Como não havia, atenção, noutros aspetos como os adornos de joalharia», contextualiza o professor.

Na Grécia Antiga, o cabelo feminino está no entanto isento do peso do pecado, porque «para o mundo grego esse conceito não existe», clarifica. Está sim «associado ao sentido de luxúria». Assim entendido porque o cabelo se associa a uma mulher «que está disponível para casamento. E isso de alguma forma joga a favor de uma ideia de erotismo e sensualidade». Serão assim os romanos, mais tarde, os primeiros «a começar a associar [o cabelo] àquilo que virá a ser uma ideia de pecado».

E se, como explica Simões Rodrigues, a «contenção moral romana é, de facto, muito pesada», há também outro aspecto fundamental para gregos e romanos: o equilíbrio. «Uma coisa que os gregos e os romanos e depois os cristãos, por arrastamento, valorizavam era a contenção, o equilíbrio, tudo na justa medida». Sob essa luz, uma mulher que utilizasse os cabelos visíveis seria então «uma despudorada, uma mulher incontida, desmesurada. Uma mulher excessiva, que sai da norma e sai da contenção».

O cabelo à luz do presente

Uma contenção que, inseparável da modéstia e do recato, continua a exigir-se hoje, de diferentes formas e por diversos motivos nas três religiões. No judaísmo, a tradição «impõe que, em público, a mulher casada cubra a cabeça», adianta José Augusto Ramos, especialista em Judaísmo e professor na Faculdade de Letras de Lisboa. «As modalidades de cobertura são múltiplas e vão desde o lenço, ao chapéu ou à peruca». Augusto Ramos explica ainda que hoje a forma como a questão é encarada «depende do grau de assunção de judaísmo por parte de cada mulher e do contexto social em que se insere».

Por seu lado no Islamismo «é obrigatório o [uso do] chador, hijab ou shayla», esclarece Carlos Quevedo. «Três indumentárias que cobrem a cabeça, mas deixam o rosto a descoberto». Quevedo explica ainda que «no Alcorão se diz que a maneira pudica de vestir é uma forma de mostrar devoção ao Profeta». Já no Catolicismo, o véu deve ser utilizado, de acordo com «o bom senso em geral e em [situações] protocolares», diz o autor.

«Cobrir o cabelo é o último

bastião de um controlo formal por parte dos homens»

 

Para Quevedo o facto da modéstia se exigir sobretudo às mulheres, deve-se a uma panóplia de fatores que abrange desde «o patriarcado, submissão da mulher ao homem, ausência de direitos da mulher», até ao «respeito, identidade e devoção». E ainda que afirme que «cobrir o cabelo é o último bastião de um controlo formal por parte dos homens», lembra também que «os homens judeus e muçulmanos também cobrem a cabeça» com o propósito de «mostrar respeito por Deus». Por seu turno, Nuno Simões Rodrigues, aponta a «ideia de género como construção cultural» como origem para a exigência de modéstia às mulheres. Uma construção que tendo em conta «a forma como a sociedade encara o género pela diferença» condiciona as «funções e lugares que cada género deve ocupar na sociedade».

Fatores que numa sociedade de génese patriarcal se materializam inevitavelmente numa hierarquização, e nos conduzem de volta ao simbolismo do cabelo coberto: sinal assim de uma mulher decente, recatada e controlada.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de novembro de 2018.