Cabelo Rapado no Feminino: de Tabu a Sinal de Empoderamento

De acessório de estilo a sinónimo de liberdade, o cabelo feminino já não responde a normas de género. Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: © Imaxtree.

«Rapar o cabelo levou-me diretamente ao meu primeiro orgasmo», escreveu Grace Jones, modelo, atriz e cantora de origem jamaicana, no seu livro autobiográfico I’ll Never Write My Memories.

Assim, à primeira vista, temos que parar para tentar perceber qual é a relação entre uma coisa e outra; e a resposta é nenhuma em concreto, a não ser o cabeleireiro responsável pelo primeiro look icónico de Jones. Muito fiel a si própria e à sua forma de estar na vida, a ex-manequim revela também na sua autobiografia que o seu cabelo rapado a  fez «parecer mais abstrata, menos presa a uma raça específica ou género ou tribo. Era negra, mas não era negra; era mulher, mas não era mulher; americana, mas jamaicana; africana, mas ficção científica».

Acrescentamos o ser disruptiva e pioneira porque foi isso que Grace foi e ainda é. E é muito por culpa de ter rapado o seu cabelo nos anos 70 e de ter usado esse facto como um instrumento de veiculação da sua mensagem que hoje estamos aqui a falar sobre mulheres que, por escolha própria, decidem não ter cabelo.

«Aqui há dias fui comprar tabaco e a senhora da papelaria virou-se e perguntou-me “Foi escolha?” e eu disse que sim e ela respondeu “Que estupidez. Tanta gente a tentar deixar crescer o cabelo e tu fazes isso”», conta-nos Verónica Gonçalves, artista plástica. Aos 18 anos, depois de ter pintado o seu cabelo castanho de loiro e de este processo o ter deixado danificado, decidiu rapá-lo. Assim, de repente. Numa manhã de sábado acordou, decidiu e fê-lo.

Passados seis anos, todos os dias é confrontada por estranhos devido ao seu cabelo rapado. Quer seja com olhares curiosos ou com perguntas indiscretas, as abordagens já se tornaram um hábito para Verónica. E porquê? Porque a norma é ver as mulheres com cabelo. Se ele não existe assume-se que há com certeza uma condição médica como explicação ou uma questão de sexualidade. Mas se Grace Jones serve de exemplo – e de inspiração para uma legião de mulheres – é precisamente para nos lembrar que não deve existir problema em sermos quem somos.

A sensação de liberdade, aquela que muitos homens afirmam sentir e usam como argumento para justificar o seu próprio cabelo rapado, também é um argumento no feminino. Assim como a facilidade de manutenção. Não há máscaras nem tratamentos de regeneração ou hidratação capilar nas prateleiras ao lado do chuveiro. Nem o básico champô é necessário. «Rapo-o uma vez por semana. Comprei uma máquina e faço-o todas as semanas. Rapo máquina um, que são três milímetros. É o único cuidado. No inverno não há humidade. No verão não faz calor… É incrível», conta Rodrigues quando questionada sobre os cuidados que o seu look exige. A cor azul que usa agora (que já foi rosa, lilás e outras tantas), é opcional.

Consegue imaginar tal liberdade? Mais, consegue imaginar o baixo esforço que implica? E a inquebrável confiança de nos sentirmos sempre femininas mesmo que o cabelo rapado seja a opção? A artista plástica diz que já passou por momentos de dúvidas, mas poucos. «Três ou quatro. Provavelmente em relações mais pessoais, em certos momentos. Já ouvi coisas de pessoas que não esperava em relação a isso, mas é como tudo na vida. Tu ultrapassas. Tens que ter força e confiança para ultrapassar», diz.

Se se questiona se Verónica tem intenções de voltar a deixar crescer o cabelo, ela confidenciou que costuma pensar que nasceu «para ter o cabelo rapado, mas não sei». Certo é que quando o fizer, se alguma vez o fizer, vai ser porque #meucabelominhasregras.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de novembro de 2018.