Como A Indústria da Beleza Está A Tentar Erradicar Os Ideais de Beleza

Será que estamos preparadas para nos aceitarmos sem qualquer tipo de barreiras físicas? Por: Carolina Adães Pereira -- Imagens: D.R.

Num dos episódios de O Sexo e a Cidade (o primeiro da quarta temporada), à conversa durante uma refeição, Samantha partilha com as suas amigas que vai fazer uma sessão fotográfica nua. Faz-se um momento de silêncio e a sempre pragmática Miranda pergunta: «O que é que vais fazer? Postais para dar aos teus futuros namorados?» Ao que Samantha responde: «Não se trata de obter a aprovação de um homem. Esta foto é para mim. Quando for velha e as minhas mamas me chegarem aos joelhos, posso olhar para ela e dizer: ‘Bem, eu era mesmo boa!’». A discussão continua e a possibilidade de a personagem de Kim Cattrall poder ser ou não narcisista por gostar do seu corpo o suficiente para se sentir confortável despida é debatida.

A evolução do corpo ao longo do tempo

Passaram-se anos desde esse momento, mas estas visões divergentes permanecem. A questão aqui não deveria ser porque é que queremos uma recordação do nosso corpo nu, antes, porque não? Podemos remeter para questões sociológicas, históricas até. Afinal, algures no tempo, o corpo humano foi reverenciado, se as estátuas greco-romanas servirem de exemplo. Não como algo sexual, mas sim como normal, real até. As barrigas das esculturas são ligeiramente arredondadas, as mamas são descaídas. O que é que mudou para termos dificuldade até de nos vermos ao espelho nuas?

Refletindo numa perspetiva atual, ainda há alguns tabus quando se fala do corpo nu, principalmente quando esse corpo é de uma mulher. Exemplo disso mesmo é a campanha Free The Nipple (libertem os mamilos, em português), no Instagram, que visa acabar com a censura a fotografias de mulheres que mostrem os seus mamilos. Em 2015, quando o CEO desta rede social foi questionado sobre o porquê desta prática, a explicação foi conduzida para a Apple Store e a sua política contra a nudez. Se o Instagram não praticasse esta política, não poderia ser descarregado por pessoas com menos de 17 anos. Ou seja, se forem imagens de mamilos de um homem, de uma mulher a amamentar ou de uma sobrevivente de cancro da mama, é tranquilo. O problema é mesmo só com os mamilos da mulher. Porque o corpo feminino é muito sexualizado.

A perpetuação do ideal de beleza da mulher

Há um ideal do corpo da mulher que não é real e é perpetuado também pela indústria da cosmética, como refere Bron Stange, fundadora da marca Bopo Women – uma marca de produtos para mulheres que promove o body positive, ou a aceitação corporal –, ao site The Unedit: «Comecei a constatar o quão opressivas eram estas forças estruturais e como os mitos de beleza foram criados para fazer com que as mulheres se sintam pequenas e sem valor».

A questão relacionada com os mitos de beleza é muito válida, principalmente quando diversas marcas se apropriam do facto de serem próximas às pessoas para alimentarem as suas fraquezas e maximizarem as suas supostas falhas com opções de combate, partindo sempre do pressuposto de que há algo errado. Exemplo disso mesmo é a existência da palavra “anti” em categorias de produtos: anticelulítico, antienvelhecimento, antiestrias.

Outro ponto é a oferta de produtos corporais ser bastante reduzida. Não é que não haja muitas marcas nas prateleiras das lojas, não há é produtos que efetivamente respondam às necessidades reais da mulher. Por exemplo, as suas coxas tocam uma na outra ao andar? Se a resposta é sim, o que é que aplica na pele para evitar (ou minimizar) irritações ou feridas?

Uma solução para um problema comum

A blogger Katie Sturino deparou-se com este mesmo problema e criou a Megababe. Primeiro, surgiu o Thigh Rescue, um bálsamo em stick para impedir a fricção das duas coxas e as consequentes feridas. «Estamos a tentar resolver problemas de pessoas, sobre os quais não se sentem confortáveis a falar abertamente e que gigantes da indústria têm ignorado», contou a blogger à ELLE norte-americana sobre o propósito da sua marca.

Sturino ouviu muitos ‘não’. Disseram-lhe que o conceito dela era para um nicho de mercado e que não ia ter expressão, o que acabou por não acontecer porque as mulheres se identificaram com a imagem do produto, a linha de comunicação e, acima de tudo, porque precisavam de um produto assim.

O que Katie fez foi aplicar um princípio que normalmente só é associado ao tratamento de rosto no universo de skincare: produtos específicos com propósitos também eles específicos. Mas, principalmente, Sturino é mulher. Ela conhece o seu corpo, sabe quais são as suas necessidades e constatou que o mercado não lhe dava opções para se sentir bem com ela própria e para que o corpo dela estivesse confortável.

Para dar uma de Samantha, só tem de querer. Aquele nível de confiança é alcançado se nos sentirmos bem como somos, independentemente do nosso tamanho, da nossa forma ou das nossas marcas. Ouça o seu corpo e procure produtos para tratar dele como ele merece. Adiantámos este processo e fizemos uma seleção de produtos pensados para o corpo feminino e para as necessidades da mulher, para que consiga estar no seu melhor. Porque se não gostar de si e do seu corpo nu, quem gostará?

Na galeria, em cima, reunimos sete produtos para que comece (ou continue) a amar o seu corpo – e todas as suas zonas e recantos.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2019.