Está À Vontade Com O Seu Peito Para O Colocar Num Pote De Cerâmica?

Independentemente do tamanho e da forma, as mulheres têm relações muito distintas com as suas mamas. Por: Pandora Sykes -- Imagens: © Instragam @potyertitsawayluv

Recentemente enviei a minha primeira selfie topless. Não era uma foto atrevida. O seu destinatário era uma mulher que nunca conheci: uma artista e ceramista de Leeds que expõe e vende o seu trabalho via Instagram – com o perfil @potyertitsawayluv. Um mês depois, recebi um pequeno pote com uma réplica exata das minhas mamas – até as quatro sardas no meu peito estavam lá.

As mulheres e o seu peito

Como muitas mulheres, tenho uma relação algo complicada com os meus seios. Em adolescente, odiava-os. Qualquer comentário que sugerisse que tinha mamas grandes resultaria em ira ou lágrimas. Eu adoro maminhas – grandes ao ponto de ninguém não conseguir ignorá-las ou minúsculas ao ponto de serem pouco mais que um mamilo; é indiferente. Simplesmente não consegui desenvolver uma boa relação com as minhas. Elas não eram enormes: uma copa E num corpo que veste o tamanho 8. Mas elas sempre me fizeram sentir muito visível. Exposta. Aos 20 anos, depois de anos de soutiens minimizadores e passar a vida curvada para esconder o meu peito, passei por uma longa e sonhada redução mamária numa clínica cirúrgica em Harley Street que fazia lembrar uma sala de visitas dos anos 70.

A redução mamária mudou o tamanho dos meus seios, mas não mudou completamente o meu relacionamento com eles. O tamanho era menor, mas a minha antipatia em relação a eles manteve- se. Só depois de ter o meu filho no ano passado – e observá-los aumentar a proporções verdadeiramente cómicas antes de achatarem para os delicados saquinhos de chá que são agora – que me sinto capaz de vê-los pelo que são. E não porque eles provaram o seu propósito e forneceram leite à minha criança (segundo a escola de pensamento que defende que a única razão de ser do corpo de uma mulher é a maternidade), mas porque amamentar significava que eu não era mais capaz de me separar das minhas mamas ou dispensá-las. Ignorá-las, como fiz durante quase duas décadas, não era mais uma opção. Tive que aceitá-las como totalmente minhas.

Peitos, seios, margaridas, melões, maminhas, tetas. Existem inúmeras expressões para mamas – quase tantas como as formas e tamanhos em que elas existem. Ainda assim, poucas podem fazer parte de uma conversa dita cultural. De um lado, temos as mamas do universo da moda, firmes, pequenas e encaradas de uma forma artística. Por outro lado, há os seios “abana-abana”. Eles são considerados as mamas dos homens. As mamas privadas – as minhas e provavelmente as suas – não se encaixam neste binário estreito. Mamas descaídas, mamas ácidas e mamas que não são caucasianas têm um historial de serem ridicularizadas.

Movimentos body positive

Mas os tempos de mudança estão a chegar. Finalmente! Foi devido a esta discrepância de visões que a blogger e autora do livro What A Time To Be Alone (disponível na amazon), Chidera Eggerue, também conhecida como The Slumflower, lançou o movimento #saggyboobsmatter em 2017. «Como fazer styling com seios ácidos: um tutorial. Passo um: use a maldita roupa. Passo dois: lembre-se de não se importar. Eventualmente, vamos todos morrer», escreveu Chidera no seu perfil de Instagram. O movimento rapidamente se tornou viral e cimentou a voz de Chidera como ativista body positive. «Fiquei cansada de não gostar de mim, cansada de ter uma razão para me condenar e exausta de evitar certas roupas que revelariam a forma das minhas mamas», contou Chidera à ELLE. «Aos 19 anos, comecei a tomar pequenas decisões, como escolher não usar soutien. Isso evoluiu para recusar-me a ficar intimidada por usar decotes profundos». Procure o hashtag no Instagram e vai encontrar milhares de imagens positivas de mulheres de todo o mundo a celebrar os seus seios, seja qual for a forma e independentemente do tamanho.

Esta não é a primeira vez que vemos movimentos a tentar livrar as mamas do olhar masculino. Afinal de contas, já percorremos um longo caminho desde 2014, onde uma mulher que estava a amamentar no hotel Claridge’s, em Londres, foi convidada a cobrir-se. Natalie Portman, no seu discurso na cerimónia Variety’s Power of Women em outubro passado falou sobre mamas. «O aspeto mais notável sobre nós enquanto animais são as nossas mamas», afirmou. «Nós sabemos disso, os homens sabem disso e os bebés definitivamente sabem disso. Aliás, na nossa primeira reunião do Time’s Up, estava a amamentar a minha filha numa sala que não só permitia como aplaudia o ato. Mas de qualquer forma, os nossos seios são incríveis e há uma mensagem nas nossas glândulas mamárias». (A mensagem sendo: quanto mais leite der, mais leite produz, em relação à equanimidade de géneros).

Depois, há o #FreeTheNipple, que surgiu pela primeira vez em 2012 em resposta à proibição do Instagram em mostrar os mamilos femininos em publicações – embora este movimento tenha sido considerado, em tom de crítica, Insta-feminismo, um conceito limitado que teve como principais apoiantes mulheres cisgéneras, caucasianas e magras, que, no Instagram, usam os seus bíceps como se fossem um acessório de moda.

Em contraste com o #FreeTheNipple, o movimento de hoje é caracterizado pela sua inclusividade. Onde o positivismo corporal – e outras formas de feminismo – muitas vezes exclui mulheres de cor, o hashtag de Chidera é especificamente destinado a «mulheres gordas de pele negra». «Houve sempre um discurso que ou hipersexualiza o corpo da mulher negra ou a trata como algo transgressivo», comenta Kenya Hunt, da ELLE UK, que comprou o seu próprio pote depois de eu lhe ter apresentado o trabalho da Emma.

Nos Estados Unidos, a jornalista Mara Altman, autora da coleção de ensaios Gross Anatomy: Dispatches From The Front (And Back), também está na luta contra os padrões de beleza quando se trata de mamas. «Os meus seios sempre foram para outra pessoa», conta. «No secundário, queria que eles crescessem para ser mais atraente para os rapazes. Para os médicos, as minhas mamas são uma das partes do meu corpo que me podem trazer complicações. Para os meus filhos, são uma fonte de comida. Para a moda, são um acessório». Esta foi uma das razões pelas quais Mara tirou o soutien e pegou na sua bicicleta, juntando-se a centenas de outras mulheres num passeio em topless por Nova York em 2016. «Naquele dia, pela primeira vez, usei e mostrei partes do meu corpo nos meus próprios termos, e por mais nenhum motivo além de sentir o vento e o sol na minha pele. Estava a expor-me a uma cidade com oito milhões de pessoas mas senti que as minhas mamas eram mais minhas do que nunca».

Pot Yer Tits Away Luv

Emma Low, a artista de 28 anos que está por trás do perfil @potyertitsawayluv, estima ter fabricado um milhão de potes no ano passado. «O meu trabalho nunca estará terminado», conta. «Penso que ainda só toquei na superfície da missão de normalizar os seios». No início, Emma fez um pote com seus próprios seios para dar ao seu namorado, antes das amigas começarem a pedir potes para elas. Agora, a artista diz: «Quero que todas se sintam incluídas no meu trabalho, e esse conceito de inclusão ainda é bastante invulgar no mundo em que vivemos». A sua cliente mais nova tem 18 anos e a mais velha tem 60 e muitos anos. Low acha que já viu todo o tipo de configurações possíveis de mamas (incluindo a mastectomia pós-operatória), em todas as tonalidades de pele concebíveis. Quando o meu pote chegou e o segurei na minha mão, foi uma sensação quase terapêutica, libertadora e bastante emocional. Porque este pote não era um presente erótico para outra pessoa (embora o meu marido se tenha pronunciado sobre esse assunto), foi para mim. Para que eu pudesse examinar os meus seios de forma objetiva. Eles não eram assustadores nem pareciam furiosos. Nem estavam tristes ou solitários. Eles estavam apenas… ali. Completamente e totalmente normais. A viverem a sua vida. Muito dificilmente dignos de todas as disputas internas que eu tinha desperdiçado com eles ao longo dos anos.

Não sei se aquilo que sentia em relação às minhas mamas tinha sido influenciado por toda a atenção masculina de que fui alvo na puberdade e me fez odiar as sua existência. Talvez não tenha nada a ver com o olhar masculino, se calhar nunca estive destinada a ter uma ótima relação com os meus seios. De qualquer forma, como a sociedade começa a rejeitar a ideia de que uma mulher é a mera soma das suas partes (e classificada de acordo com o calibre de cada parte), penso que entrei num processo aceitação. Às vezes coloco as mãos nas minhas mamas e deixo-as lá. É um hábito estranho que aprendi com a minha irmã mais velha, que cobria os seus seios, de forma inconsciente, enquanto relaxava. Ainda sinto algum medo, seguido imediatamente por uma nova sensação de alívio. Acho que nunca vou amar as minhas mamas, mas estou a começar a cultivar um certo carinho por elas. Especialmente agora que elas estão cheias das minhas canetas favoritas.

Veja na galeria alguns produtos para tratar do seu peito.