Violência no Namoro: 91,9% dos Agressores São Homens

Em 2019, foram feitas seis denúncias mensais de violência no namoro. Por: Margarida Brito Paes Imagens: © D. R.

A cada trinta dias de 2019, o Observatório para a Violência no Namoro recebeu 6,2 denúncias de violência no namoro. 95,9% dos denunciantes é do sexo feminino, 12,2% esteve em perigo de vida e 6,8% ainda não está em segurança. Apenas 10,8% dos casos foi reportado por pessoas em situação de violência aquando da denúncia, sendo 51,4% das denúncias feitas por ex-vítimas de violência no namoro. Foram estes alguns dos dados revelados no relatório do Observatório da Violência no Namoro.

Os agressores

A violência no namoro não é um problema exclusivamente feminino, mas o diferencial entre os géneros é abismal. 91,9% dos agressores são homens, enquanto apenas 8,2% são mulheres. Uma realidade bastante mais discrepante que a apresentada nos dados em relação à legitimação da violência, onde são mostrados diferenciais mais baixos entre os géneros. Segundo o Estudo Nacional de Violência no Namoro, em 2019, a violência psicológica era vista como legítima por 20% das raparigas e 34% dos rapazes. Já a violência física foi legitimada por 10% dos rapazes e 4% das raparigas.

Quanto ao perfil dos agressores, apresentado no relatório do Observatório para a Violência no Namoro, sabemos ainda que 77% são namorados/as das vítimas. A média de idades, no caso dos rapazes, é de 22 anos e, nas raparigas, de 23 anos.

As vítimas

As vítimas de violência no namoro são, em 87,8% dos casos, heterossexuais, 5,4% bissexuais, 1,4% gays e 5,4% lésbicas. Independentemente da orientação sexual, em 89,2% dos casos, as vítimas são mulheres.

Das 74 denúncias analisadas para a elaboração do relatório, 51,4% foram feitas no Porto, sendo este o ponto do país com mais casos assinalados. A esta cidade, segue-se Lisboa, com uma larga distância, registando apenas 10% das denúncias.

O tipo de violência no namoro

A violência verbal é mais frequente, sendo apontada em 87,8% das denúncias. Segue-se a violência psicológica, com 75,7%, o controlo (64,9%), a perseguição (35,1%), social (32,4%), violência física e sexual (27%, cada).

A estas, acrescentam-se as ameaças de morte, em 12,2% dos casos, e as tentativas de homicídio, em 4,1% (o correspondente a 3 vítimas). Das 74 denúncias apresentadas, uma delas acabou mesmo em homicídio – é de lembrar que 28 das denúncias estudadas foram feitas por testemunhas.

As causas atribuídas à violência são, sobretudo, os ciúmes, em 70,3% dos casos, e os problemas mentais dos agressores (40,5%). Também os problemas familiares são vistos como gatilho para a agressão, em 25,7% dos casos.

A esta lista, juntam-se 23% das vítimas que acredita que foi o seu comportamento que levou à agressão.

Testemunhos

O observatório revela ainda alguns relatos que devem ser lidos.

«Chegou a acontecer de nos chatearmos, irmos a jantares, ele ser amoroso comigo à frente dos outros e, por baixo da mesa, me estar a dar pontapés. Nas discussões, exaltava-se ao ponto de dar murros às paredes e ao carro». (Sexo feminino, 17 anos)

«Ele usava o controlo, manipulação e chantagem para conseguir o que queria. Controlava o que eu vestia, não queria que eu usasse maquilhagem, ameaçava que iria divulgar informação pessoal se eu não fizesse o que ele quisesse, principalmente a nível sexual. Deitou-me totalmente abaixo e fez-me chegar a um ponto em que me sentia dependente dele». (Sexo feminino, 21 anos)

«Já após o término do namoro, sob o pretexto de conversar, levou-me a uma casa que era dele, mas que eu não conhecia e aí obrigou-me a ter relações sexuais sob uso de força». (Sexo feminino, 36 anos)