Vereadora Japonesa Afastada da Assembleia Depois de Acusar Autarca de Assédio

Os residentes de Kusatsu acreditam que esta terá «degradado» a imagem das mulheres da província com a denúncia Por: Inês Aparício Imagens: © Gtresonline.

Shoko Arai é a única vereadora do género feminino em Kusatsu, onde a desigualdade de género e o sexismo são ainda abismais. No entanto, esta poderá deixar de integrar a assembleia da cidade japonesa, a noroeste da capital, Tóquio, uma vez que os residentes votaram, em referendo, para que esta abandonasse o seu cargo, após ter acusado o autarca de assédio sexual. Por trás da decisão dos habitantes – que, de acordo com as autoridades da cidade, citadas pela CNN, reflete a opinião de 92% da população – está a crença de que Arai terá «degradado» a imagem das mulheres da província de Gunma, na qual Kusatsu está inserida.

A acusação em causa remonta já a novembro do ano passado, quando a vereadora publicou um e-book, no qual revelava ter sido forçada pelo autarca da cidade, Nobutada Kuroiwa, a ter relações sexuais no gabinete deste, em 2015. «De repente, ele puxou-me para mai perto de mim, beijou-me e empurrou-me para o chão», referiu Arai, segundo o The Guardian, adicionando que «não o conseguiu afastar». Kuroiwa negou a denúncia, garantindo que a porta e cortinas do seu gabinete estavam abertas no dia do alegado incidente. Além disso, apresentou uma queixa por difamação, na polícia local.

Indignados com as alegações da vereadora com assento no parlamento desde 2011, os membros da assembleia local deram início a uma série de ataques pessoais contra Shoko Arai e, no mês seguinte, em dezembro de 2019, votaram a favor da sua destituição. Contudo, as autoridades da câmara local reverteram esta decisão, mesmo depois de esta ter chegado a abandonar a instituição. É de salientar que foi apresentada uma moção para demitir o alegado abusador, mas não foi aprovada.

Recorrer da decisão

De acordo com o The New York Times, Nobutada Kuroiwa e outros membros da assembleia local procuraram recolher assinaturas dos habitantes de Kusatsu para que um novo referendo fosse colocado em ação. Com os argumentos de que não existiam provas suficientes acerca do alegado caso de abuso sexual e que a cobertura dos órgãos de comunicação relativa ao caso pôs em causa a reputação da cidade, o inquérito aos residentes acabou mesmo por acontecer. 2.542 pessoas votaram a favor da demissão de Arai, enquanto 208 mostraram-se contra, adiantou o mesmo jornal. Assim, neste fim de semana, a vereadora perdeu o assento na assembleia local.

Perpetração do sexismo no país

Esta é uma prova das dificuldades que as mulheres encontram no país, no que a casos de abuso e violação sexual diz respeito. «Esta é uma muito, muito típica reação japonesa contra as vítimas sobreviventes do género feminino», salientou Hiroko Goto, especialista em direito e género na Universidade de Chiba, em declarações ao NY Times. No Japão, são raras as denúncias de situações deste género e a discussão é ainda residual.

Como nota a CNN, este país encontra-se na posição número 121 de entre 153 países no mais recente índice global de desigualdade de género, desenvolvido pela World Economic Forum, mostrando o contínuo desequilíbrio entre homens e mulheres no Japão. Aí, existe uma grande discrepância entre o número de trabalhadores do sexo feminino e masculino, além de uma constante rejeição da atribuição de posições hierárquicas superiores a mulheres.