As Mulheres Fortes e Empoderadas de Alves/Gonçalves Fecham o Último Dia de PF

O evento de moda deixou o Porto, este sábado, ainda com as propostas de Alexandra Moura e Susana Bettencourt. Por: Inês Aparício Imagens: © Portugal Fashion.

As paredes brancas da Alfândega deixaram de servir, pela manhã, como pano de fundo dos desfiles, no Portugal Fashion. Estas foram trocadas pelos jardins da Fundação de Serralves, que tornaram a apresentação de Marques’Almeida – onde revelou que vai ser possível alugar roupa da marca, assim como comprar peças em segunda mão, além de ter desvendado a data da linha de criança que a dupla está a desenvolver – num postal de verão, enquanto o sol brilhava no céu e nos fazia esquecer que o mês de outubro está já a terminar.

Mas à tarde, o regresso ao espaço habitual, junto ao Douro, fez-se para que criadores como Alexandra Moura, Susana Bettencourt, Maria Gambina e Alves/Gonçalves pudessem exibir as suas propostas para a primavera/verão 2020.

Para Alexandra Moura, há mar e mar, há ir e voltar

Ouve-se o pipilar de gaivotas e, ao longe, barcos em alto-mar. É assim que, mesmo antes de os modelos darem à costa, somos transportados para a labuta diária dos pescadores dos Bacalhoeiros, que inspiraram Alexandra Moura na coleção de primavera/verão 2020, no que poderia ter sido um poema escrito por Fernando Pessoa.

«Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!/Por te cruzarmos, quantas mães choraram,/Quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar!», os versos de Mar Salgado, não são, mas podiam ser sobre a vida destes homens e das suas mulheres que ficavam em casa, entre medo e esperança, à espera que estes regressassem ao lar. E podiam ser, por isso, sobre Gadidae.

Ainda que, curiosamente, o avô do marido da designer trabalhasse da pesca de alto mar, não foi essa a razão que a levou a desenvolver este conceito. «Sempre me chamaram muito à atenção as roupas dos pescadores de pesca mais agressiva, daí ter escolhido a pesca do bacalhoeiro, por toda a roupa, acessorização, condições altamente adversas em que trabalham, aquilo que precisam de ter vestido para colmatar um série de coisas, desde o frio, à humidade, à água, etc. E depois, todo o outro lado de quem vive com alguém que trabalha em alto mar, vários meses a fio, e que fica em terra a ter que levar uma vida normal sempre com aquela sensação de saudade, sem saber se volta, se não volta», conta a designer, à ELLE.

Este binómio traduz-se num contraste entre uma vertente mais urbana, onde silhuetas oversized e grandes bolsos ganham destaque, e outra mais romântica, na qual surgem os folhos e laçadas características da criadora, além de flores e transparências. A silhueta de bacalhaus foram ainda adicionadas, quer ao nível do styling, como se de colares se tratassem, quer pregados a vestidos de organza.

Além deste material, Alexandra utilizou ainda linho, algodão, seda, ganga e impermeável, este último como resposta às necessidades dos pescadores em alto-mar. Criou ainda vestidos, sweatshirts, casacos e saias com uma matéria que não costuma trabalhar, a tapeçaria. « Aquele tecido remeteu-me para algo muito português – apesar de ser uma matéria prima francesa. Remeteu-me aos tapetes que muitas das vezes, nas casas dos pescadores, vemos pendurados na rua, a apanhar sol. É um tecido de algodão, feito em tear e tinha as cores que queria e por isso fez todo o sentido integrar na coleção», esclarece.

A urgência de Susana Bettencourt em parar o relógio

2019 é marcado, para Susana Bettencourt, como o ano da mudança. Foi a partir deste que a designer passou a implementar uma nova estratégia – que estava já a ser pensada e desenvolvida há dois anos -, da qual uma coleção por ano é o grande mote. Depois de, em março, ter abandonado o pensamento comercial, para explorar as suas técnicas ao máximo, esta traz agora uma linha que é também uma chamada de atenção para a urgência de pararmos o tempo e mudarmos comportamentos e perspetivas, especialmente sobre saúde mental.

«Penso que está na hora – e já está tarde, na verdade – de todos começarmos a aceitar melhor os outros, sem julgar, e para que nos ouçamos uns aos outros», frisa Susana, depois de explicar que esta Super Humans – Time to Change é «um alerta de que realmente é preciso criar alguns mecanismos, desde a escola, a casa, principalmente nos adolescentes porque, neste momento, uma das maiores causas de morte na adolescência, é o suicídio», enquanto consequência do bullying e ciberbullying.

A algumas das peças já exibidas na temporada passada do Portugal Fashion, a criadora adicionou transparências e gangas, numa vertente mais comercial. «Como tive o meu bichinho de fazer as peças manuais, quando fizemos a parte comercial focamo-nos claramente naquilo que vendemos, e a verdade é que vendemos partes de cima. Por isso, tivemos de ir buscar algo que não tivesse de ser obrigatoriamente de malha e que necessitasse de ser forçada. Aí acho que jogamos bem, porque mantivemos o bordado, continuamos a manter a nossa linguagem através do bordado, mas conseguimos fazer um produto diferente, na mesma com o ADN da marca», refere.

Além desta coleção na qual as engrenagens de relógios estampam malhas mais finas que o habitual, de modo a serem facilmente adaptadas ora ao verão, ora ao inverno – uma vez que a criadora irá apresentar apenas uma linha por ano -, Susana Bettencourt apresentou ainda um projeto em colaboração com Ana Guiomar durante o último dia do Portugal Fashion.

Tal como na coleção apresentada em formato desfile, também esta linha de edição limitada é uma chamada de atenção para a questão da saúde mental. No entanto, esta é mais focada nos «alarmantes números das depressões e suicídios, em Portugal».

Composta por nove modelos de malhas, dez peças de cada, esta tem um caráter de beneficiência. Independentemente do valor de cada peça, onde estão estampados os números de pessoas que morrem por ano de suicídio, 62420, €25 de cada peça reverte para a Instituição Telefone Amizade. Os quimonos têm um custo de €100, enquanto que as camisolas podem variar entre os €50 e €60. As peças já estão à venda, neste momento no site da criadora, e na Scar-id.

O jogo fora das quatro linhas de Maria Gambina

Ao apito inicial que levou a equipa de Maria Gambina, não para dentro das quatro linhas, mas das quatro paredes da sala de desfiles que ocupa a Alfândega do Porto, a ordem foi de desconstruir. E a designer marcou golo logo nos primeiros minutos do jogo, através da reformulação dos decotes de t-shirts de equipas de futebol brasileira da década de 90 e da inversão de peças, nas quais as mangas eram atadas nas costas.

Contudo, o universo desportivo deste país, que serviu como ponto de partida para a coleção, não se ficou pela inclusão destas camisolas. Também as barras, quer verticais, quer horizontais, foram levadas para o campo, onde surgiu uma nova equipa: a Maria Gambina FC. Esta foi apresentada aos sócios (aka público) em emblemas diversos, que cobriam casacos longos e fluídos, e ainda em pequenos detalhes em diferentes peças.

O anjo e o diabo nos ombros de Alves/Gonçalves

Foi uma mulher fatal, forte e empoderada que abriu a apresentação da dupla, num conjunto de 15 coordenados (num total de 40) em que o negro, o brilho e as silhuetas masculinas serviam como denominador comum. Por contraste, a estas seguiram-lhe peças mais fluídas, amplas e românticas. Como se, nos ombros de Manuel Alves e José Manuel Gonçalves, convivessem um anjo e o diabo, puxando-os em direções contrárias.

Numa dualidade masculino/feminino, este último impõe-se de modo a quebrar barreiras de género. «A intenção é mostrar que o masculino também é muito feminino. Parece um contrassenso, mas é verdade», explica Manuel Alves. Isso traduz-se, por exemplo, em cinturas marcadas nos fatos completos ou na adição de corpetes no topo de camisas.

A manipulação de materiais fez ainda, tal como na coleção passada, grande parte desta linha que explora novas formas e matérias. Os plissados seguem caminhos diferentes e acabam por convergir, frequentemente, num ponto central, criando movimento e dinamismo. «Os vestidos são dançantes. Quando [as modelos] andam, mexe tudo, e era essa ideia que queríamos, que o vestuário flutuasse no espaço», nota o criador.

É ainda de salientar a desconstrução de peças, que perdem a sua forma original para dar vida a outras. De vários pares de calças, surgem uma camisa, uma capa e uma gabardine, nas quais as presilhas, os bolsos e os pespontos nos dão sinais da sua vida passada.

Do último dia de desfiles, foram ainda apresentados os segmentos de criança e sapatos, assim como as propostas de Meam e Concreto. Além destes, também as novas fardas dos trabalhadores da Galp, desenvolvidas por Pedro Pedro, foram exibidas num desfile que contou também com funcionários da empresa.