O Transtorno De Ansiedade Generalizada Pode Não Ser Um Ponto Sem Retorno

Esta condição tornou-se num dos maiores problemas de saúde mental do século XXI. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagens: © D. R.

Ainda que me tenha acostumado a ouvir as pessoas falarem de problemas relacionados com saúde mental com displicência, nunca consegui fazê-lo. Talvez o facto de ter uma irmã formada em Psicologia tenha moldado essa minha forma de pensar, mas a verdade é que sempre encarei todos esses problemas com bastante seriedade. Bem, todos menos um: a ansiedade. Como dizem os brasileiros, sempre olhei para a ansiedade como sendo uma ‘frescura’, algo que só afeta os mais sensíveis e que se resolve com uma simples palmadinha nas costas e um «Vá, não tens razão para estar assim. Está tudo bem». Mas como o karma é (perdoem-me a expressão) lixado, um dia a minha opinião mudou radicalmente, quando, do nada, me tornei a pessoa que começou a ouvir essa frase vezes sem conta. Sim, tal como aquele amigo que nos aparece em casa sem avisar, eu fui visitado pela ansiedade, que decidiu fazer do meu cérebro a sua casa.

Todos sabemos que, em Portugal, continuamos a associar a palavra «fraqueza» aos problemas de saúde mental, e isso fez com que, à partida, eu não quisesse que ninguém soubesse de nada. Era um monstro que vivia na minha cabeça, «aquele cujo nome não devia ser NUNCA pronunciado». Contudo, e passados alguns meses nesta encantadora companhia, decidi, finalmente, ir-me abrindo aos poucos e partilhando com algumas pessoas o que se estava a passar comigo.

As reações não foram nada do que estava à espera. Isto porque, em vez de ouvir um «Vá, não tens razão para estar assim. Está tudo bem», ouvi um «Eu também». Fiquei chocado pela quantidade de vezes que ouvi estas palavras saírem da boca das pessoas. Um estado que veio a agravar-se ainda mais quando me deparei com um estudo realizado em 2018 pela OCDE (Health at a Glance) que indicava que este país à beira-mar plantado era o quinto com a taxa mais elevada de pessoas a sofrerem de transtorno de ansiedade generalizada. Para ser mais concreto, 6% da população portuguesa tinha este problema.

Sempre defendi a teoria de que os assuntos mais difíceis devem ser discutidos, só assim evoluímos e conseguimos retirar-lhe a carga negativa. Então, isso fez-me questionar: se esta é a realidade de tantas pessoas, porque é que não se investiga e se fala mais sobre o assunto? Decidi ir em busca de respostas, sendo umas mais convencionais do que outras.

Labirinto mental

«A ansiedade pode ser vista como uma espécie de combustível que é necessário para estarmos preparados para alguns desafios», começa por me explicar a Dra. Catarina Graça, psicoterapeuta na Clínica da Mente. «O problema é quando níveis de ansiedade extremos se acumulam e deixamos de conseguir geri-la. Aí transforma-se numa espécie de medo (…) um medo que não está relacionado com algo real, mas sim com algo que está a ser fruto da nossa imaginação. Daí se tornar tão incapacitante». Sei que tudo isto explicado assim parece um pouco abstrato, então para que tenha uma melhor perceção, imagine que está a ir para o trabalho e, do nada, começa a sentir um peso enorme no peito, o coração começa a bater mais depressa, as suas mãos começam a ficar suadas, sente tonturas, estar atenta a seja o que for torna-se extremamente difícil, e há uma sensação de dormência muscular estranha que começa a apoderar-se do seu corpo. De facto, isto não faz sentido, e garanto-lhe que não é nada simpático, especialmente quando se está habituado a tentar encontrar explicações para tudo. No entanto, e como a própria médica explica: «Por vezes, a lógica escasseia muito no que toca às nossas emoções».

Ainda que seja para nós difícil encontrar uma razão, uma causa comum une muitas das pessoas que sofrem de TAG (transtorno de ansiedade generalizada): os ataques de pânico. Metaforicamente falando, é como se eles fossem a pessoa que abriu a porta da nossa casa para deixar a ansiedade entrar. «Após o ataque de pânico, ficamos com medo de voltar a viver uma situação semelhante a essa. Antes do pânico, sentimos níveis de ansiedade, os tais que ainda conseguíamos gerir, mas quando ela ultrapassa um limiar que já não é possível controlarmos, passamos ao pânico, e aí há uma tendência para a replicação de episódios similares. Pode começar por uma pequena coisa e aumentar para uma extremamente grande», finaliza Catarina Graça.

Caminho alternativo

Sempre tive um interesse enorme por medicinas alternativas – que na verdade não são nada alternativas, uma vez que são bem mais antigas do que aquelas que atualmente usamos, portanto o correto seria dizer «tradicionais» – e isso fez com que quisesse descobrir como é que tudo isto poderia ser explicado de outra perspetiva. Foi assim que cheguei à conversa com Paulo Brito, sacerdote xamânico e fundador da Escola de Xamanismo Raiz. Segundo ele, espiritualmente e energeticamente, este problema surge devido a «questões com as quais não lidamos», que se vão formando através de «pressões externas, nas quais são pessoas à nossa volta que geraram energia (na forma de emoções ou pensamentos) que interfere connosco, e que vai atuando de fora ou que acaba por se alojar dentro de nós. Ou de pressões internas, em que somos nós que não sabemos lidar com a incapacidade dos outros ou com as nossas próprias incapacidades. Que não estamos a saber lidar com os nossos demónios internos (como o medo ou a raiva).» Paulo Brito acrescenta ainda: «Regra geral, somos nós que criamos tudo. Ou nós que geramos, ou nós que deixamos que outros tenham poder sobre os nossos pensamentos. Por isso, é extremamente importante que as pessoas aprendam a ter poder pessoal, para não alimentar o medo, para não alimentar a desconexão à vida. Quanto mais o alimento, mais desvinculação eu vou ter.»

Voltando a falar sobre os sintomas do transtorno de ansiedade generalizada, mas espiritualmente, de acordo com o sacerdote, existe um outro sintoma que não se vê: a perda de ligação à terra. E eu percebo que para os mais céticos, isto possa até parecer demasiado «paz e amor», uma coisa quase de hippie, mas se pensarmos bem, e seguindo o princípio da física quântica (que nos diz que tudo é energia), se tudo o que nos mantém vivos vem da terra, e a terra é a nossa fonte principal de energia, não fará algum sentido que, se perdermos essa ligação, exista algum tipo de alteração na nossa energia também?

Ainda segundo Paulo Brito, esta desconexão vai criar uma espécie de efeito bola de neve, já que «a falta de vinculação à terra vai gerar o medo. E o medo, por si só, vai aumentar um estado de infelicidade. O que nos faz desconectarmo-nos com a vida (…) e se deixo de estar ligado à vida (a mim), passo a estar ligado a um lugar sem lugar, onde não tenho segurança. Por trás do medo está a insegurança, e eu alimento o medo porque não tenho firmeza, porque não tenho equilíbrio e porque não consigo gerar fluxo. É muito importante criar consciência disto, como se fosse um triângulo de compreensão bastante frágil, compreender onde este triângulo está a atuar.»

Porta de saída

Seria ótimo que existisse um penso rápido que ajudasse a vermo-nos livres da TAG em dois dias, mas a verdade é que, no que toca à mente, tal coisa não existe. No entanto, e como nos explica Catarina Graça, isso não faz com que as pessoas não a procurem: «A maior parte das pessoas acaba por querer uma solução rápida imediata, ou seja, um tratamento sintomático. E a solução sintomática muitas da vezes é a farmacológica (…) Mas se não vamos lá arrancar a raiz que está a provocar a causa do problema, tira-se a medicação e fica lá o problema na mesma.» Ainda que defenda que possa existir uma complementaridade com medicamentos, defende que o essencial é aplicar algumas das técnicas a que recorre nas suas consultas para descondicionar as pessoas: a morfese e a athenese. «A morfese é uma prática que faz com que aquela memorização com determinada carga emocional seja ressignificada (…) Depois, como tudo tem a ver com a representação mental que temos sobre o medo, o que fazemos é ajudar a pessoa a mudar esta representação mental. Porque a uma certa altura é maior do que nós. Então temos que de a redimensionar, e isto é feito com esta técnica de athenese e reprogramação neurolinguística.»

A estas técnicas são aplicadas ao longo de 10 a 15 consultas, e a psicoterapeuta aconselha ainda a junção de «exercício físico, onde a adrenalina é usada e gasta, yoga, ou outros métodos que puxem as pessoas para sentirem o seu corpo».

Por incrível que pareça, esta conexão ao nosso corpo físico de que a médica fala é também descrita por Paulo Brito como parte do tratamento: «É preciso criar consciência de como me sinto, do que penso, e de como o meu corpo está (…) Começar a viver no aqui e agora, para viver em presença de si.» Para isso, temos de «firmar os pés na terra, e constatar que temos um corpo. Depois, constatar o que estou a pensar, a sentir no coração, e de como o meu corpo se sente». Para tal, é preciso «primeiro, criar um observador interno que nos ajude a lidar com o que está a acontecer dentro. Porque se tiver uma relação comigo, e falar comigo, e me sentir, nestes três planos e na relação com a terra, torno-me um ser espiritual muito forte», acrescenta.

Além desta técnica, o sacerdote xamânico aconselha ainda «práticas e disciplinas de conexão com a terra, como o yoga, a meditação, ou as práticas orientais de chi-kung, que também são boas. Isto porque, na sua maior parte, as pessoas que sofrem de ansiedade ou de estados de ansiedade agudos são pessoas que têm dificuldade em estar no corpo, ou em estar conscientes de que estão no corpo.»

Muitas pessoas que conheço começaram a ir para o ginásio, ou a praticar yoga, mas no meu caso optei por pôr em prática, diariamente, a meditação. E, de facto, tenho sentido uma enorme diferença. Claro que continuam a acontecer episódios em que a minha ansiedade me diz «Apareci só para dizer olá» e outros em que me diz «Vou ficar para jantar», mas são cada vez menos os dias em que ela surge. Quem sabe se um dia ela não se esquece do caminho até minha casa.

 

 

O artigo foi originalmente publicado na edição de setembro da revista ELLE.