Porque é Que Ficamos Tão Viciados em Reality Shows?

Será que as novelas da vida real podem ser os agentes de mudança social que precisamos? Por: Carolina Adães Pereira Imagens: © Instagram (@teresaguilherme; @bigbrothertvi; @bbb)

«Sou um bocadinho homofóbico, mas é uma coisa que já aprendi a lidar, já é uma coisa que tenho quase ultrapassada na minha vida», afirmou Pedro Alves, de 25 anos, um dos concorrentes do reality show Big Brother, no vídeo de apresentação, revelado antes da sua entrada para o programa. Após a exibição destas afirmações, a indignação por parte do público não demorou a fazer-se sentir, mas rapidamente foi resolvida, com o apresentador Cláudio Ramos a explicar que Alves se explicou mal e que não escolheu bem a palavra, que deveria ter sido preconceito.

Esta foi a primeira das situações que chegaram ao debate público graças ao regresso do Big Brother à antena portuguesa. O formato, apesar de não entrar na programação do quarto canal há alguns anos, não é desconhecido do público. Aliás, é um daqueles casos de «não há amor como o primeiro», dado que, no imaginário dos portugueses, a primeira edição do Big Brother, transmitida no ano 2000 (o primeiro programa do género com transmissão no nosso país), vai para sempre ter um lugar de destaque: afinal, quem não se lembra do Zé Maria? Ao longo dos anos seguintes, muitos foram os formatos similares que foram surgindo. O modelo da novela da vida real é, na sua essência, muito apelativo, na perspetiva em que são reproduzidos modelos sociais que são familiares aos espetadores. «O formato do programa, sendo uma simulação da realidade, faz com que haja uma maior facilidade do público em se identificar com as pessoas e com as situações que lá são representadas», explica Maria João Cunha, professora universitária do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e investigadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género.

Zé Maria e Teresa Guilherme no primeiro BB

 

O regresso deste formato aos ecrãs dos portugueses veio carregado de simbologia. Vinte anos após a primeira emissão na TVI (que contou com Teresa Guilherme como apresentadora), o regresso da novela da vida real foi muito falado nos meses que antecederam a sua mais recente estreia, mas a pandemia global, que nos obrigou a ficar fechados em casa, durante meses, obrigou também a adiar a estreia do formato. Durante este tempo de quarentena, o consumo de televisão aumentou consideravelmente. Segundo um estudo da empresa Group M, citada pelo jornal Expresso, os portugueses viram, em média, sete horas de televisão por dia nas duas primeiras semanas de confinamento, um comportamento replicado um pouco por todo o mundo. Por exemplo, no Brasil, o Big Brother (que em 2020 celebrou a sua 20ª edição), conquistou um recorde do Guiness, com a maior votação de sempre alcançada por um programa televisivo, com 1,5 mil milhões de votos na décima gala, (ao contrário do que acontece em Portugal, os votos naquele país da América do Sul são grátis), realizada no fim do mês de março. Com estes números não é de admirar que as audiências tenham atingido picos que há muito não se registavam no programa da Rede Globo, e muitos atribuem a responsabilidade ao Covid-19.


«Há aqui um fenómeno multiplicador, no sentido em que [os tópicos] não ficam apenas na televisão, nem ficam apenas em streaming, mas acabam por ir para as redes sociais.»

 

A maior parte dos programas de televisão e eventos naquele país foram afetados pela pandemia, sendo o Big Brother a única exceção. Ao contrário do que aconteceu no Canadá, em que o reality show foi interrompido a meio e o prémio final doado para auxiliar no combate à doença, a versão brasileira continuou no ar e até assumiu um papel educativo para os espectadores. O apresentador, Tiago Leifert, no momento de partilha do estado do país e do mundo com os residentes – uma quebra clara da regra de base deste tipo de programas, que é precisamente a não partilha de informação do exterior –, explicou em conjunto com um médico, o que era a doença e quais os passos importantes para a prevenção e a propagação do vírus. O Big Brother Brasil continuou no ar durante parte da pandemia e não é caso isolado. A versão portuguesa, apesar de ter sido inicialmente adiada, também avançou depois de uma reestruturação do formato, para garantir que os concorrentes passavam por uma fase de quarentena rigorosa, antes de entrarem na casa e poderem conviver. Entretanto, as plataformas de streaming aproveitaram a boleia e lançaram os seus próprios formatos originais de reality shows, como o Too Hot To Handle, da Netflix (de notar que entre março e junho, esta plataforma registou 10,1 milhões de novos utilizadores).

Manu Gavassi, protagonista de uma votação de 1,5 mil milhões.

 

É um facto que este formato televisivo não é novidade, mas as audiências comprovam que as pessoas estão mais envolvidas do que nunca. Em Portugal, em específico, o Big Brother tem sido instrumental na recuperação dos números de audiência da TVI, com a gala de domingo à noite a ser, com frequência, líder da tabela e com o canal TVI Reality, que acompanha continuamente o dia a dia dos concorrentes, entre as dez horas e as três da manhã, a ocupar o terceiro posto como canal do cabo mais visto.

Sendo assim, porque é que as pessoas parecem estar a interessar-se outra vez por reality shows? «Nunca podemos olhar para uma situação e não olhar para sua conjuntura», começa por dizer Maria João Cunha. «Este é um ano muito atípico. É um ano em que vivemos tempos de pandemia e [em] que as pessoas estão naturalmente mais em casa. O tempo livre que, em outras circunstâncias e noutros anos, seria ocupado a sair mais ou a estar com outras pessoas, neste momento, é um tempo de alguma solidão. Talvez aqui exista esta dimensão da companhia dos programas televisivos em geral, e deste em particular, pelo fenómeno de identificação», explica a professora. Ou seja, como não é possível sair e estar com pessoas como fazíamos antes, a probabilidade de ocuparmos o nosso tempo dentro de casa a ver televisão é mais elevada e, com este tipo de formato, há uma ligação emocional entre o espectador e o concorrente: ambos estão fechados numa casa, sem (ou com pouco) contacto com o exterior.


«O problema, quando debatido nas redes sociais, pode ser exacerbado. Depois, vamos buscar aquilo que está mais incrustado, que é o quê? Estereótipos»

 

Esse sentimento de identificação pode ser um dos fatores que faz com que as situações que acontecem dentro da casa saltem imediatamente para o exterior e, dessa forma, se transformem em debates públicos. As redes sociais assumem assim o papel de meio condutor e recetor do próprio debate. «Há aqui um fenómeno multiplicador, no sentido em que [os tópicos] não ficam apenas na televisão, nem ficam apenas em streaming, mas acabam por ir para as redes sociais. Depois, com todo o burburinho que se gera nessas plataformas, acabam por serem empolados», partilha a professora. O Twitter é um bom exemplo disso mesmo: nunca existiram tantos utilizadores na plataforma a falar de um programa português, onde a tendência #BB2020Tvi está, com muita frequência, nos tops dos assuntos mais falados da rede social. O conteúdo partilhado é, na sua maioria, criado com o recurso à visualização do canal TVI Reality e a todos os programas extra, associados ao reality show. Este conteúdo permite o diálogo entre os utilizadores sobre o que se passa dentro da casa, incluindo sobre temas socialmente importantes como o body shaming, o veganismo e a homofobia, referida no início deste artigo. Até porque as situações homofóbicas não se ficaram apenas pela situação de Pedro Alves. Passadas umas semanas, durante uma prova semanal, Hélder Teixeira, de 39 anos, teve uma atitude sexista e preconceituosa para com Edmar, um concorrente assumidamente homossexual. Mais uma vez, os espetadores insurgiram-se nas redes sociais e a produção do programa respondeu com a nomeação direta de Teixeira, deixando assim o poder de decisão na mão do público… Que o manteve no programa por 4%. Ironia do destino, os resultados das votações, favoráveis à permanência de Hélder, foram partilhados no dia internacional contra a homofobia, transfobia e bifobia…

O grupo dos sensatos do BB20

 

Dentro da casa, as reações ao caso de homofobia de Hélder e Edmar dividiram-se, tal como cá fora. Houve quem dissesse que era uma brincadeira, que «ele é assim», o que pode explicar o resultado da votação: há muitos portugueses, que provavelmente não são os que se insurgiram nas redes sociais, que não veem nada de errado nas atitudes de Hélder, apesar da homofobia ser crime perante a lei. «Não me parece que qualquer sociedade seja absolutamente consensual. A questão é que temos visto, infelizmente, um pouco por todo o mundo e por toda a Europa – e Portugal não é exceção – o ressurgir de algum conservadorismo. Portanto, neste momento, obviamente, acabamos por encontrar sempre pessoas que vão polarizar estas discussões», constata Maria João Cunha. No caso específico do nosso país, «a sociedade portuguesa evoluiu muito neste tema da homofobia, até porque temos visto como a nossa legislação é protetora e nem sempre acompanha a mentalidade das pessoas porque é muito difícil mudar estereótipos, é muito difícil mudar mentalidades», afirma. A professora universitária refere-se ao facto de Portugal ser um país que saiu de um regime ditatorial há menos de 50 anos. «Portanto, é um país em que todas estas questões têm tido um avanço, só que não à mesma velocidade para todas as pessoas», observa Cunha. Para promover esta mudança social e desconstruir ideias feitas, «é importante que se fale» sobre elas, destaca. O ato de falar está garantido, no entanto, os diálogos podem trazer alguns problemas associados, «se as conversas não são bem informadas, correm o risco de ficarem na banalidade e nos extremismos. Portanto, voltamos à polarização. Ou seja, embora falar sobre os assuntos seja fundamental – e penso que é a falar que se ajuda precisamente a promover um discurso não homofóbico e um discurso de igualdade de género – tem que ser um discurso informado», aponta Maria João Cunha. Contudo, este discurso pode ser muito condicionado pela forma como o debate é feito: «o problema, quando debatido nas redes sociais, pode ser exacerbado. Depois, vamos buscar aquilo que está mais incrustado, que é o quê? Estereótipos», conclui.

Há, sem dúvida avanços na sociedade portuguesa. Prova disso são as próprias conversas que os espetadores estão dispostos a ter após serem confrontados com as situações do reality show. E isso só é possível porque a televisão (tal como os media no geral, aliás) tem «um papel fundamental enquanto agente de socialização. Estes temas têm que ser trabalhados na família, na escola, mas têm que ser trabalhos nestes agentes de socialização, que fazem cada vez mais parte da nossa vida», destaca a investigadora. Para tal, é importante ter espaços paralelos que façam a interpretação destes discursos por «pessoas preparadas para fazerem esta análise», acrescenta Maria João Cunha. Só assim é possível «promover discursos corretos, discursos adequados que, por sua vez, promovam a desconstrução destes estereótipos e a construção de uma maior aceitação social.»

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de Agosto/Setembro 2020.