Estudantes de Central Saint Martins Quebram a Definição Tradicional de Conforto

Esta foi o desafio lançado pela Sloggi para a sua mais recente campanha. Por: Inês Aparício Imagens: © Roni Ahn.

O dicionário define ‘conforto’ como uma «sensação de prazer, de bem-estar ou de comodidade», «aquilo que fortalece ou revigora» ou ainda «qualquer coisa que oferece alívio ou consolo». Mas este termo é muito mais lato que uma mera entrada de dicionário. É um conceito mutável e, acima de tudo, pessoal. Por isso, para a sua nova campanha, a Sloggi desafiou um conjunto de estudantes da escola britânica Central Saint Martins a expressarem como veem esta palavra, quebrando normas e ideias tradicionais associadas a esta, sem sair da sua «zona de conforto».

Seja ele um local imaginário ou real, uma pessoa, uma cor ou apenas algo abstrato, esse espaço a que chamamos de «zona de conforto» é descrito, por cada um, de forma muito diferente. Para uma das protagonistas desta colaboração entre a marca de roupa interior e a instituição de educação que serviu como ponto de partida para vários designers de renome, como Alexander McQueen, Stella McCartney ou John Galliano, é, curiosamente, repleto de cor. Aliás, Lauren Amie Pariola-Birch não consegue já imaginar um dia em que os tons neutros dominam a sua vida.

«Costumava trabalhar num escritório de design, no qual todos se vestiam de preto. Eu chegava com um conjunto cor-de-rosa ou uma saia volumosa e cheia pregas e eles literalmente riam-se de mim. Tentei vestir-me de forma mais sóbria, mas simplesmente não consegui. Tinha de vestir o que queria», revela a designer de sapatos, numa entrevista conduzida por Bella Webb a propósito da campanha. «Quando visto algo básico, sinto que não quero que as pessoas me vejam. As minhas roupas refletem o meu mood», continua. «Sempre me senti confortável ao vestir assim, mas não quer dizer que faça os outros sentirem-se confortáveis. Porém, isso não me afeta muito, sinceramente. Simplesmente, visto-me para me sentir feliz», adiciona.

No entanto, durante a adolescência, Marvin Desroc não conseguia seguir o mesmo lema que Lauren, tendo chegado mesmo a esconder, frequentemente, a sua verdadeira identidade. «Na altura, as skinny jeans eram uma tendência masculina e eu usava-as muito. Nas ilhas, não estava na voga e, por isso, apenas assumiam que eras gay por utilizar skinny jeans. Viam isso como algo errado e como se eu fosse louco», conta. «Voltei para Martinique [onde nasceu] e não me integrei porque era gay. Depois, fui para Paris e não podia expressar a minha identidade enquanto negro. Por vezes, sentes que não te inseres em lado nenhum», confessa.

Foi apenas quando se mudou para Londres que começou verdadeiramente a perceber como se sentir confortável consigo próprio. «Para mim, o conforto é liberdade. É algo que não podes tocar. É algo que sentes. Para ser honesto, não sei se me sinto confortável em apenas um lugar. Estou viciado com o conceito de limbo e de ‘no meio’. No meio do preto e branco, no meio do feminino e masculino, no meio da sexualidade e sensualidade. Diria que me sinto confortável sabendo que estou entre essas coisas e não confinado a um grupo», menciona.

Confortável no seu próprio corpo

Mas o conforto não está só ligado a um ambiente onde nos sentimos bem, à forma como nos vestimos ou a uma questão de identidade. Olhar para espelho e gostar do que se vê no reflexo é, também, conforto. E Lauren acredita que o facto de ter ser modelo desde os sete anos foi fulcral neste aspeto. «Isso ajudou-me muito para estar confortável comigo mesma. Para estar nua numa sala repleta de pessoas e não ser sexualizada ou objetificada é muito bom», salienta.

Também Elizabeth Tan se sente, agora, «muito mais confortável e feliz» com o seu próprio corpo agora. «Estou numa escola de moda, por isso gosto de me vestir e tudo mais, mas, no passado, vestir-me significava também esconder o meu corpo», recorda. Todavia, depois de um longo processo de alteração de hábitos alimentares, por consequência de um problema de saúde, a aluna de Marketing de Moda diz mesmo preferir relaxar sem parte da roupa. «Penso que, quando estou a descansar sozinha, em especial em casa, não gosto de vestir calças. É muito mais confortável [assim]», salienta.

Portanto, esperemos que, nos próximos tempos, sejam adicionadas novas entradas para a palavra «conforto» no dicionário. Porque, sim, as definições são múltiplas. E estes três estudantes, através da campanha da Sloggi, são a prova disso.