Sandra Faleiro: «Há uma coisa de deslumbre que vais perdendo com a idade»

Um entrevista intimista e sem papas na língua. Por: Margarida Brito Paes Imagens: © D. R. (Elite Lisbon)

Sandra Faleiro é Leonor no filme A Herdade, de Tiago Guedes. A história de uma família de latifundiários, que é atravessada pela Revolução dos Cravos, e pela Reforma Agrária que lhe sucedeu. Uma história que acompanha uma família ao longo de 20 anos, focando-se nas relações pessoais e amorosas, com uma aura política que não se aprofunda, porque o importante neste filme é a família, como Sandra Faleiro explicou à ELLE.pt.

Sandra é uma cara conhecida do público desde cedo, começou a sua carreira com 15 anos, mas a sua primeira deixa foi «São rosas senhor, são rosas», ainda na escola primária. Além do cinema, a sua carreira também se faz da televisão que lhe «trouxe muitos amigos». Mas é o teatro que lhe serve de terapia, porque ali tem tempo para mergulhar na interpretação. Em 2020 irá encenar uma peça de Tchekhov, porque Sandra gosta mesmo é de «contar histórias» e gosta muito de as contar como quer. Sandra Faleiro é o tipo de atriz que não se importa de estar atrás da cortina. Aos 47 anos, todos lhe falam da idade, mas ela sente-se igual, apesar de assumir, por várias vezes, ao longo da entrevista que a maturidade a transformou.

Achas que A Herdade era uma história que precisava de ser contada?

É uma boa história, portanto faz todo o sentido que seja contada. É uma história ao mesmo tempo muito básica e muito universal. As grandes histórias contam-se com três frases, não é preciso ser nada muito elaborado. O que é interessante é a forma como a contas. O que acho interessante neste filme é que há muitas camadas nas personagens e nas relações entre elas. É uma coisa muito humana. Há muita coisa dentro daquela família que não se diz mas que se sente.

Além de ser uma história de uma família, este filme é um retrato muito particular da época, que não costuma ser contado, sobre quem viu as suas terras ocupadas. Fazia falta?

Acho que há uma coisa que acontece no nosso país, em relação ao 25 de abril, mas também em relação à nossa história em geral, que é: não há produções suficientes para contar a nossa história, para contar estas fases tão importantes de mudança. O 25 de abril foi uma data importantíssima, mudou muita coisa e acho que não foi ainda suficiente explorado. É muito estranho que ainda nenhuma série, filme, ou uma peça teatro ter contado o lado dos latifundiários. Não se conta, não se fala, não se produz. Tem a ver com a nossa cultura, nós passamos à frente das coisas, não assentamos. Parece que nunca assumimos nada na nossa vida, na nossa forma de estar, na nossa forma de pensar. Já passaram 45 anos sobre o 25 de abril e é incrível que não se tenha explorado isso até ao limite. Os miúdos não sabem o que foi e as mudanças que o país sofreu. É muito engraçado porque o filme conta apenas um bocadinho, e há muita gente que fica frustrada porque não desenvolve mais. O fundamental no filme é a história da família que é atravessada pela revolução. Eu acho que as pessoas têm esta reação porque há falta de desenvolver este tema.

 

«É muito estranho que ainda nenhuma série, filme, ou uma peça teatro ter contado o lado dos latifundiários. Não se conta, não se fala, não se produz.»

 

De facto o filme tem um corte muito brusco, vê-se o início da reforma agrária, mas não é mostrado qual é desfecho desse processo para aquela família. Depois há um salto temporal, em que não se percebe como esse acontecimento influenciou a história daquelas pessoas. Foi propositado esse corte?

Acho que é uma opção do filme, sobre o que é mais importante para o filme. O que o filme foca mais é a relação daquela família. Acha que se pressente o que aconteceu. Há uma coisa muito engraçada neste filme que é: o filme não te dá resolução para nada. Tu pensas em vários finais. A família é atravessada pela revolução, percebe-se que a família entra em decadência, mas não se percebe exatamente o que aconteceu e isso foi uma opção. Agora se esse tema do 25 de abril devia ter sido mais trabalhado noutros filmes, noutras séries?! Completamente de acordo. Mas neste caso é a história da família, dentro daquela casa, que é focada.

Como preparaste a Leonor? Falaste com alguma mulher que tenha passado por aquele processo?

Toda a gente me pergunta se me inspirei na minha mãe. A minha mãe tem essa idade, ela passou por essa fase toda, e tinha a mesma idade da Leonor quando aconteceu o 25 de abril. Mas não me inspirei nela, definitivamente! Porque ela não tem nada a ver com a Leonor, vem de uma classe social muito diferente. A Leonor vem de um mundo que desconheço. Mas tenho amigas minhas que vêm dessas famílias, e que me contaram umas quantas histórias em que me inspirei bastante. Mas este foi um trabalho muito interior, de encontrar uma temperatura, um bater de coração, uma forma de olhar. Aquela mulher é um bocadinho fantasmagórica ao longo de todo o filme. Esse foi o grande desafio.

É engraçado definires a Leonor como fantasmagórica porque, de facto, no filme a Leonor começa quase como um fantasma, porque é praticamente invisível. E na segunda parte do filme é um fantasma porque assombra o marido, sabe uma verdade que ele teme, e isso dá-lhe poder?

Ela tem um poder terrível, baseado em muito sofrimento. É interessante porque ela amava-o e odiava-o ao mesmo tempo. Eu fui percebendo isso, não percebi logo. Ela aguentou tudo não pela educação, não pelos filhos, mas porque o amava profundamente. E ela aguentou e o fim também é um ato de amor, aí já para os filhos.

É uma personagem que ganhou força com a construção que fizeste dela, enquanto atriz. A Leonor não era para ter tanto destaque originalmente. Como foi esse processo?

Este foi sempre um processo de limpeza. Tive de fazer tábua rasa dos meus tiques, dos meus vícios e fui construindo ao longo das filmagens. Foi um dia de cada vez. Isto fez-me estar num constante exercício de humildade. A personagem no argumento não estava muito trabalhada, e eu fui descobrindo-a ao longo das filmagens. O que levei de mim foi o máximo de disponibilidade, observar e ir reagindo ao que se estava a passar, como as cenas estavam a ser construídas. Isto é muito difícil, porque todos temos muitas camadas, vamos ganhando camadas ao longo da vida. Foi mesmo como descascar uma cebola e trabalhar o mais possível com base na verdade. Isso é difícil na ficção, na vida, em tudo.

Isso tornou este projeto especial, quase como se fosse um renascer?

Foi. Este desafio surgiu numa altura muito particular da minha vida. Eu acho que esta coisas surgem quando estamos em fase de transformação e apareceu este trabalho. É muito engraçado como na vida tudo se vai conjugando. Acho que teve muito a ver com a energia com que estava na altura e o Tiago pressentiu isso. Eu estava numa fase mesmo transformadora, não sei se para o bom, se para o mau, mas estava.

A nível pessoal ou profissional?

Pessoal, profissional… mais pessoal mas que se refletiu na profissão porque está tudo ligado. Este trabalho ajudou-me a dar um salto. Não sei se foi qualitativo, mas dei um salto para uma zona que desconhecia. Felizmente correu bem, e isso é fantástico.

 

«Sou uma mulher com 47 anos e toda a gente me fala na idade. Eu sinto-me igual. Nós não mudamos grande coisa.»

 

Fazer uma personagem com 20 anos de diferença, ajudou-te a perceber melhor o que é a tua idade, o que é a tua maturidade e a enfrentar melhor os anos?

Agora toda a gente me fala da idade. Ok, sou uma mulher com 47 anos e toda a gente me fala na idade. Eu sinto-me igual. Nós não mudamos grande coisa. Às vezes penso «estou mais calma», mas não estou nada, estou tudo igual. O que acontece é que se calhar te tornas mais cautelosa e tens uma energia mais pesada. Há uma coisa de deslumbre que vais perdendo com a idade e, às vezes, tens de fabricar isso para andar para a frente com as coisas. Foi muito mais difícil, obviamente, fazer a Leonor mais nova, porque eu tenho uma carga diferente do que quando tinha vinte, trinta anos. Foi difícil. Como é que tu descobres outra vez aquela esperança na voz?! É uma voz diferente! Parece que há sempre uma esperança na voz dos jovens. E é difícil como tudo.

Numa entrevista disseste que o teatro para ti era terapêutico, que te centrava. Porque é que o teatro tem esta importância para ti?

O teatro tem um lado de ritual, uma coisa da arena. Estás ali e estás a trabalhar textos que te fazem aprofundar muito. Tem muito a ver com a literatura, não há nada como ler um bom livro, também é terapêutico. O teatro tem a ver com isso. Estás a trabalhar psicologicamente as personagens com grande profundidade porque tens tempo para isso. Crias ligações a coisas que te aconteceram e que observas no mundo. Também tem a ver com o falar, discutir ideias, e isso é muito raro hoje em dia. As pessoas conversam pouco, discutem pouco, sobretudo as coisas que têm a ver com as relações humanas. É quase tabu. Mesmo com os amigos, as pessoas afloram tudo. Ali não, não há hipotese, estás num espaço de trabalho e não tens outra hipótese se não aprofundar os temas. Isso faz muito bem. Acho que o teatro devia ser obrigatório nas escolas. O teatro devia ser tão importante como a matemática e o português.

Porquê?

Porque tem a ver com educação de relações humanas. As crianças são atiradas para o mundo e não têm esta educação. Cada vez têm menos espaço para brincar e para se relacionarem umas com as outras, porque têm os horários muito preenchidos. Devia ser obrigatório porque pelo menos estavam uma ou duas horas a conversarem, a dramatizarem, a explicarem o que sentem, a comunicar. Esta é uma arte que ensina a comunicar. Eu era muito, muito, muito tímida e o teatro ajudou-me.

 

«Acho que o teatro devia ser obrigatório nas escolas. O teatro devia ser tão importante como a matemática e o português.»

 

Achas que os atores são pessoas diferentes por fazerem esse exercício de comunicação?

Não sei se são só os atores. Todos arranjamos formas de sobreviver neste mundo que é acelerado, às vezes injusto e cruel, mas que também consegue ser maravilhoso e incrível. Todos nós arranjamos estratégias para estar em sociedade. Os atores… os artistas… eu acho que têm uma vantagem, porque têm uma grande sorte que é fazer o que gostam. Portanto o trabalho, nem é bem trabalho, é uma maneira de estar na vida, é uma filosofia de vida e podem-se dar ao luxo de imaginar, fantasiar… Nós temos altura em que fazemos grandes sacrifícios e passamos por aflições, porque é uma profissão muito irregular, mas isto acaba por compensar.

Lembras-te qual foi o primeiro papel que fizeste?

Sim. Foi na primária. Fazia de Rainha Santa Isabel. «São rosas senhora, são rosas…».

E lembras-te da primeira vez que te sentiste atriz?

Às vezes não me sinto atriz. Às vezes acho que estou a enganar toda a gente, e que vão descobrir que sou um fake. Às vezes sinto : «que belo trabalho…”. É isto…e ando sempre nisto. Estou-me sempre a questionar e de vez em quando tenho assim uns ataques de confiança. E depois questiono-me outra vez.

E como é que se lida com essa instabilidade?

Vai-se lidando dia a dia. Umas vezes melhor, outras pior. É mesmo assim. Lá está, esta coisa da maturidade já me fez relativizar um bocadinho mais isto. Eu estou sempre a questionar tudo…é horrível. É um tormento, às vezes.

Porque é que achas que és assim?

É um sistema meu de defesa, para não me acomodar. Esta é uma profissão de espelho, estamos sempre a olhar para o espelho. Pode ser muito narcísica. Mesmo em relação às críticas. Quando dizem coisas incríveis sobre o meu trabalho fico muito angustiada.

Porquê?

Porque penso: «já foste…». Não! Eu quero continuar a evoluir e a aprender coisas. Então penso: «esperem, estão enganados. Eu quero falhar outra vez. Está bem?».

Queres falhar para teres de melhorar?

Sim, quero continuar a ter esse espaço. Quero manter-me vida, é um bocado isso.

Há pouco estavas a dizer que ser atriz é uma profissão em que se olha muito para o espelho. Quando olhas para o espelho ainda vez a Sandra ou vês as tuas personagens misturadas?

Sou sempre eu. Mas a forma como me vejo é que muda de dia para dia. Umas vezes vejo umas coisas, outras reparo noutras coisas. Nós estamos sempre em mutação.

Achas que os atores mudam mais depressa que as outras pessoas?

Não. Nós até temos a sorte de exteriorizar mais isso, mas todas as pessoas têm várias portinhas lá dentro por descobrir.

 

«Agora é diferente, agora há um pensamento sobre as coisas que faço e há uma abordagem política. Há escolhas que fazes quando interpretas a personagens. Tu escolhes o que queres focar.»

 

Qual é a maior diferença entre representar hoje e quando começaste?

Eu quando comecei era menina, era mesmo menina, tinha 15 anos. Eu nem sabia ler um texto. Eu era muito parva, muito naïf. Tinha um lado muito inocente. Era tudo muito cristalino, era uma coisa muito leve. Agora é diferente, agora há um pensamento sobre as coisas que faço e há uma abordagem política. Há escolhas que fazes quando interpretas as personagens. Tu escolhes o que queres focar.

O que queres focar hoje em dia?

Se me dão personagens eu tento que tenham várias camadas, é sempre essa a minha luta. Eu não quero nunca que sejam só uma coisa, porque as pessoas não são só uma coisa, somos milhares de coisas. Tento sempre sacar da personagem o que ela quer mesmo dizer. Então se forem grandes textos, não passar por cima das coisas.

É isso que queres dizer quando falas de escolhas políticas, porque quase todos os textos têm uma mensagem maior…

Sim, é não passar por cima das coisas. E às vezes passasse por cima disso, quando não se faz bem a dramaturgia.

Achas que consegues fazer isso agora porque tens outra maturidade?

Claro que sim. Acho que antes o fazia inconscientemente. Agora é uma coisa…

Sem medos?

Sim…