A Visita Ao Guarda-Roupa Relâmpago da Peça Que Junta 37 Obras de Shakespeare

Trocas de figurinos de dois segundos tornaram obrigatória a adaptação de coletes, vestidos e kilts. Por: Inês Aparício -- Imagens: © Casino Lisboa / Conceição Alves e Renato Arroyo.

Três atores, 97 minutos e 37 peças diferentes em apenas uma. Pode parecer uma receita para um bolo, mas é, na verdade, a fórmula necessária para que Shakespeare chegue, todas as semanas, ao Auditório dos Oceanos do Casino Lisboa, através de Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos. Nestes minutos já estão contados todos aqueles que são necessários para as trocas de roupa, e acredite que são bem menos do que seria de esperar.

São as diferentes roupas e adereços que permitem a Pedro Pernas, Rúben Madureira e Telmo Ramalho dar vida a personagens como Romeu, Julieta, Hamlet ou Ofélia. Portanto, como deve imaginar, os bastidores parecem uma prova em contrarrelógio, mesmo que os figurinos tenham sido adaptados às mudanças de segundos que aí acontecem.

Assim, a praticidade foi ditada como palavra de ordem no que aos figurinos diz respeito. E Marta Pedroso, quem os tem a cargo, acabou a reinventar clássicos do vestuário da época, como corpetes, kilts ou coletes, de forma a que todas as peças se vestissem do modo mais rápido possível, sem que haja quaisquer perdas de tempo.

«Os coletes não fecham. Nunca seriam assim, porque [os de época] são todos assertoados e com montes de fechos. Estes não têm, são sempre abertos, uma vez que eles [os atores] têm segundos para trocar de roupa», explica Marta, à ELLE. Também os vestidos tiveram de ser pensados de forma integral, esquecendo as cinturas marcadas do século XVI. «Os vestidos são inteiros. Ainda tentei [fazer de maneira diferente], porque gostava que fossem mais cintados, mas não há tempo nas mudanças de roupa», adiciona. E, para representar o Macbeth, por causa da ligação à Irlanda, surgem dois kilts. «Se bem que não são kilts verdadeiros, porque têm uma abertura fácil, com velcro», nota a figurinista. «Portanto, é tudo adaptado para ser rápido», sublinha, por fim.

Contudo, são as capas, apenas pousadas sobre o corpo dos atores, que compõe a maioria do guarda-roupa da peça. «Existem, essencialmente, capas. As capas são abertas, não têm qualquer fecho. Têm só uma fitinha que eles nem precisam de utilizar, porque, como o corte é muito redondo, têm peso suficiente e, por isso, ficam pousadas e não caem», refere, acrescentando que estas, tal como as restantes peças de roupa, cobrem uma vestimenta base, composta por uma camisa branca, gibão, meias e calças com uma cor diferente para cada um dos três atores – a partir da qual foi construído todo o guarda roupa, «tentando respeitar a época e as várias personagens» -, e ainda umas all star pretas.

Um Shakespeare moderno

Além de pensados para os poucos segundos que os atores têm nos bastidores para trocar de roupa, os figurinos foram adaptados, tal como a própria peça, à era digital e às referências modernas da cultura pop. Deste modo, são adicionados adereços ou peças mais atuais, como um skate ou as all stars que completam o figurino base.

Em determinada cena, na qual Pedro, Rúben e Telmo encenam um «hip hop chunga», como Marta descreve, estes usam ainda um casaco de fato de treino e outros acessórios. «Todos eles têm um casaco destes, só que depois mudam os adereços. Um leva óculos, outro leva um cap em vinil, azul, a dizer Boy, e outro leva gorro», menciona.

Nada se perde, tudo se transforma

Ao longo dos ensaios, os atores foram identificando detalhes que não funcionavam tão bem. Por isso, para que as trocas de roupas não lhes impedissem as entradas em cena a tempo e horas, algumas peças tiveram de ser reformuladas.

«Como temos bastantes personagens, vamos usando variadíssimo vestuário e temos de nos adaptar àquilo que a cena nos pede. Por exemplo, há mudas tão rápidas em que eu, no meu caso, tive que adaptar mesmo roupas. Para interpretar o Frei, tive de colocar alguns velcros, de modo a ser uma coisa muito prática para chegar fora de cena e colar. Se fossem molas, perdia muito mais tempo», conta Rúben. «Esse é um trabalho que tem sido volante, com a Marta, e com o próprio encenador, de modo a que consigamos fazer isto em 97 minutos», frisa.

O caos controlado nos bastidores

Ainda que a troca das peças de roupa esteja facilitada pela forma como estas fecham, é necessária uma ajuda extra nos bastidores. João Veloso é o herói de serviço, sempre pronto a auxiliar na hora vestir e despir os atores. «Lá atrás [do palco] está o João Veloso, que é tão importante quanto nós, que estamos aqui à frente [no palco]», declara Rúben Madureira. «Era engraçado fazer uma peça de teatro em que desse para virar, porque aquilo lá atrás é uma comédia. Acaba tipo feira da ladra», repara ainda.

No entanto, apesar desse aparente caos, existe uma espécie de organização no espaço. «Está tudo por ordem, para que não haja enganos, mas existem adereços que são usados outra vez e trocas muito, muito rápidas – algumas de dois segundos – e não há forma de aquilo estar propriamente por ordem. Além disso, os atores chegam e tiram a roupa toda a correr», esclarece João.

Marta Pedroso explica que, nos bastidores, enquanto «o João está pronto com o próximo figurino, os atores estão já a tirar o outro para que este lhes vista o próximo». A isto, Veloso adiciona que, «eventualmente, aquele figurino que eles acabaram de atirar para o chão vai ter de voltar a entrar» e, deste modo, tem de o ir buscar e preparar para a próxima vez que seja necessário.

«Tem de ser muito coordenado», nota Telmo. «Quase coreografado», reitera Pedro.

 

A peça estará no Auditório dos Oceanos do Casino Lisboa até 3 de novembro. Os bilhetes custam entre €15 e €17 e podem ser adquiridos online ou no próprio local.