O Dia da ModaLisboa Que Vai Ficar Na História de Moda Nacional

O dia ficou marcado pela colaboração da Decenio com Alexandra Moura. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: ModaLisboa

O segundo dia de desfiles da ModaLisboa Collective começou de uma forma particular. Desta vez, não seriam os modelos a percorrer os 68 metros da passerelle, mas sim os visitantes. A culpa só podia ser de Nuno Gama, que como é habitual nunca se cinge a um simples desfile. Mas a verdadeira razão porque este dia nunca vai ser esquecido, é que foi apresentada a colaboração entre a Decenio e a Alexandra Moura, representando uma união entre a indústria a moda de autor inédita e que esperamos tenha vindo para ficar.

Decenio X Alexandra Moura

«Isto é um marco. Nunca neste país alguma marca tinha feito algo assim. Nisso, a Decenio foi incrível», conta entusiasmada Alexandra Moura à ELLE, depois do desfile. Esta é uma parceria única, que marca uma viragem na Decenio, que é um marca enraizada e muito tradicional. Com esta parceria, aquela que até era conhecida como uma marca de roupa mais formal, ideal para trabalho, irá alcançar outros públicos e criar um novo universo dentro da insígnia.

Para já estas peças de desfile ainda foram todas produzidas nos mesmo locais que as coleções de Alexandra Moura. Agora a ideia é que das peças apresentadas em defile algumas sejam levadas para produção em fábrica, como as sweats e calções que têm cortes mais simples, enquanto as outras um pouco mais especiais têm de continuar a ter um processo mais manual. Ainda não foram definidas quais as peças que vão estar à venda, mas certo é que não serão todas, até porque no desfile algumas das peças apesentadas eram bastante conceptuais.

Numa primeira fase a comercialização será apenas feita online, mas gradualmente e de acordo com a aceitação dos clientes Decenio, as peças vão começar a ser introduzidas em loja. Esta é uma verdadeira união entre a indústria e a moda de autor, e Alexandra Moura mostra-se muito feliz, não só por si, mas pela moda nacional. «Eu acho que é muito positivo para todas as partes. A parte mais industrial aproxima-se da moda de autor, da moda conceptual, do trabalho mais de atelier, e também é bom porque a moda de autor de alguma forma consegue ter a capacidade de atingir objetivos pela força da indústria. Por isso só pode ser um casamento feliz»,revelou à ELLE.

Quanto às peças que desenhou garante que não teve qualquer tipo de restrições por parte da Decenio, apenas lhe pediram que desse o seu cunho pessoal no que fosse criar. E o cunho de Alexandra esteve em tudo. Desde o padrão de um interior de guarda-sol, que foi feito a partir de uma fotografia que a designer tirou na praia, até aos elementos de design como bolsos e fitas, que usa frequentemente nas suas coleções.

Mas o cunho da Decenio também esteve lá, já que Alexandra Moura visitou o espólio da marca e de lá trouxe quase todos os materiais.

A encenação de Nuno Gama na ModaLisboa

Nuno Gama apresenta sempre algo mais que um desfile, já teve cantores, bailarinos e até cavalos, nas suas apresentações. Mas desta feita, toda a agitação, que se espera sempre de Nuno Gama, se dissipou. Em seu lugar chegou a serenidade, a quietude de uma encenação praticamente imóvel, com diferentes quadros. Tudo isto ao longo dos 68 metros da passerelle.

Desta vez ninguém se sentou nos lugares marcados, todos os visitantes foram convidados a caminhar ao longo de um encenação que reinterpretava a história de O Principezinho. O desfile esse fica marcado para março, sendo posto à venda logo após o desfile. «Hoje em dia os clientes, não querem estar tanto tempo à espera das coleções. Não faz sentido fazer os clientes estarem tanto tempo à espera, por isso o que fizemos foi encenar o Principezinho, que era uma coisa que eu já queria fazer há imenso tempo. Vamos apresentar a coleção em março», explicou Nuno Gama à ELLE, após o desfile.

Ricardo Preto e a viagem entre o Oriente e o Ocidente

O desfile de Ricardo Preto abriu vestido de cabedal num tom entre o castanho e o ferrugem, que teríamos no armário facilmente. Seguiram-se mais cores destas improváveis, com combinações mais improváveis ainda, que são já assinatura do designer. Ricardo Preto não é apenas mestre em criar harmonias de cor mas também a criar harmonias entre padrões e matérias.

Ricardo Preto apresentou uma coleção muito completa, como é já seu apanágio, e com uma confeção absolutamente irrepreensível, possível não só pela mestria de corte mas também pela excelência dos materiais. Destacam-se os plissados e as sobreposições nas silhuetas, e nos detalhes as pedrarias, o macramé da carteiras e os bordados de Viana do Castelo, um elemento tradicional português que também já tinha sido utilizado por Marques’Almeida, em setembro de 2018.

«Tenho trabalhado imenso com a indústria italiana nas últimas coleções e nesta quis voltar a trabalhar com Portugal e soube-me muito bem. E é impossível não reparar na riqueza das nossas coisas», revelou o designer nos bastidores depois do desfile.

O calendário não ficou por aqui

Apresentou ainda a Imauve, que pela primeira vez se aventurou numa coleção sem estação, apesar da grande aposta terem sido as cores vibrantes em formas ultra femininas. Seguiu-se João Magalhães com materiais com estampados digitais que foram o resultado da colaboração com Guilherme Curado.

Na sala principal de desfiles apresentava Patrick de Pádua com uma coleção muito consistente. No desfile sentiu-se uma vibe dos anos 90 que se estendeu da roupa aos sapatos, em colaboração com a Ambitious. E não podemos falar de sapatos sem referir o primeiro desfile de Luís Onofre na ModaLisboa, numa parceria com o Portugal Fashion. Desta vez, o designer tomou o risco de desenhar uma coleção constituída por muitos sapatos rasos e assumiu os ténis como um dos elementos chave da coleção. Algo inovador para o designer que é conhecido sobretudo pelos sapatos de festa.

O dia contou ainda com Ricardo Andrez que a pensar na sustentabilidade, usou apenas tecidos em dead stock. Mas também com Aleksander Protic que usou uma paleta de cores vibrantes e Dino Alves. Este último explorou o conceito de pudor e tomou as formas de algumas peças de lingerie, como bodies e cintos de ligas, para peças exteriores. Além disso, brincou com o jogo entre o transparente e o opaco, numa mistura de materiais bastante interessante.