Nuno Lopes Fala Sobre ‘White Lines’ e as Consequências da Quarentena na Cultura

O ator dá vida a Boxer na nova série da Netflix. Por: Margarida Brito Paes Imagens: D.R.

Na sua primeira cena, Nuno Lopes está a vestir um roupão com padrão vermelho, preto e dourado, bem ao estilo Versace. Passados pouco minutos, no mesmo episódio, está a tentar afogar um traficante de droga na piscina, com recurso a um camaroeiro. Antes disto tudo, já existiu uma cena de cancan e tocou o Bamboléo, dos Gipsy Kings. Benvindo a White Lines, uma série que, segundo o ator, é uma «montanha russa», «é caleidoscópica, é quase cubista, não vês uma figura, vês vários ângulos, totalmente diferentes, da mesma figura». Pela amostra, dá para perceber porquê, é que, apesar de todos os elementos referidos, esta é uma série policial e foi escrita por um dos melhores, Álex Pina, o criador de La Casa de Papel.

A ELLE.pt falou com Nuno Lopes sobre esta viagem louca, que tem estreia marcada na Netflix para dia 15 de maio. O ator contou-nos como foi interpretar uma personagem que «há dez anos, seria feito por um ator inglês que soubesse mais ou menos falar espanhol, há 5 anos seria feito por um ator espanhol que soubesse falar inglês e, agora, é feita por um português que está a falar espanhol e inglês». Mas a conversa foi além dos dez episódios que têm como cenário Ibiza, porque é impossível não falar sobre o impacto da pandemia na cultura. «Eu tenho esperança de que, quando passar esta fase, e passarmos outra vez para a cultura paga, as pessoas se apercebam da importância que a cultura teve neste período de quarentena e que isso ajude a que as pessoas exijam mais cultura em Portugal», revelou-nos. Uma esperança que partilhamos, como outras abordadas nas linhas. em baixo.

O que tem White Lines que te fez querer entrar neste projeto?

Em primeiro lugar, é uma série feita pelo Álex Pina, que fez a La Casa de Papel, Vis a Vis, El Embarcadero, e séries muito interessantes. Depois, é produzida pela Left Bank Pictures, que faz, entre outras coisas, o The Crown. Portanto, havia um símbolo enorme de qualidade ligado à série. Além disso, o guião que me enviaram era apaixonante e era algo que eu nunca tinha lido. A série apresenta-se como uma espécie de tragédia e uma espécie de policial em que se vai descobrir quem matou quem, mas depois transforma-se. A palavra mais usada pelos atores para definir esta série durante a rodagem era montanha russa. O início da série, onde se apresenta este lado mais trágico – e que, na verdade, liga a série toda -, é como se fossemos naquela parte da montanha russa em que o carrinho vai a subir e vai muito devagarinho para cima. E nós pensamos ‘ah ok, o ritmo da série é assim’, mas, a partir dos 30 minutos do primeiro episódio a série, demonstra realmente o que é. Na verdade, é a história de uma bibliotecária de Manchester no mundo de Ibiza, da noite, das drogas, das orgias, da loucura, do verão, e há uma espécie de caleidoscópio cómico durante a série toda, que é vertiginoso e explosivo, mas muito divertido. A série tem um lado cómico enorme e isso é algo que eu nunca tinha visto numa série deste género. Uma típica série de crime que se transforma noutra coisa, que não tem nada a ver com uma série de crime. Isso foi muito entusiasmante e deu-me muita vontade de participar no projeto.

Esse lado cómico de que falas também é muito induzido pela música. A série começa com flamenco, depois passa ao pop espanhol, tem uma série de escolhas musicais inusitadas para o tipo de série que é. Sentiste isso?

Sim, a série tem tantas cores e níveis diferentes. E isso é muito surpreendente. Num episódio, às vezes, encontras tons completamente diferentes. Mesmo a banda sonora é caleidoscópica, é quase cubista. Tu não vês uma figura, vês vários ângulos totalmente diferentes da mesma figura. E isso também passa para a banda sonora, que foi feita não só pela produção, mas também pelo Junkie XL. Ainda por cima, a série passa-se em Ibiza. E o Junkie XL é um dos Dj’s que eu mais gosto e um dos produtores mais interessantes de música eletrónica. Portanto, de repente, a própria música acompanha esse lado caleidoscópico e louco que a série tem.

Foi essa quantidade de camadas, de teres de estar em vários registos diferentes no mesmo diálogo, o maior desafio da tua personagem?

Sim, mas também ter de falar em duas línguas que não são a minha. A série é falada 70% em inglês, 30% em espanhol, e a minha personagem fala as duas línguas. Esse foi um dos grandes desafios, porque é sempre estranho representar noutra língua.

É mais difícil?

É, é muito mais difícil, para mim é. Porque não tens conexão emocional às palavras. Eu costumo dizer que quando eu digo ‘pai’, já o disse mil vezes, quando digo ‘father’ ou ‘padre’, são palavras que eu disse duas vezes no máximo na minha vida, portanto não tenho uma conexão emocional com elas.

E qual foi o trabalho de preparação para conseguires essa ligação?

A série levou seis meses a ser filmada. Ao fim de três meses começa a ser mais fácil. Eu estive em Espanha seis meses, ao fim de três comecei a sonhar em espanhol e inglês, em vez de português. E, a partir daí, começa a ser mais fácil, porque começas a pensar na outra língua. Ainda assim, é muito complicado. Mesmo o decorar texto demora muito mais. Todo o trabalho de texto é quase quatro vezes maior do que aquele que tenho quando estou a trabalhar em Portugal.

Mas esse também é um trabalho que estás muito habituado já, tens muitos filmes gravados fora, sobretudo em francês…

Sim, é um facto. Tenho muita coisa em francês, mas este é o primeiro trabalho grande que faço em inglês e espanhol, portanto, de repente, foi voltar ao início de representar noutra língua. Essa é uma das partes complicadas, mas a série tem muitos outros desafios. O facto das personagens serem muito complexas em si próprias. Todos eles têm um lado B, um lado C e um lado D.

Fala-me um bocadinho desses lados da tua personagem.

Ele é chefe de segurança de uma família que tem sete clubes em Ibiza e que está, naturalmente, ligada ao mundo da noite e, indiretamente, ligada ao mundo das drogas. O patrão da minha personagem é suspeito de ter morto um DJ, cujo corpo apareceu nas terras dele. Então, a minha personagem é encarregue, pelo patrão, de investigar o que se passou. É uma espécie de chefe de segurança, faz tudo… é a quem as pessoas ligam quando têm problemas e é quase uma figura icónica de Ibiza. Ao mesmo tempo, é tipo cool, às vezes até um pouco piroso na sua coolness, porque tem um lado latino muito forte. Parece só um bad guy que é capaz de ser violento e que é capaz de ameaçar quem for preciso mas, depois, tem outro lado sentimental e sensível que se vai descobrir ao longo da série.

 

 

«Há dez anos, esta personagem de White Lines seria feito por um ator inglês que soubesse mais ou menos falar espanhol, há 5 anos seria feito por um ator espanhol que soubesse falar inglês e, agora, é feita por um português que está a falar espanhol e inglês.»

 

 

Numa entrevista ao Expresso, em 2018, contaste que, depois do Alice, te tinham oferecido trabalho na ABC, mas que teriam dito que, como eras português, ficarias sempre com os papeis de jardineiro estrangeiro. Sentes que essa imagem está a mudar ou achas que ainda existe esse estereótipo?

Não, isso melhorou muito nos últimos anos. Em parte, graças à Netflix, porque o facto de a Netflix ter produções em muitos países e fazer produções locais em muitos lados do mundo – por exemplo, esta série é inglesa e está a ser filmada em Espanha – faz com que necessite de atores locais e, de repente, deixou de haver tantos estereótipos. Há dez anos, esta personagem de White Lines seria feito por um ator inglês que soubesse mais ou menos falar espanhol, há 5 anos seria feito por um ator espanhol que soubesse falar inglês e, agora, é feita por um português que está a falar espanhol e inglês. Isso mudou muito, nesse sentido. O Mundo está a mudar muito para os atores, porque quase já não há barreiras e porque as pessoas se habituaram a ver várias nacionalidades num mesmo filme. E também começaram a ler legendas. Por exemplo, o Narcos, metade é falado em espanhol e nos EUA passa assim, de repente estão os americanos a ler legendas, que é uma coisa muito rara, e isso faz com que os mercados se abram cada vez mais. Isso permite que atores portugueses, e de todo o lado do mundo, tenham mais trabalho internacional.

Achas que isso também pode ajudar o cinema de autor? Ver mais atores portugueses, neste tipo de plataformas, pode ajudar o público internacional, mas também nacional, a ter mais abertura para o cinema português?

Eu acho que isso ajuda sempre. Durante muito tempo, muitas vezes acusavam-me de ser contra o cinema comercial, pelo facto de só fazer cinema de autor. Mas, pelo contrário, não há nada que eu deseje mais que o sucesso do cinema comercial português, porque isso vai trazer uma curiosidade sobre o cinema português e naturalmente vai trazer público que, mesmo que comece pelo cinema comercial, se vai passar a interessar por outro tipo de cinema também. Eventualmente, vai trazer público e acabar com o estereótipo de que o cinema português é chato. Estamos a melhorar, ainda a passos muito lentos, mas estamos a melhorar nesse sentido. Tudo o que ajude a quebrar o estereótipo e ajude a que as pessoas se conectem mais com artistas portugueses, ajuda-nos cá dentro a que a cultura evolua e a que as pessoas comecem a ter mais apreço por ela.

 

«Eu espero que isto faça com que as pessoas percebam a importância da cultura na vida delas e que exijam mais, e que os Governos sejam, de certa maneira, obrigados – que neste momento já me parece a única solução – a chegarem-se à frente e a darem mais apoio à cultura»

 

Nesta fase que estamos todos a viver, em isolamento social, a cultura assumiu um papel muito importante. Um pouco por todo o lado surgem iniciativas culturais online, que têm bastante adesão. Achas que, depois deste período, as pessoas vão olhar para a cultura de forma diferente? E achas que a própria forma de produzir cultura pode mudar, agora que se abriram estas novas janelas para outras plataformas e novas formas de fazer?

Eu acho que, a curto prazo, claro que está a mudar. A curto prazo, os artistas, de uma maneira geral, estão a ser generosos e a oferecer cultura de forma gratuita. Eu tenho esperança de que, quando passar esta fase, e passarmos outra vez para a cultura paga, as pessoas se apercebam da importância que a cultura teve neste período de quarentena e que isso ajude a que as pessoas exijam mais cultura em Portugal. Porque também sei que os últimos Governos, das últimas décadas, têm ignorado a cultura portuguesa. A percentagem do orçamento para a cultura nem chega a 1% e, se isto acontece, é porque as pessoas também não exigem mais. Eu espero que a quarentena faça com que as pessoas percebam a importância da cultura na vida delas e que exijam mais, e que os Governos sejam, de certa maneira, obrigados – que neste momento já me parece a única solução – a chegarem-se à frente e a darem mais apoio à cultura, que é precária desde sempre, e sobretudo em situações de crise. Estamos numa situação, neste momento, trágica para a sociedade em geral e também para os artistas.

Achas que vão surgir mais alternativas de produção, influenciadas por este tempo mais digital?

Num curto prazo, acho que sim, que vão ter de existir novas formas de trazer dinheiro aos artistas. Neste momento, o que está a acontecer é tudo de uma forma gratuita. Ainda não comecei a ver projetos que façam o contrário, que tornem isto numa situação económica normal entre público e artistas, em que o público usufrui da cultura mas também paga por ela.