A Mutilação Genital Feminina Podia Acabar Em Menos Tempo Que O Pensado pela ONU

A embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas acredita que é possível erradicar esta prática antes de 2030. Por: Inês Aparício -- Imagens: © Gabriel Benois (Unsplash).

Apenas nos primeiros seis meses deste ano foram detetados 54 casos de mutilação genital feminina. Um número que é, por pouco, igual ao verificado durante todo o ano anterior, notou a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, à Lusa, em agosto.

Ainda que os valores não representem práticas ocorridas durante estes períodos – mas sim as sinalizações que foram concretizadas nessa altura, possíveis devido ao projeto de prevenção e combate ao fenómeno, Práticas Saudáveis -, estes poderiam atingir o zero antes de chegarmos a 2030, o objetivo estabelecido pela ONU, defende Jaha Dukureh. A embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para o continente africano, que recebe esta sexta-feira, 13 de setembro, o prémio do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa relativo a 2018, numa cerimónia levada a cabo na Assembleia da República, afirmou, em declarações à Lusa, que acredita ser possível erradicar esta prática nos próximos cinco anos.

«Estou realmente surpreendida que vocês tenham tantos casos de MGF em Portugal», disse agora, à Lusa, Dukureh. Contudo, não se comprometeu com qualquer sugestão de medida que possa contrariar estes números. «Preciso de compreender exatamente o que se passa em Portugal e quais são as tendências para que possa oferecer qualquer tipo de conselho», explicou a ativista da Gâmbia.

No entanto, sublinhou que se fosse angariado financiamento para uma campanha global, as suas previsões poderiam concretizar-se. «Se conseguíssemos arrecadar 20 milhões de dólares [18 milhões de euros] para uma campanha global sobre a MGF, acho que não teríamos que esperar até 2030 para erradicá-la. Pessoalmente, acredito que em cinco anos conseguiríamos erradicar a MGF», assegurou.

Valores em queda na Gâmbia

A vinda de Jaha Dukureh a Portugal, aquando da cerimónia de entrega do prémio do Conselho da Europa, aconteceu na mesma altura em que foram divulgados os dados do instituto de estatísticas gambino referentes a esta prática que já matou mais de 200 milhões de mulheres em todo o mundo. De acordo com este, houve uma diminuição de cerca de 25% do número de vítimas de mutilação genital feminina nos últimos cinco anos.

«A MGF é praticada no nosso país [na Gâmbia] em meninas entre os zero e os 14 anos. Depois dos 14 anos já não é feita. Em 2018, a percentagem de meninas vítimas que qualquer tipo de MGF foi de 50,6%. No último estudo era de mais de 74%. Isso quer dizer que baixámos a MGF em 25% no nosso país num período de menos de cinco anos», mencionou à Lusa. «Acho que nunca se viu nada como isto em África», concluiu.