John Legend Já Lançou As Músicas de Natal E Reinventou Uma A Pensar No #MeToo

Os versos de Baby it's cold outside, cantada com Kelly Clarkson, não são iguais à original. Por: Inês Aparício Imagens: © D. R.

Ao primeiro dia de novembro, Mariah Carey chegou e disse: «que a quadra festiva oficialmente comece». E com o tiro de partida dado pela mãe (das músicas) de natal, as canções – novas ou reinterpretadas, mas sempre com muitos sininhos e magia – começam a aparecer. John Legend é um dos primeiros, este ano, a trazer ao mundo um álbum de natal, A Legendary Christmas, que conta também com as vozes de outros artistas, como Stevie Wonder, Esperanza Spalding e Kelly Clarkson.

Com esta última, canta o clássico Baby it’s cold outside. Contudo, os versos não são iguais ao original, escrito por Frank Loesser já em 1944. Os cantores decidiram reinventar a letra desta música – frequentemente criticada por normalizar o assédio, ou mesmo a violação -, a pensar nos passos dados com o movimento #MeToo.

Divergências do original

Baby it’s cold outside é um dueto entre um homem que tenta de tudo para convencer uma mulher, relutante, a passar a noite em sua casa, numa noite fria. Por mais desculpas que esta dê – desde a preocupação da mãe às suspeitas da irmã -, este insiste que esta fique, sem compreender o significado de «não é não». Mas não na versão destes cantores.

Enquanto que no original, a figura masculina quase implora que a parceira não vá embora por causa do mau tempo, na adaptação este oferece-se para lhe chamar um táxi e pede-lhe que o avise quando chegar a casa. Além disso, quando a personagem a quem Clarkson dá vida pergunta o que é que os amigos irão pensar do facto de esta ter aceite mais uma bebida, este responde-lhe que o corpo é dela, assim como a sua decisão.

Críticas aos versos

Ao contrário do que se possa pensar, não foi desde o aparecimento do #MeToo que as críticas à letra desta música começaram. Segundo nota a Rolling Stone, num artigo publicado no ano passado, a primeira vez que um meio de comunicação sublinhou a associação ao abuso sexual foi em 2004. «Baby it’s cold outside tem uma melodia adorável, mas é uma ode à normalização da violação», pode ler-se no texto publicado pelo Canada’s National Post, numa coluna humorística de Rob McKenzie e Joe Bodolai. «Em suma, o homem alcooliza a mulher apesar dos seus protestos de modo a conseguir aproveitar-se dela».

Mas foi 2007 o ano em que a condenação da música se fez sentir com mais intensidade. A letra foi analisada por vários escritores e jornalistas, especialmente por feministas, e a maioria concluiu que esta era uma «celebração da quebra de fronteiras que levam à coerção sexual». As críticas tornaram-se, com o passar dos anos, quase uma tradição de natal, tal como o pinheiro ou o bacalhau.

Assim, com o feminismo na ordem do dia, no ano passado foram várias as rádios que optaram por banir a música dos seus alinhamentos, dada a controvérsia. Entretanto, algumas delas decidiriam voltar a utiliza-la, como a canadiana Bell Media.

Ouça, em baixo, a nova versão da Baby it’s cold outside.