ModaLisboa Dia 2: As Performances e Viagens na Encantada Estufa-Fria

Assim foi o segundo dia e as suas coleções. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © ModaLisboa | Ugo Camera.

Desde que a pandemia começou e nos obrigou a passar tempos infinitos enfiados dentro de casa (e em muitos casos, essas casas eram apartamentos) que a mais pequena oportunidade existente de esquecer que paredes de betão e cimento existem, é muito bem-vinda. E que melhor cenário poderá existir para tornar essa vontade em realidade do que a estufa-fria de Lisboa (o palco do segundo dia de desfiles da ModaLisboa)?

A primeira a tirar proveito deste encantador reino foi a Awaytomars que, à semelhança do que já fez no passado, optou por trocar o típico desfile, por uma performance onde as modelos com umas capas de tecido cru eram pintadas. Infelizmente, e por muito que lhes permita enfatizar que o coletivo de designer tem um forte vinculo ao reino das artes e das questões sociais, não permite ao espectador perceber como é que depois tudo isso é transmutado para o vestuário. Pode servir para abrir a curiosidade de alguns para conhecer  melhor o seu trabalho? Sim, mas também pode fazer exatamente o oposto para quem olha para a moda por um angulo mais pragmático.

Béhen, que tanto hype teve na edição passada da ModaLisboa, provou que é possível repetir o feito. Como? Abraçando a portugalidade e fazendo o que mais ninguém fez até então: pegar naquilo que de mais kitsch existe na nossa cultura ( transformando objetos que vão panos e toalhas bordados com flores que enfeitam as mesas de Páscoa às colchas em cetim repletas de folhos que poisam sobre as camas das casas das nossas avós/pais) e transformando isso em moda. É bom? Depende da pessoa. Para algumas pode ser incrível, para outras, pode ganhar um ar muito semelhante ao de um fato de uma patinadora de gelo. Seja como for, a verdade é que uma marca com esta dificilmente será consensual.

Duarte propôs-nos fazer uma viagem até à ilha de Maui no Havai, e mergulhar no azul-turquesa do oceano que banha a sua costa criando um enorme contraste com o verde intenso da vegetação. E acabou por ser precisamente esse contraste de cores que se destacou na apresentação. Numa versão desportiva e bastante comercial (como já é costume) as camisolas, camisolas com capuz, calções e vestidos que percorreram a gravilha ganharam tons tropicais em RGB, ora através de padrões ora através de tons sólidos.

À semelhança do que tinha feito na edição passada Constança Entrudo voltou a optar por fazer uma apresentação em vez de um desfile. Os looks (12 para sermos mais precisos) que estavam espalhados neste reino encantado da estufa-fria tinham, visivelmente, um cunho seu: os padrões distópicos ondulados (um deles semelhante ao da estação passada), os tops feitos com algodão desfeito com correntes, e as calças à boca-de-sino. Goste-se muito ou pouco do trabalho desta designer, a verdade é que ela já mostrou ter uma identidade muito marcada.

O dia fechou com chave de ouro, com a coleção de Luís Carvalho. Nesta linha o designer através de uma metáfora cromática (intencional ou não) que nos levou numa pequena viagem que começou num reino das trevas estampado por um padrão em azul profundo e que terminou (depois de nos ter mostrados os azuis claros com um padrão floral e uma versão inversa do print em off-white com riscas azuis super finas) numa explosão de rosa intenso. Ainda assim, o grande destaque desta coleção foi, sem sombra de duvida as silhuetas e os materiais (como o linho, a popeline, ou o bordado inglês) que deram uma incrível frescura aos coordenados.