O que Inspirou as Coleções Dos Seis Criadores da Workstation da ModaLisboa

Damos-lhe todas as razões para assistir às apresentações dos designers no primeiro dia do evento de moda. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R., Ryan Skleton e Anna-Sofie Lugmeier.

Tal como qualquer ser humano, também a ModaLisboa evoluiu com o passar do tempo. A semana de moda lisboeta adaptou-se ao ritmo da indústria da moda, acolheu novos criadores e abraçou novos espaços pelo caminho. Tudo porque prestou atenção às necessidades dos artistas que integra no seu calendário, independentemente da idade ou formação destes. Assim, quando se apercebeu que faltava uma plataforma para que jovens designers pudessem praticar moda, abriu a Workstation a estes. Inicialmente este espaço foi pensado para que os fotógrafos mostrassem a sua perspetiva sobre o evento, sem quaisquer limites, mas agora as formas de expressão vão muito além da fotografia.

«Sentimos que, entre o Sangue Novo e a plataforma Lab, havia ali um gap. Era um momento que não estava a ser trabalhado», começou por explicar Eduarda Abbondanza, diretora da Associação ModaLisboa, em entrevista à ELLE. «Tínhamos um conjunto de designers que queriam criar uma marca própria, mas que já não eram Sangue Novo e não podiam estar no Lab, porque este tem já outras exigências que este tipo de criadores ainda não reúne», continuou, frisando que, nesta última plataforma, os jovens precisam de ter, por exemplo «uma empresa e estrutura de distribuição».

Foi deste modo que tornaram a Workstation num campo de treino para os criadores que pretendem ver a sua marca crescer. «A moda tem de ser treinada. O lado de apresentação da moda tem de ser treinado. Porque é aí que se cria a imagem e o estilo», sublinha a presidente da entidade que organiza a semana de moda na capital portuguesa. «Portanto, criámos a Workstation para os designers exatamente como plataforma de treino, de procura desse mesmo estilo e de contacto também com aquilo que poderão ser os primeiros consumidores, o público», continua. «É uma espécie de acelerador, digamos. Uma disponibilidade para que apareçam, mais tarde, marcas prontas para o Lab», completa.

Para esta edição, sob o mote Collective, convidou seis criadores a apresentarem as suas coleções esta quinta-feira, 10 de outubro, no Palácio Sinel de Cordes – Trienal de Arquitectura. Com entrada livre, as visões de António Castro, Archie Dickens, Cristina Real, Federico Protto, Opiar e Rita Afonso para a primavera/verão 2020 serão apresentadas, às 17 horas, não no clássico formato desfile, mas como performances. E o que delas esperar? Mais interatividade e mais liberdade, contam, à ELLE, os designers.

António Castro transforma, naturalmente, tecidos antigos

A posição de António Castro face à sustentabilidade é clara: «acho que não devíamos falar de sustentabilidade. Estamos num momento em que devíamos simplesmente fazê-la e cumpri-la», declara. Por isso, foi, para si, natural pegar em materiais em fim de stock e dar-lhes uma nova vida.

«A questão de usar tecidos antigos é que há uma sensibilidade e algo de especial, de histórico, que esses tecidos carregam, que podem ser adaptados a designs contemporâneos. Nesta coleção, não estou só a trabalhar com tecidos antigos que comprei em diversos pontos de venda, como feiras, e outros que me foram dados – estou a trabalhar com muitas rendas, toalhas antigas -, mas também estou a desenvolver uma técnica que já há algum tempo tinha curiosidade em experimentar e que já tinha desenvolvido alguns testes. Estou a comprar peças vintage, a destruí-las e a voltar a utilizá-las através da tecelagem», uma técnica que estará muito presente na coleção, destaca o criador.

Estas serão apresentadas, como o próprio designer descreve, de uma forma «um pouco misteriosa». «A performance vai estar muito focada na parte têxtil. Não é uma apresentação em que será possível uma imediata observação dos looks gerais. Vai ter algumas layers que obrigam o espetador a observar mais tempo», evidencia António.

Entre a flora com Archie Dickens

Quando perguntamos a Archie Dickens o que poderíamos esperar da sua apresentação, o criador britânico hesita. Não porque não tem ainda a sua performance pensada, mas pelo fator surpresa. Por isso, deixa-nos apenas algumas pistas e a insistência de assistirmos à exibição da sua coleção (que se estende a si, claro).

«Estará relacionada com plantas», adianta o designer que se inspirou exatamente nestes elementos da natureza para dar vida a Da mata ao mar, uma viagem entre a sua linha passada e a nova, pelo meio do mar e da flora, que se traduz em formas mais orgânicas. «Será algo bastante divertido. É uma boa oportunidade para brincar com a apresentação, porque não é um desfile. Por isso, tive tempo para organizar algo mais interativo com as modelos. Assim, será algo muito simples, mas terá também um elemento de diversão», garante à ELLE.

Contudo, mais do que a possibilidade de conferir um fator menos sério à mostra das suas peças, tal como queria, Dickens está entusiasmado com a apresentação na Workstation devido à oportunidade que esta lhe dá para «falar com as pessoas e interagir com o que se passa, em vez de ficar apenas atrás da cortina». «Tenho um processo de criação bastante distintivo, porque trabalho malhas, e assim posso explicá-lo ao público», nota.

Cristina Real leva-nos por uma viagem no tempo

A Workstation é sobre quebrar barreiras e empurrar limites, o que, para Cristina Real, envolve uma fusão entre passado e presente. Uma viagem desde o momento imortalizado numa fotografia antiga de família – que serviu como ponto de partida para a coleção desta – até aos dias de hoje, «como se estivesse a revivê-lo», explica a designer.

«As minhas memórias são um ‘regresso ao futuro’, uma forma de glorificar o passado dando mais relevância ao universo tecnológico», refere. Por isso, esta procurou «explorar os cortes antigos e fazer novas experiências de forma a dar um ‘upgrade’ aos mesmos», levando volumes e o colorismo dos anos 80 para Chapter Eleven.

Dos bastidores de Antígona pela mão de Federico Protto

Mais que uma coleção de roupa, a Antigone, de Federico Protto é uma linha de figurinos, baseada, precisamente, na tragédia grega de Sófocles com o mesmo nome. Depois de o designer ter desenvolvido os coordenados para essa peça, apresentada no teatro Schwere Reiter, em Munique, este decidiu reinstalar esse espetáculo na Workstation, trocando os atores por modelos.

À ELLE, o criador que vive entre a Hungria e a Áustria explica que «não será a peça em si» que irá apresentar na ModaLisboa. «Será mais colocação das diferentes personagens no espaço», esclarece. «E terão alguma interação entre eles, de forma muito espontânea», adiciona.

Desta forma, a apresentação será bastante diferente das anteriormente exibidas por Federico Protto no evento de moda português, quando este fazia ainda parte do segmento Sangue Novo. «É uma honra que a ModaLisboa me tenha passado para o nível seguinte. Isso permite-me mostrar as minhas peças de uma forma mais artística, o que é algo que para um jovem designer é muito importante e de que gosto bastante. Como não ganhamos ainda dinheiro com as nossas criações, é muito bom termos a a possibilidade de apresentar algo interessante e artístico, ter um palco, tempo e o apoio financeiro da ModaLisboa», menciona.

Opiar desafia o espaço entre a luz e a escuridão

Da luz à escuridão. Do bem ao mal. Do certo ao errado. Da resiliência à agonia. Artur Dias, o criador por trás da marca, parte de um ponto para o outro e reflete sobre o que fica entre ambos, a penumbra. E destes, envia uma carta, a base da coleção.

Acompanhando o processo de transição destes elementos, o designer adapta-o a uma dança que tornará, não só a ligação do público «mais íntima com a obra», como as suas intenções mais claras.

«Quando fui convidado para a plataforma, já tinha em mente que seria um método de apresentação diferente. Desde logo, fiquei empolgado, porque como estou ligado ao espetáculo desde cedo, como bailarino, o meu interesse foi sempre elevar o meu trabalho com esse elemento mais performativo», diz Artur Dias. «A Workstation foi a oportunidade perfeita para desenvolver um produto que se enquadra perfeitamente nas minhas ideologias de apresentação, que se foca numa análise mais detalhada e cuidada do produto, inspiração e mensagem, por vezes difícil de captar em desfile», conclui.

Rita Afonso conta a história de um menino

De um momento para o outro, a roupa deixa de lhe servir. A frase podia descrever o problema de qualquer mãe nos primeiros anos de vida do seu filho, mas é, na verdade, o mote da narrativa da coleção de Rita Afonso. «Amadeu, é sobre uma criança de seis meses que está sempre de babete e com roupas ou muito largas ou muito justas. Roupas herdadas dos primos, Joaninha e João. Por isso, Amadeu raramente se veste com a cor que mais gosta e raramente o comprimento da manga bate no fim do braço», pode ler-se no descritivo da linha que será apresentada na Workstation.

Sempre a crescer, este acaba a vestir peças que, ora lhe servem, ora têm de se adaptar a este, e que, na coleção, se materializam em «roupas pequenas e apertadas, largas e grandes, e roupas que estão no tamanho certo», revela a designer à ELLE, que acrescenta que, durante a apresentação, o público poderá «experienciar estar na cabeça de uma mulher depois de ser mãe».

Rita Afonso acredita que, não só esta performance, como o facto de estar integrada nesta plataforma, lhe dá uma maior liberdade criativa. «[A Workstation] motiva-me a continuar a desenhar com a liberdade que não tenho no meu dia-a-dia. E o facto de ser um formato performativo é interessante, pois dá-nos a oportunidade de pôr as peças a falar, cantar, chorar, o que nos apetecer», conclui.