Jean Paul Gaultier: O Desfile Que Começou Com um Funeral e Acabou em Festa

Boy George cantou Amy Winehouse e, depois disto, tudo é possível. Por: Margarida Brito Paes Imagens: Imaxtree

Aponte na agenda o dia 22 de janeiro de 2020, porque esta data vai fazer parte dos livros de História da Moda, dentro em breve. Esta é a data do último desfile de Alta Costura de Jean Paul Gaultier, e só isso já faz esta data histórica, mas o desfile que marcou o momento é que foi o verdadeiro acontecimento. Foi mais um de uma hora de espetáculo, sim porque o que aconteceu foi um espetáculo, com 230 coordenados e um casting espetacular.

Não há só um tipo de beleza

Vamos começar precisamente por aí. O casting. Bem, por onde devemos começar? Já mencionamos Boy George, por isso devemos dizer que Pandemonia, a boneca insuflável viva, que é presença em várias semanas de moda, também desfilou e conseguiu eclipsar Bella Hadid. Dita Von Teese também se juntou à festa e nem a filha de Mickael Jackson, Paris Jackson, faltou. O melhor mesmo é ficar com uma lista de nomes incríveis. Aqui vai: Rossy de Palma, Béatrice Dalle, Fanny Ardant, Catherine Ringer, Mylène Farmer, Amanda Lear, Antoine de Caunes, Erin O’Connor, Coco Rocha, Jade Parfitt, Karlie Kloss, Gigi and Bella Hadid, Jourdan Dunn, Lily McMenamy, Karen Elson, Anna Cleveland, Estelle Lefébure, Noémie Lenoir, Winnie Harlow e Farida Khelfa.

Mas o valor deste casting não esteve apenas no número de estrelas que conseguiu reunir, apesar de faltarem Madonna e Naomi Campbell na lista, mas também na diversidade que reuniu.

Tudo começou com um funeral 

O adeus de Jean Paul Gaultier começou com imagens de um funeral. Mas não de um funeral qualquer. Numa tela gigante, foram projetadas imagens do filme, de 1966, Who are you, Polly Magoo?, de William Klein. Quando as imagens desapareceram, no palco, estavam dezenas de modelos estáticas todas vestidas de preto. Num canto, entre as estátuas vivas, um foco iluminava Boy George, que cantou Back to Black de Amy Winehouse.

Entre as modelos, desfilou um cortejo fúnebre com um caixão que, dentro, tinha uma modelo vestida de branco, a primeira a desfilar. Haverá maneira mais Gaultier de começar um desfile?!

O enfant terrible da Moda, que se retira aos 67 anos, preparou um desfile que se dividiu em diversos quadros, todos eles com referências ao trabalho que desenvolveu ao longo da carreira. Não faltaram os espartilhos, as riscas, os atilhos, as fivelas, nem as peças pregadas por cima de outras, numa referência ao desfile de alta costura primavera-verão 2003.

Apenas 50 coordenados foram feitos de raiz

É certo que o desfile contou com mais de duzentas propostas, mas, a verdade, é que feitos inteiramente de raíz foram apenas 50 das propostas. Em 2014, o designer acabou com a sua coleção de prêt-a-porter, altura em que se mostrou bastante crítico relativamente ao desperdício provocado pela indústria da Moda.

Neste desfile, manteve-se fiel a esta consciência ambiental. «Eu tenho andado a pensar que há demasiada roupa. Então, que tal reciclá-la. Em fez de a queimar, ou qualquer coisa desse género, podemos transformá-la noutra coisa. Isto faz parte da minha educação, por causa dos mercados de segunda mão e coisas assim. Então, para mim, isto foi uma aventura e eu estava mesmo entusiasmado para ver o que conseguiríamos fazer. Existem talvez 50 looks que são completamente novos. O resto é uma mistura de ready to wear, coisas que comprei na China», explicou Jean Paul Gaultier ao WWD.

Este aproveitamento de materiais é muito evidente nos coordenados feitos de gravatas, mas existem outros menos evidentes, como os que são feitos de lenços de seda.

Tudo correu mal como em qualquer boa festa

Apesar de Jean Paul Gaultier ser mestre do espetáculo (criou o seu próprio Fashion Freak Show, em 2018), este não correu da melhor forma. Mas foi incrível na mesma. Ainda assim, a desorientação das modelos e descoordenação de luzes foi perceptível. Uma realidade que Jean Paul Gaultier não negou.

«Para mim foi um prazer fazer isso e, apesar de ter tentado estruturar o espetáculo muito bem, hoje foi uma confusão, tal como na minha primeira coleção. Foi terrível, terrível – não aconteceu exatamente o que era suposto ter acontecido. Mas isso não interessa, faz parte da vida, não? Na vida, temos de ser uns camaleões», disse nos bastidores ao WWD.

Confusões há parte, houve alguns momentos memoráveis, como o início, a dança irlandesa de Coco Rocha, a orquestra impecável e a recriação do hit musical lançado por Jean Paul Gaultier nos anos 80, How To Do That.

Assista ao desfile, no vídeo em baixo, e veja as imagens de bastidores na galeria, em cima.