O Impacto Negativo da Pandemia Na Indústria Têxtil em Portugal

O cenário continua instável, mas pode ficar bem mais negro «sem os devidos apoios do Estado», garante a ATP. Por: Inês Aparício Imagens: © Janko Ferlič, no Unsplash.

Lojas de portas fechadas, produções paradas e uma forte diminuição da procura. Foi este o cenário que a covid-19 trouxe para o Mundo e, sem exceção, para Portugal. O impacto da pandemia no setor têxtil, tal como em qualquer outra indústria, foi claro e, para já, de acordo com a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, a «situação permanece instável, com um elevado grau de incerteza e perspetivas limitadas para a retoma nos próximos meses». Contudo, pode ficar mais negra. «A falta de atividade durante um período que se prevê prolongado, sem os devidos apoios do Estado, poderá originar a falência de muitas empresas e, naturalmente, o aumento do desemprego», alerta a ATP, em declarações à ELLE.pt.

Assim, o apelo ao Estado para apoiar o setor chega com urgência. «A confiança dos consumidores está relacionada com a manutenção do seu posto de trabalho, por isso, é essencial que as medidas do Governo continuem a apoiar as empresas para evitarmos encerramentos e o aumento do desemprego», sublinha a organização. «Considerando que, neste setor, a situação continua sem perspetivas de melhorar nos próximos meses, todos os empresários são unânimes defendendo a prorrogação do regime de lay-off simplificado até ao final do ano. Todas estas medidas que têm vindo a ser apresentadas pelo Governo como alternativa ao lay-off simplificado não terão aplicação na nossa indústria, pelo que, neste momento, e caso o Governo mantenha as medidas que estão previstas, antecipamos um crescimento no número de falências e desempregados», completa.

Imaginar-se-ia que a conjuntura não fosse tão caótica quanto a realidade, dados os diversos exemplos de fábricas, designers e marcas que se adaptaram às novas circunstâncias, através da produção de equipamento de proteção para os profissionais de saúde e público em geral. Porém, como nota a associação, apenas um quarto das empresas optaram por seguir este caminho, até porque «a produção de EPI, para além de obrigar a reestruturações internas, obriga a formalidades, como por exemplo certificações, que tornam o processo moroso e oneroso». «Por outro lado, é necessário ter clientes e, mesmo em contexto de grande necessidade, nem sempre é fácil fazer o match entre a oferta e a procura», esclarece. «Adicionalmente, as compras hospitalares seguem procedimentos e lógicas muito próprias, sendo por vezes difícil competir com os fornecedores habituais», acrescentou.

Uma queda nas exportações

Com as fronteiras fechadas e uma paragem na produção, o número das exportações, uma das bases da economia nacional, baixou consideravelmente. Vale referir que, em relação , este valor registou quebras de quase 50% e um terço, nos meses de abril e maio, respectivamente. «O impacto nas exportações é o mais revelador da situação, tendo em conta que se trata de uma indústria com uma forte vocação exportadora, vendendo para mercados externos grande parte do que produz. Os últimos dados apontam para uma quebra das exportações de 42% no mês de abril e 32% no mês de maio», menciona a ATP, que acredita «que os meses que seguirão terão comportamentos idênticos».

Com as fronteiras fechadas e uma paragem na produção, o número das exportações, uma das bases da economia nacional, baixou consideravelmente. Vale referir que «os últimos dados apontam para uma quebra das exportações de 42% no mês de abril e 32% no mês de maio», comparativamente ao mesmo período do ano passado, e «que os meses que seguirão terão comportamentos idênticos», acredita a ATP. O «impacto nas exportações é o mais revelador» do momento difícil que a indústria atravessa, dada a «forte vocação exportadora, vendendo para mercados externos grande parte do que produz».

Estes valores contrariam, tal como seria expectável, as previsões avançadas pela associação. No relatório «Portuguese Textile Indicators», publicado em junho do ano passado, era antevisto que, em todos os parâmetros analisados – desde as vendas para o mercado externo e interno ao volume de produção ou emprego na área -, se verificaria um crescimento. Contudo, tendo em conta as consequências, não só a curto, como a médio prazo, terão de ser feitos «ajustamentos face ao que tinha sido planeado ou previsto no passado, quer individualmente, quer em termos organizacionais», admite a ATP.

Passos a dar

O modo como passámos a ver o mundo e o impacto da pandemia nos hábitos de consumo são claros. Porém, a organização acredita que é preciso restabelecer a confiança dos consumidores, de forma a contornar as consequências da propagação do novo coronavírus. Para isso, «continuam a ser importantes as diversas medidas de segurança que acompanharam o desconfinamento, como, por exemplo, o uso obrigatório de máscara (preferencialmente reutilizável, a bem do ambiente) em determinados locais. É importante que as pessoas, os consumidores, os empresários, os trabalhadores, voltem às suas rotinas, mas em segurança, para evitarmos possíveis recuos no combate à pandemia», defende.

«Do lado da oferta da indústria, esta terá de continuar a ser flexível, reativa, com capacidade de resposta rápida, atributos imprescindíveis em períodos de grande incerteza e volatilidade, como o que vivemos atualmente. Existem alguns drivers de desenvolvimento que já estavam no terreno, mas que agora foram acelerados: é o caso da digitalização e da sustentabilidade, afirma a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. É igualmente «necessário valorizar ainda mais o Made in Portugal, continuar a apostar no conhecimento e na capacitação, no design e inovação tecnológica, na internacionalização, diversificando mercados e clientes, tentando uma maior proximidade ao cliente final, algo que a digitalização e o marketing poderão auxiliar».