O Estilo Gótico Está de Volta e É Uma das Tendências Desta Estação

A subcultura gótica não desapareceu. E este inverno voltou a servir inspiração para inúmeros designers. Por: Vítor Rodrigues Machado Imagens: © Imaxtree.

Na apresentação do desfile de outono/inverno 2019-20 da Commes des Garçons, em Paris, Rei Kawakubo decidiu esquecer os longos textos e floreados para explicar a coleção. Em vez disso, a designer optou apenas por usar uma simples frase para elucidar as pessoas sobre o que estava prestes a acontecer: «Muitas sombras pequenas voltam a juntar-se para criar algo poderoso.» Isto traduziu-se numa coleção, essencialmente em negro, que recorre às diferentes texturas dos tecidos (que variam da borracha e do cabedal às rendas e ao mesh) para dar provas do seu trabalho de mestre.

O Halloween é quando um designer quiser

Em Milão, a Prada gritou «Ele está vivo» ao servir-se do ‘monstruoso’ Frankenstein (e da sua noiva) como inspiração para criar uma coleção que poderia facilmente fazer parte do guarda-roupa de Wednesday Adams (bastava olhar para o cabelo das modelos que percorreram a passerelle), e na qual o utilitarismo das peças em tom escuro contrastava com a introdução de elementos decorativos como estampados e a aplicação de cores (umas mais vivas do que outras) nas peças. Já na capital inglesa (e ainda que a inspiração fosse dada pelas sufragistas), foi a vez de Sarah Burton trazer a versão mais negra do estilo romântico à sala de desfile através de peças onde o vermelho cor de sangue, o azul real e o branco puro contrastavam com o negro do cabedal e das rendas.

Não vamos dar continuidade a esta enumeração. Se podíamos? Claro. Mas não nos parece necessário. Primeiro, porque não se justifica, e segundo, porque o ponto que queremos transmitir-lhe parece-nos ter ficado bem claro. Não, não é que o preto esteja ‘na moda’, isso seria apontar o óbvio e algo que estamos fartos de saber, antes, que o gótico (e, neste caso, referimo-nos à subcultura) está de volta e, para alegria de Amy Lee (vocalista dos Evanescence), parece ter vindo para ficar. Ainda que não venha de crucifixo na mão, ou ao pescoço, esta tendência traz consigo as botas de combate, e tem vindo a lutar pela sua posição de tendência na indústria da moda há já algum tempo. A sua primeira grande posição foi marcada ainda em 2016, com o desfile de Marc Jacobs para a estação fria e, desde então, notas desta que é a subcultura mais dark de todas têm surgido em apresentações de marcas como Simone Rocha ou até mesmo a Coach. Mas porque é que, de repente, vários designers estão a virar-se cada vez mais para este estilo em busca de inspiração? Será uma questão meramente cíclica, ou existe uma razão mais profunda?

O lado negro da força

Para que possa tirar as suas próprias conclusões, vamos à raiz do problema, ou seja, à origem desta subcultura que, segundo Valerie Steele (historiadora de moda que, em 2008, lançou o livro Gothic: Dark Glamour) tem origem no final dos anos 70, início dos anos 80. Na altura, a indústria musical (e sim, a sua origem está diretamente ligada à música) era dominada pelo punk, mas o aparecimento de nomes como o eclético Iggy Pop, o andrógino David Bowie e o assombroso ritmo dos Joy Division permitiu que se abrissem portas para o aparecimento deste novo género. Musicalmente falando, a primeira grande canção gótica que se tornou um verdadeiro sucesso foi a música dos Bauhaus, Bela Lugosi’s Dead, onde se salientava uma sonoridade mais tenebrosa (basta olhar para o nome), mas a nível de estilo, foi com Siouxsie Sioux, do grupo Siouxsie and The Banshees, que o vestuário começou a tornar-se visivelmente mais obscuro.

O género musical ganhou milhares de fãs e rapidamente se tornou um fenómeno internacional. Em pouco tempo, todas as pessoas que vibravam ao som de grupos como os The Cure, The Sisters of Mercy ou Fields of the Nephilim, adotaram uma forma de vestir mais feminina e obscura (repleta de casacos longos, óculos de sol negros, maquilhagem carregada e cabelo comprido, em que o preto era a cor predominante dos pés à cabeça), que se assemelhava à que era usada pelos membros das bandas. E então, puff!, não se fez o Chocapic, mas nasceu uma subcultura.

Como seria de esperar, na altura, esta forma de vestir acabou por ser recebida com alguma estranheza por parte da população que não se rendeu ao estilo musical – afinal de contas, quem é que queria usar preto total quando podia brilhar por completo ao som de disco? Como resultado dessa falta de perceção
(chamemos-lhe assim), comparações dos elementos deste grupo com criaturas do submundo começaram a ser feitas, e a associação a vampiros era, sem sombra de dúvida, a predileta. De forma irónica – ou não – o guarda-roupa vitoriano (usado pelas personagens do livro Drácula, de Bram Stoker) acabou por ser adaptado e adotado pela comunidade gótica, que passou então a incluir nos seus #OOTD (outfit of the day) cruzes, morcegos, veludos, rendas, fitas de cetim, corpetes e vestidos compridos.

Mais recentemente, mas ainda durante os anos 90, dá-se uma transformação no aspeto visual e musical do estilo gótico por influência da dance music. Claro que muitos se mantiveram puristas, mas outros começaram a atualizar o estilo desta subcultura, introduzindo-lhe peças construídas em PVC, a utilização de cores néon, maquilhagem fluorescente e extensões de cabelo. A esta evolução atribui-se o nome de ‘cyber-goth’ por ter influências mais futuristas (algo que, para ter uma melhor noção, se assemelha um pouco ao aspeto de Milla Jovovich no filme O Quinto Elemento).

Tendência gótica

Muitas são as pessoas que continuam a ser completamente fiéis ao estilo mais característico desta subcultura (que a 22 de maio de 2009 conseguiu declarar aquele dia como sendo o Dia Mundial do Gótico), mas isso não fez com que deixasse de estar em constante evolução. Ao longo do tempo, como já dissemos, ela foi ganhando novas versões, novas nuances (tendo como exemplo, mais recentemente, o caso da cantora Billie Eilish que, por vezes, o mistura com o streetwear). No entanto, os cânones que o balizam e o definem foram sempre respeitados, tornando-o facilmente identificável, replicável e mutável.

Este será, muito provavelmente, um dos principais motivos pelos quais diversos designers continuam a (re)visitar e a trazer de volta elementos do estilo desta subcultura, misturando-os com o ADN das suas marcas ou outros elementos. Ainda assim, não podemos descurar um possível motivo (especialmente se for daquelas pessoas que, tal como nós, olha para a indústria da moda como um espelho que, à sua maneira muito própria, reflete tudo aquilo que acontece no mundo): a indústria tende a revisitar os elementos deste estilo sempre que a Humanidade atravessa um período mais conturbado. Basta olharmos para o que tem acontecido ao longo dos últimos três/quatro anos (altura em que ele começou a surgir nas passerelles) para percebermos esta relação.

Independentemente do motivo, uma coisa é certa: de agora em diante, os crucifixos deixam de ser um acessório exclusivo de padres, freiras e jogadores de futebol.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição de outubro da revista ELLE.