Marta Gonçalves: «Para mim, fazer roupa é uma arte como outra qualquer»

A designer que agora assume sozinha a Hibu fala sobre a nova estratégia da marca. Por: Margarida Brito Paes -- Imagens: ModaLisboa

O filho pródigo regressou a casa nesta edição 53ª edição da ModaLisboa, a Hibu está de volta e chegou diferente. Chegou mais consistente e madura. A marca foi fundada em 2012, venceu o Prémio do Sangue Novo, apresentou no Portugal Fashion, e depois parou. Uma pausa de três anos. Agora voltou diferente, logo para começar porque o que antes era um trio, que passou a duo, agora é um solo, composto por Marta Gonçalves.

A ELLE conversou com a designer, depois do desfile que marcou o primeiro dia da ModaLisboa, para conhecer melhor esta nova fase da Hibu, que parece ter chegado definitivamente.

hibu

Como foi regressar à ModaLisboa?

A Hibu começamos na ModaLisboa, com Sangue Novo, há sete anos atrás. Neste momento já muita coisa mudou. Agora estou só eu, mas fiz uma paragem de três anos, mais coisa, menos coisa.

Porquê?

Porque achava que precisava mesmo de parar para dar o passo à frente. Fazer desfile atrás de desfile, de seis em seis meses, é um processo muito difícil e só tinha possibilidade de desenvolver protótipos. Precisava de trabalhar mais na parte comercial e tentar perceber o que podia fazer daqui para a frente para isto começar a tornar-se mais a sério. A minha ideia inicial era nem fazer um desfile. Queria, inicialmente, fazer uma apresentação só em performance, independente. Apareceu a oportunidade de fazer a ModaLisboa e obviamente que aceitei, porque é um prazer estar aqui, onde comecei.

O que percebeste durante esse tempo em que estiveste parada quanto ao caminho que a marca deveria tomar? Vai ser o caminho tradicional ou vais ter outras opções? 

Eu quero voltar a apresentar de seis em seis meses, mas quero poder estar constantemente a produzir peças novas, e a introduzir peças novas na marca,. Quero ter website a shop online muito mais ativos. Foi tudo refeito e está online a partir de hoje (11 de outubro, sexta feira). Em breve estarão os looks desta coleção à venda. Porque algumas peças desta coleção são protótipos, mas a maior parte delas já está produzida e, portanto, eu posso a partir daqui arrancar logo para vendas, que era essa a parte que me faltava muito e que acho que é uma parte essencial para que uma marca consiga crescer.

Isso é uma estratégia que vais fazer na próxima coleção também?

Espero que sim.

Foi difícil arranjar uma fábrica para produzir a tua roupa?

Foi difícil arranjar uma fábrica. O nome ‘Cruel’ vem disso tudo. Cru-L, quer dizer cruel e no bom sentido da palavra foi um bocado o feeling

Qual é o bom sentido dessa palavra?

O bom sentido é o cru. E cru foi o nome da nossa primeira coleção. Isto revive um bocado toda essa fase inicial, porque é um recomeçar da marca. Agora o L veio acrescentar a parte um bocadinho mais complicada desta fase toda, que também há, obviamente, e acho que toda a gente tem essa noção. Porque é um processo complicado, mas que, no fim, vale a pena, obviamente.

É em complicado em termos de trabalho ou é complicado arranjar quem produza, vender em Portugal, etc.?

É complicado para quem não tem como investir em grandes quantidades, é complicado encontrar fábricas que façam pequenas quantidades, é complicado para mim tratar de todos esses assuntos estando longe. Ligeiramente longe, podemos dizer, porque as fábricas estão no norte, eu fiz este processo todo com uma fábrica no norte. E é um processo complicado porque para que as coisas estejam exatamente como tu queres é difícil. Mas é uma aprendizagem para mim, sempre foi desde o início. Estou sempre a dizer, nós não estudamos isto na escola, isto é tipo aprender com os erros e aprender com a experiência. Continua a ser assim. Isto é uma fase nova porque foi pela primeira vez que produzi em fábrica e que fiquei a conhecer todo este processo.

Achas que tem viabilidade para continuar?

Sim, acho que sim. Acho que estava a precisar mesmo disto. Era mesmo disto que precisava para dar o passo à frente.

Nas próximas coleções vais manter a estratégia see now buy now?

Espero que sim, talvez não todas, mas uma boa parte das peças, apresentadas em desfile, gostaria de já ter uma produção feita anteriormente.

Isso implica que desenhes um bocadinho sem estação, não é?

Exatamente. Estaria a introduzir sempre peças, mas de acordo com a estação que está a acontecer agora. Vemos sempre isto: estamos a apresentar verão 2020. Mas é um bocadinho ingrato para nós porque precisamos de ter o retorno imediato e portanto acho que o que está a acontecer no mundo da moda no geral é apresentar coleções sem estação. Produzi peças que se podem usar no verão, no inverno, meia estação, depois tenho umas mais quentes. Tenho um casaco, por exemplo, com o pormenor das mangas saírem que se pode transformar num casaco de manga curta. Portanto, esta brincadeira de podermos usar as peças de formas diferentes e que também é um ponto importante para mim.

Qual é a grande diferença de desenhares uma coleção com alguém, como desenhaste numa primeira fase, e desenhares sozinha?

A diferença não está no desenhar, porque nós, por acaso, tínhamos gostos muito parecidos e aquilo fluía muito naturalmente. Era tipo juntar forças e ideias para surgir a peça final e isso corria super facilmente. É mais a distribuição de tarefas que obviamente eu adoro trabalhar com outras pessoas, em grupos, ouvir novas opiniões, novas ideias, e neste momento estar – obviamente que tenho sempre a ajuda de muito amigos meus de diferentes áreas, aliás, acho que esta nova Hibu vai trazer um bocadinho isso, ser uma marca multidisciplinar e juntar vários criativos, fazer colaborações com outras pessoas.

Nesta tiveste a colaboração com alguém?

Nesta, tive colaborações principalmente com os performers e com montes de pessoas a darem ideias em como a performance podia acontecer, se bem que no fim teve de acontecer um bocadinho diferente do que estava à espera porque a sala era muito retangular e era uma passerelle. Portanto, a minha inicial de só fazer performance teve de ser um bocadinho alterada para poder existir o caminhar e para que todas as pessoas conseguissem ver tudo o que estava a acontecer. Mas não houve uma colaboração concreta, mas sem dúvida que quero fazer isso daqui para a frente porque acho que só tenho a ganhar com isso. A roupa em si não é a moda. Para mim, fazer roupa é uma arte como outra qualquer. Mas eu quero mostrar mais esse lado de a roupa como arte, sem ser uma peça completamente conceptual, mas sim vestível.

O Gonçalo e o Nuno, que iniciaram a marca contigo, continuam a apoiar-te?

Sim, completamente. Seguiram outros caminhos, mas sim, eles continuam a apoiar-me e, sem dúvida. Preciso sempre de recorrer a eles para haver trocas de ideias e de opiniões.

Já tens alguma ideia do que queres fazer para a próxima estação?

Como esta foi uma coleção de básicos, o que eu intenciono, não em todas as peças mas em algumas, é recriar algumas peças talvez com tecidos diferentes, materiais diferentes. Isso é um objetivo que tenho daqui para a frente. Portanto posso agarrar em alguns dos básicos e fazer uma parceria com um outro artista. Possa fazer talvez um print para as t-shirts e para as sweatshirts e fazer uma coleção cápsula só com esse tipo de ideias.

Qual é o preço médio das peças?

Temos umas t-shirts que são mais baratas, mas posso dizer que vai entre os €800 e os €300.

E já tens pontos de venda?

Quero experimentar fazer uma venda maioritariamente online. Já tenho algumas pessoas interessadas em vender em lojas físicas, se bem que tem de ser um processo em que eu vou percebendo aos poucos o que resulta melhor.