Constança Entrudo: «Não quero que o mesmo cliente me compre milhares de peças»

A criadora conversou com a ELLE sobre futuro, sustentabilidade e representatividade na moda nacional. Por: Inês Aparício -- Imagens: © ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

Constança Entrudo tem uma ideia muito descomplicada, quase poética, da moda e do Mundo. E, por isso mesmo, acredita que, mais do que conseguir vender o que cria, é necessário que os consumidores pensem conscientemente antes de comprar qualquer peça, tal como fariam ao atravessar uma passadeira. O ambiente agradece.

No final da apresentação da coleção, integrada no último dia do calendário da ModaLisboa, no domingo, 13 de outubro, falou com a ELLE sobre futuro, sustentabilidade e representatividade na moda, em Portugal.

Constança Entrudo

A coleção chama-se All that is solid melts into air. Esta é uma ode à fragilidade? Das pessoas, dos materiais?

Sim, à fragilidade, ainda que não acredite muito na fragilidade, na verdade. Acho que é a fragilidade que nos faz fortes. A ideia é mais que tudo o que nós vivemos, tudo o que somos, tudo o que usamos, todas as ideias que temos, se desmancham para voltarem a existir. Portanto, nós temos de ser free (em português, livres), no fundo. Era mais essa a mensagem da coleção, mais do que sermos frágeis ou assumirmos que somos frágeis. Não, nós somos fortes, porque somos free.

Mas existe também uma componente mais futurística nesta coleção.

Sim, sempre tendo o passado em conta. A minha marca não tem espaço, não tem nacionalidade, não tem género, portanto, isso está no futuro. E nós sabemos porque estamos a viver esses tempos e estamos a caminhar para esse futuro, por isso pensei nesta coleção só a olhar para o futuro e esquecer o passado. Claro que ele está em mim, porque as técnicas de tecelagem, etc, que desconstruo vêm do passado. No entanto, olhei para ela sempre a olhar para o futuro, [pensando] de que maneira é que eu, hoje, posso afetar o amanhã.

Como vai ser a tua marca no futuro?

Espero que continue a crescer, como cresceu este ano. Começou há um ano. Espero que se mantenha coerente, coesa, que consiga transmitir a minha imagem. Quero crescer de forma sustentável, acima de tudo.

E como pensas que se vai desenvolver a moda, como será esta no futuro?

Acho que o futuro da moda é o futuro do mundo, no geral. Está a ir num bom caminho. No entanto, ainda há muito trabalho a ser feito. Penso que o futuro da moda vai ser um futuro muito mais consciente, muito mais sustentável, muito mais pessoal, pessoalizado. No entanto, o que sinto, enquanto designer, todos os dias quando acordo é que tenho uma função, uma função social. E acho que o que vestimos é o primeiro impacto que temos e que, através do que vestimos, podemos transmitir a mensagem que o mundo precisa. Portanto, acho que a moda está a ir no caminho certo, mas ainda há muito trabalho a fazer, ainda há muitas mentalidades para mudar.

 

 

«Gostava de ter mais criatividade à minha volta, porque sinto essa necessidade, é uma sede que tenho e que sinto falta em Portugal

 

 

Esse caminho será também no âmbito da sustentabilidade.

Sempre. Não temos alternativa.

Por isso é que dizes para comprarmos menos?

Sim.

 Estás a dizer às pessoas para comprarem menos, mas ao mesmo tempo queres que as pessoas comprem as tuas peças. Não é um pouco contraditório?

Não, não é de todo contraditório, porque temos de nos vestir, todos os dias, e não quero que o mesmo cliente me compre milhares de peças. Não tenho esse intuito. Muitas vezes, até, os clientes dizem ‘não, eu quero comprar, Constança’ e eu digo ‘não, espere, pense. Quer mesmo? Gosta mesmo?’ e por isso é que digo que quero crescer de forma sustentável, não quero crescer só a pensar em dinheiro, não é esse o meu intuito. Claro que a marca é comercializável, mas não é essa a ideia que quero transmitir. E penso que não é contraditório, no meu caso, porque a maioria das peças nunca demoram menos de um dia a fazer. Todo o trabalho tem de ser valorizado de certa maneira, portanto as pessoas que compram têm essa consciência. E, a partir do momento em que os preços são mais elevados, obviamente que estamos também a pedir às pessoas para comprar menos.

Constança Entrudo

No teu desfile, surgiram algumas mulheres que não encaixam no que é considerado o típico molde de modelos. Pensas que a inclusividade poderá ser conseguida a nível nacional?

Hoje em dia, nas redes sociais, em tudo, vemos que a diversidade, a variedade, está na moda até, e ainda bem. Acho mesmo que estamos a caminhar para um ‘free yourself’ e ‘be yourself’.

E na moda, em Portugal. Consideras que será algo que iremos conseguir atingir?

Acho que nós, portugueses, ainda temos um caminho longo para fazer, mas estamos a mudar imenso. Eu, por exemplo, mudei-me para Portugal há um ano, tive seis anos fora, e [noto que] os portugueses estão diferentes, a moda portuguesa está diferente. Pedia mais criatividade. Gostava de ter mais criatividade à minha volta, porque sinto essa necessidade, é uma sede que tenho e que sinto falta em Portugal. No entanto, acho mesmo que estamos a caminhar para o sítio certo. O conceito de beleza está a mudar. As pessoas já não pensam da mesma maneira.

Mas é difícil escolher modelos que não estejam nos típicos moldes de modelos para estas semanas de moda, como a ModaLisboa ou o Portugal Fashion?

Não. Quer dizer, se é, não sei. Nem quero saber. Porque eu gosto deles, eles vestem as minhas peças e estou contente [com isso]. Por exemplo, o Mikky Blanco estava em Lisboa, ele apreciava muito o meu trabalho, eu adoro o trabalho dele, sou fã número um, adoro a mensagem que ele passa. Não tinha nada para ele, mas tentei fazer o meu melhor para termos uma peça que desse. Quero é que as pessoas usem. Fico contente não por haver um influencer a usar uma peça minha. Isso, sinceramente, gosto, claro que aprecio, mas não é o que mais gosto. Gosto é de ver pessoas. Portanto, para mim, não penso no corpo, se assenta bem, se não assenta. Desde pequena que sou assim. Visto umas calças do meu pai e não estou a pensar se assenta bem. Eu valorizo a peça, como arte.

Como os castings para as modelos são feitos mais próximos da data dos desfiles, é mais complicado para vocês desenvolverem peças para tipos de corpos diferentes, uma vez que, depois, ao chegar à altura, teriam de adaptá-las aos modelos?

Eu não trabalho assim. Eu penso numa peça. Para mim uma peça é como um artista fazer uma escultura ou uma pintura ou uma fotografia ou uma instalação. Não penso se a peça vai assentar bem. Penso numa pessoa que tenha caráter. Eu peço aos modelos para virem ao estúdio e, se gostarem, usam. Não penso, ‘não, não fica bem neste’. Não tenho essa visão. Tanto que vocês veem, claramente já outras pessoas escreveram, inclusive a Elle, sobre o fit das minhas peças e isso, para mim, não interessa. O que interessa é que as pessoas se sintam bem. Eu sinto-me feliz por saber que os modelos vêm ter comigo. Pessoas que conheci na rua, pessoas que me mandam referências de artistas no Instagram. Por exemplo, uma das modelos, que eu adoro, a Carolina, que é uma pessoa que me costumava mandar umas referências a dizer ‘Olá, Constança, esta artista lembrou-me do teu trabalho’ e achei tão interessante como ela associou que quis chamá-la para o meu desfile. Não sabia como era o corpo dela. Ela apareceu há dois dias e achei que estava ótimo. Temos a Inês, que é muito mais performativa, que só posta fotografias nuas na internet e que é uma feminista autêntica, e eu gosto dela. Não sei se lhe ficava bem ou não, mas para mim estava ótimo. Portanto, esse conceito de ficar bem ou não, não acredito em nada disso, mesmo. E não olho à minha volta e não penso, ‘isto não fica bem à pessoa’. Gostava é que as pessoas se vestissem todas de forma muito mais criativa e inspirassem mais o dia a dia dos outros. Mal ou bem, que usem.