Feminismo, Política e Esperança nos Discursos dos Globos de Ouro 2019

Maria do Céu Guerra dedicou o Globo a Fernanda Montenegro e Conceição Lino teceu duras críticas ao jornalismo. Imagens: Instagram.

A primeira a subir ao palco para receber um Globo de Ouro, na noite de 29 de setembro, foi a atriz Isabel Ruth, na categoria de melhor atriz de cinema, mas muitas se seguiram a ela. Os discursos mais fortes da noite foram feitos por mulheres e escreveram-se de camaradagem feminina e apelos políticos.

A importância da Liberdade falada nos Globos de Ouro 

Maria do Céu Guerra, que recebeu o Prémio Mérito e Excelência, deixou palavras que fizeram a plateia levantar-se para aplaudir. «Muito obrigada ao nosso país, que me deixou fazer uma carreira que me permite ter este prémio. Embora nós sintamos sempre que há qualquer coisa que nos impede de ir mais longe, mas isso é normal… somos artistas», começou por dizer a atriz de 76 anos.

«Eu penso no início da minha vida e penso o quanto ela era mais pobre por dentro, o quanto éramos todos mais pobres e quanto estes 45 anos que vivemos sem censura nos permitiram crescer, nos permitiram ter opinião, ser grandes. Termos deixado de ter censura foi o prémio maior e mais irreversível que este país ganhou. Portanto, somos há 45 anos um país livre» continuou, pondo toda a plateia de pé.

Depois, chegou o momento de lembrar Fernanda Montenegro. «Neste momento tão importante para mim, que está a ser muito importante, tenho de me lembrar da minha querida amiga Fernanda Montenegro, que está no Brasil em dificuldades e a ser insultada por um Governo que não merece aquele país. Eu queria que estas palmas que me estão a dar fossem repartidas e devolvidas à Fernanda Montenegro por tudo aquilo que ela já nos deu».

A atriz brasileira, de 89 anos, tem sido uma dura crítica às políticas culturais do Governo de Bolsonaro e, por isso, tem estado envolvida em várias polémicas. A última está relacionada com a capa da revista Quatro cinco um, onde aparece vestida de bruxa, amarrada, e pronta para ser queimada em cima de uma fogueira de livros.

A voz de Luísa Cruz por quem não tem voz

O Prémio de Melhor Atriz de Teatro foi para Luísa Cruz, com o monólogo A Criada Zerlina. A atriz dedicou o Globo de Ouro a «todas as pessoas que no nosso planeta não têm voz. Não são ouvidas, não sabem ter voz por ignorância ou por outro fator. São muitas as mulheres que não têm voz… homens, crianças. Dedico este meu Globo à voz dessas pessoas».

Um apelo pela sobrevivência do jornalismo

Conceição Lino foi a jornalista que ganhou o Prémio de Personalidade do Ano na categoria Jornalismo. O discurso de agradecimento da cara da SIC foi duro, mas inspirador.

«Já foram aqui referidos por estes maravilhosos apresentadores os tempos conturbados em que vivemos, mas eu gostava de deixar aqui umas palavras. Umas palavras para aqueles que têm a tentação e a tendência de querer controlar, manipular e descredibilizar os jornalistas. Não se iludam, porque um bom jornalista consegue sempre arranjar caminho para fazer o seu trabalho», sublinhou Conceição Lino.

«Depois também queria deixar uma nota para todos os que podem achar que tanto faz ser informado por jornalistas, como por qualquer outra coisa que lhe caia no WhatsApp ou em qualquer outra rede social. Gostava que procurassem melhor, que vissem melhor, que lessem melhor, que se informem. Porque é assim que todos nós conseguimos ser cidadãos de primeira, cidadãos não facilmente manipuláveis, cidadãos que são capazes de ter nas suas mãos o poder de decisão», adicionou.

«Por último, queria (…) dar uma palavra aos meus colegas jornalistas, a todos eles. Tenham respeito pela vossa profissão, tenham respeito por vocês próprios, questionem-se sobre o tipo de jornalista que querem ser. Ser jornalista é trabalhar para o bem comum, não é para servir interesses individuais, pessoais, de um grupo económico, de um partido, de uma seita, seja lá o que for. Portanto, façam sempre as perguntas e não desistam de obter as respostas», completou.

Três discursos que marcaram uma noite que não se fez apenas de vestidos bonitos na passadeira vermelha.