Diários de Quarentena: Os Testemunhos da Redação da ELLE Portugal

Estamos todos no mesmo barco. Por: ELLE Portugal Imagens: D.R

 

Sandra Gato, diretora

 

«Não há UM testemunho da quarentena. Porque a quarentena são muitos dias que parecem semanas, muitos estados de espírito, muitas alterações de humor. O que eu senti ontem não é o mesmo que hoje e amanhã não faço ideia. Por isso os relatos pessoais da quarentena serão tantos quantos os moods humanos inerentes a um período de isolamento. Conclusão possível no segundo período do estado de emergência: pandemia = pandemónio emocional.

Seja qual for o disposição, a conclusão a que chego no final de todos estes dias vazios e iguais é: isto é mesmo mau (e desculpem os adeptos do “temos sempre de ver o lado positivo das coisas” e “tudo tem uma razão de ser”). Primeiro pelo motivo que conduziu à quarentena: uma crise sanitária sem precedentes e que nenhuma de nós alguma vez imaginou viver. Isso, só por si, seria motivo mais que suficiente para ser impossível encarar tudo isto de ânimo leve. Talvez por deformação profissional, desligar a televisão e ignorar as notícias não é alternativa para mim, por isso há que enfrentar a avalanche diária de números e comentários sobre a pandemia. E dói, dói sempre.

Acrescente-se a isso a certeza que um país parado agora é certeza de um futuro coletivo instável (para ser suave). Não há como maquilhar a realidade. Penso que todas concordamos que nada vai ser igual quando voltarmos aos nossos trabalhos, às nossos afazeres, às nossas vidas. Porque o tal tsunami económico que já se está formar não é metáfora nem exagero e vai atingir todos. E embora eu entenda a necessidade do #vaificartudobem como técnica de sobrevivência não a subscrevo. Acredito, sim, que vai tudo ficar melhor. Para alguns. Em breve, esperemos. Quando se ouvem as previsões da taxa de desemprego, do número de pessoas que já estão a precisar de ajuda para comer e das maleitas mentais que são já consequência de tudo isto, percebemos que não ficar tudo bem. Não para todos.

É a constatação de tudo isso e a incerteza de quando acabará que torna a quarentena terrível. Se estou a cozinhar mais e a aproveitar para arrumar a casa? Sim, chama-se tentativa de manutenção da sanidade mental. Se uma pausa é propícia a restruturar ideias e ambições? Sem dúvida. Mas confesso que me incomoda o egoísmo inconsequente de quem diz “isto até é bom. Tenho tempo para passear o cão/ estar com os filhos/ ler livros”. Não há nada de bom nisto. Porque: 1. Essas ações acima indicadas devem ser escolhas, não algo que se faz porque não se pode fazer mais nada. 2. Porque ter a liberdade posta em causa – mesmo que seja por motivos de força maior – é assustador. 3. Porque não há nada que compense ter medo todos os dias.

Gosto de estar em casa. Gosto de passar tempo com as minhas pessoas. Adoro a minha própria companhia e opto algumas vezes por me auto-isolar. Mas isso são escolhas. Quando o tenho de fazer porque estão vidas em causa estamos num outro patamar. É responsabilidade social mas é também impotência, a sensação incrivelmente estranha de estar a ter um pesadelo, a assistir ao desmoronar do castelo no conforto do meu sofá e não poder mexer um dedo para o tentar impedir.

De todas as minhas considerações sobre a quarentena, este é o meu pensamento mais recorrente. Hoje não tem arco-íris. Pode ser que ele surja amanhã. Logo vos direi.»

 

 

Manuela Mendes, diretora de arte

 

«Iniciei a quarentena a 18 de março, quarta-feira, num processo irreal e de difícil adaptação!

Nesse mesmo dia percebi que para além do teletrabalho me pôr diariamente à beira de um ataque de nervos, as horas que passava sentada em frente ao computador, estavam a atrofiar-me os neurónios e as articulações. Então comecei, todos , os finais do dia a ir fazer umas caminhadas à Cidade Universitária. Sol de pouca dura, pois no domingo seguinte, a Polícia tinha fechado o espaço. Sem me render ao sucedido, até porque durante esses três, quatro dias, comecei a ganhar o gosto pela corrida, passei a fazer caminhada/corrida pela cidade, umas vezes ao fim da tarde, outras vezes à noite. E é assim que tento manter alguma sanidade. A cidade está vazia, consegui ver a Av. Da Liberdade sem carros.

É uma visão distinta da cidade da que estamos habituados, mas maravilhosa, como sempre! Um destes dias, descobri um edifício extraordinário, que inúmeras vezes passei por perto e nunca tinha olhado tão atentamente, o Palácio da Justiça com os seus maravilhosos painéis de Querubim Lapa, o Mestre Ceramista, mais importante dos últimos tempos, que nos deixou um espólio incrível e que fez parar a minha corrida em dias de quarentena.

E é assim que consigo ver a maldita, tentando olha-la pelo o seu melhor prisma, um caleidoscópio que conseguiu pelo menos enriquecer um pouco a minha cultura. Continuo aqui à espera do melhor dela!».

 

 

Carolina Adães Pereira, editora de beleza

 

«Estou há 20 dias sem sair de casa. Literalmente. Desde o dia 18 de março que não saio dos portões de casa dos meus pais, em Santo Tirso. A minha vinda para o Norte foi muito ponderada. Poucos dias antes do Presidente da República declarar estado de emergência, na ELLE já estávamos a preparar tudo para iniciar a nossa jornada de teletrabalho. Já há cinco anos que não trabalhava neste regime e não tinha boas memórias desse método, confesso, mas tenho que concordar que está a ser um processo curioso.

Agora que reflito, foi por essa altura, em 2015, a última vez que passei mais de sete dias seguidos em casa dos meus pais… O exato local do qual não saí desde que comecei a minha quarentena. Reconheço que foi uma decisão arriscada vir para aqui e para alguns polémica, até. As indicações que tínhamos (e ainda temos) é de que devemos ficar na nossa residência e evitar pormos pessoas em risco com deslocações desnecessárias. Mas na segunda feira, dia 17, enquanto fechávamos a revista, recebo uma chamada do meu pai a dizer-me para preparar a minha mala, que no dia seguinte estava em Lisboa para me levar para casa. Nunca me senti tão aliviada em toda a minha vida por o meu pai não me dar ouvidos. E por não passar por este momento sozinha. Independentemente de ter viajado no banco de trás do carro com máscara e luvas colocadas por causa daquela tosse que persiste desde dezembro (que desapareceu depois de dois dias a comer a sopa da minha mãe) e de ter ficado duas semanas num andar diferente do resto da família. Nunca me senti tão feliz por estar com as minhas pessoas, e ter a certeza que estou perto o suficiente para trancar o meu pai no quarto, quando ele diz que tem que sair porque se esqueceu de trazer aquele pão que o meu irmão gosta de comer a meio da manhã. Estou a brincar… ou não.

Tenho visto muita a gente a aproveitar este momento para refletir sobre o mundo e sobre as suas próprias vidas. Gostava de partilhar convosco algumas das minhas conquistas. Primeiro, a gestão de tempo: teletrabalho pode ser desafiante e é preciso foco e método para não nos distrairmos com tudo e mais alguma coisa. Não sei porquê, mas sinto que estou muito mais produtiva agora do que tenho estado nos últimos tempos. Segundo, voltar a viver em casa dos meus pais: mesmo que temporário, saí desta casa com 20 anos e estou habituada às minhas rotinas e ao meu espaço, mas acreditam que estou a divertir-me imenso? Mesmo quando discutimos sobre qual o verdadeiro significado de sair apenas para o básico. Terceiro, usar roupa a sério: esta tem sido de altos e baixos, mas depois de dois dias tremidos, já voltei a caprichar… Na parte de cima, pelo menos. Mas há um batom vermelho e há uma camisola de leopardo até, enquanto se experimenta máscaras de mãos. Ainda não estou preparada para me separar das leggings, mas como no Zoom só se vê a parte de cima, amiga não julga.»

 

 

Margarida Brito Paes, editora online

 

«Estou a 180 km de minha casa e essa foi decisão mais difícil desta quarentena.

A sexta feira anterior à declaração do Estado de Emergência foi a última vez que fui à redação, era dia 13 de março. Os dias seguintes foram passados, sozinha em Lisboa, numa quarentena voluntária muito rígida, que me fazia sentir mal só por dar a volta ao quarteirão. Por esses primeiros dias os números começaram a subir vertiginosamente. Tornou-se muito claro que o Estado de Emergência seria decretado em poucos dias, e que nos iriam fechar as portas de casa pelo menos por um mês. Então a decisão impôs-se: ficar em Lisboa, sozinha, na minha casa de 40m2 ou ir para o Alentejo, voltar a viver com a minha mãe, mas ter espaço exterior para andar à vontade sem quebrar o isolamento. Dia 18 de março, carreguei uma mala enorme para dentro do carro, e fiz-me à estrada (compreendo agora, ao olhar para a roupa que trouxe, quão pesada foi a decisão, é que o que tenho para vestir é quase tudo preto, algo muito estranho para mim). Fechar a porta de casa sem ter data de regresso, custou muito, mas bastou chegar para perceber que foi a decisão certa.

Aqui os dias passam a outro ritmo. Quando o coração acelera basta sair de casa e caminhar com os cães, apanhar um pouco de sol, sem vírus por perto, e volta tudo a acalmar. Deixei de ver notícias compulsivamente, e de esperar pelos números pregada à televisão, há duas semanas. Por isso, os níveis de ansiedade baixaram muito. Mas não há bela sem senão, e o calcanhar de Aquiles deste lugar é a falta de internet. Um problema que me obriga a começar a trabalhar todos os dias antes das 8h da manhã, porque a partir das 16h é mesmo difícil trabalhar no backoffice. Uma reinvenção que, na verdade, até me está a custar menos do que pensava. Acho que esta quarentena também tem isso de aguçar a capacidade de adaptação, que nos caracteriza enquanto Humanos, e que tantas vezes esquecemos, enchendo o dia a dia de pequenos impossíveis.

Esta falta de rede, obriga-me também a um isolamento social real, sem zoom, house party ou ginástica em grupo. Um isolamento que também é físico, no outro dia fui à farmácia comprar compridos para a minha mãe e só na quarta paragem consegui o que precisava, um processo que levou três horas. Para ir ao supermercado tenho de andar 50km e no outro dia vi-me obrigada a ir comprar um cabo de rede, para conseguir trabalhar, e entre ir e voltar foram quase 120km. Distâncias que não me incomodam, porque quando chego a casa não me sinto presa numa gaiola. Agora, tenho a certeza de que todos nascemos para ser livres. A liberdade nunca foi tão urgente.

Do que tenho mais saudades? De dançar até ser dia, de me rir com os amigos numa esplanada, de beber café na rua, de atravessar o bairro com uma garrafa de vinho na mão, sem luvas claro, para ir jantar em casa daquelas amigas/vizinhas que são família.

O que me dá mais medo? Saber que depois disto nada vai ser como antes, vamos estar todos diferentes, mas, sobretudo, saber que o país também vai mudar, e provavelmente não será para melhor. Vivemos hoje um compasso de espera que nos obriga a viver um dia de cada vez, e devemos aproveitá-lo ao máximo, porque do amanhã ninguém sabe o que esperar».

 

 

Maria Rodrigues, assistente de direção

 

«E de repente a nossa vida mudou, tudo o que dávamos por garantido acabou, a nossa liberdade desapareceu por causa de um inimigo invisível… E agora?

Não podemos estar com os nossos pais, irmãos, amigos e não há previsão de que isso possa acontecer tão cedo. Valem-nos as novas tecnologias que nos permitem ver por vídeo chamada, mas não é a mesma coisa…

Nos primeiros dias de quarentena arranjar a sala e os computadores foi a prioridade para que pudéssemos adaptarmo-nos ao teletrabalho e à telescola.  Não foi fácil, nada funcionava a 100%, e os nervos e a ansiedade a crescerem. Gerir e dividir as tarefas de casa, foi outro dos deveres instituídos cá em casa, o que, por vezes, não é muito fácil quando temos jovens adolescentes. O lado positivo é que aos fins de semana jogamos jogos de tabuleiro, fazemos bolos ou panquecas, levantamos o volume da música e dançamos até ficarmos cansados.

Uma simples saída para ir à padaria ou ao supermercado requer um pormenorizado planeamento e toda uma nova logística. Como já passaram 3 semanas e agora são as férias da Páscoa, temos as nossas rotinas mais ou menos definidas, os adultos em teletrabalho, os mais novos durante amanhã arrumam os seus quartos e leem um livro, para à tarde poderem jogarem com os amigos online ou irem para o pátio jogar basquete, ou andar de skate. Depois do jantar escolhemos um filme que dê para todos. Às vezes também dá para fazer umas arrumações, aquelas que foram sendo adiadas e para as quais nunca se tinha tempo.

É um aprender a viver de novo e a superar algumas dificuldades que nos vão surgindo. Fácil não é, mas tenho esperança que quando tudo estiver ultrapassado toda esta vivência nos torne melhores pessoas.»