Designers Portugueses Criam Coleções de Máscaras Sociais

Será este o futuro da Moda portuguesa a curto prazo? Por: Margarida Brito Paes Imagens: D.R., Instagram @martahibu e Instagram @atelierfilipefaisca

No dia 28 de fevereiro, armei-me de máscara e gel desinfetante para entrar num avião de regresso a Lisboa, depois da semana de moda de Paris. Sentada no interior do avião, experimentei o filtro criado pela ModaLisboa para celebrar a edição AWAKE – o filtro selecionava que desfile do calendário mais tinha a ver connosco, depois de correrem vários nomes -, calhando-me o nome de Luís Buchinho. Na altura, perante a minha fotografia de máscara e o nome Luís Buchinho em cima da cabeça, publiquei o story, em tom de brincadeira, sugerindo ao designer que devia pensar naquele acessório para o desfile. Não aconteceu na altura, mas está a acontecer agora com Luís Buchinho e vários designers portugueses a criarem máscaras.

Máscaras na passerelle será o futuro?

Quem ponderou utilizar máscaras no desfile foi Luís Carvalho, que acabou por não avançar com a ideia «porque não queria que fosse mal interpretado. Tive medo que fosse visto como uma provocação ou que me estava a aproveitar da situação», como contou à ELLE.pt. No entanto, esta é uma hipótese que não descarta no futuro. «Acho que podemos adaptar as máscaras às coleções e pode ser um acessório a manter», confessa o designer, que acaba de lançar a sua primeira coleção de máscaras sociais, feitas dos mesmo materiais que foram utilizados em várias coleções. Estas são apresentadas, no site, coordenadas com roupa feita no mesmo material.

Também Luís Buchinho mostrou vontade de repescar as viseiras que criou, em 2015, para desfile e adaptá-las a estes novos tempos, como nos contou no programa de entrevistas Portugal Fashion Goes Home With ELLE. Quem não se imagina a desfilar máscaras ou viseiras é Marta Gonçalves, da HIBU. A designer também está a comercializar máscaras, que deverão chegar em breve ao site da HIBU, mas garante que não imagina coordenar a sua roupa com este acessório de proteção. Apesar de admitir que as máscaras podem ser um produto de entrada na marca, já que «esta foi o primeira peça que fiz que teve tanta saída», a designer não se imagina a usá-las numa coleção. «Não consigo imaginar. Para mim, as máscaras são um objeto, não um acessório. Sempre quis desenvolver projetos paralelos à coleção de roupa, como sabonetes, velas e outros objetos. É nesse enquadramento que vejo as máscaras e não como parte integrante de uma coleção de roupa», explica Marta Gonçalves à ELLE.pt.

As máscaras com assinatura de autor

Apesar destas hipóteses, ainda é cedo para prever o futuro. O que é certo é que as máscaras são uma necessidade para a vida que conhecemos hoje e foi para dar resposta à procura que Susana Bettencourt, Luís Buchinho, Marta Gonçalves, Luís Carvalho, Gio Rodrigues e Filipe Faísca criaram linhas de máscaras.

O começo foi comum para muitos dos designers: uma necessidade pessoal. «A ideia surgiu de uma necessidade, comecei a fazer para mim, já que tinha aqui tecidos e depois comecei a mandar fotografias para a família e amigos. Começou a ter uma grande recetividade e as pessoas começaram a pedir para colocar à venda online», conta Susana Bettencourt. Também Luís Carvalho começou a produzir para si, «até que começaram a pedir muito para eu fazer mais e acabei por colocar à venda online», conta o designer.

Um princípio semelhante ao de Marta Gonçalves que, depois de produzir máscaras para si, foi alertada, por uns amigos que viviam num país já em fase de desconfinamento, que era provável que o uso generalizado de máscara também fosse adotado em Portugal. Então, depois de muito ponderar – «porque não queria que as pessoas achassem que me estava a aproveitar da situação», como explicou à ELLE.pt -, Marta começou a vender as máscaras através do seu Instagram pessoal.

Para Luís Buchinho «a ideia surgiu da necessidade, que é de onde surgem sempre as melhores ideias». «Este é um produto com uma procura enorme. Começou por haver uma procura de máscaras de uso meramente de proteção, com a parte estética posta de parte. O que a nossa máscara propõe é algo mais próximo do que é a linguagem da marca», conta o designer. As máscaras com assinatura Buchinho correspondem à estética da marca com misturas de materiais, algum geometrismo e os materiais usados são os da coleção de primavera-verão 2020. Estando assim completamente em linha com a coleção que o designer tem agora na loja.

Uma visão partilhada por Gio Rodrigues, que começou por lançar uma coleção de máscaras para homem e que, agora, também já desenvolveu coleções para mulher e criança. «Apercebi-me que havia um público, que não os hospitais, que sentia necessidade de usar uma máscara nos contactos exteriores, mas não queria usar máscaras cirúrgicas, até porque são difíceis de conseguir e devem ser deixadas para quem precisa realmente delas. Então peguei nos tecidos que tinha para confeção de gravatas, que são poliéster, e pensei em fazer umas máscaras sociais», contou o designer à ELLE.pt, na altura em lançou a primeira linha de máscaras, em abril.

Máscaras de uso social reutilizáveis

Todas a máscaras de que aqui falamos, e que estão na galeria, em cima, têm em comum o facto de serem reutilizáveis. E todas, à exceção das de Gio Rodrigues, têm no seu interior um espaço para colocar um filtro e de serem reutilizáveis. Estão em processo de certificação, as máscaras desenvolvidas por Gio Rodrigues, Marta Gonçalves e Luís Carvalho. As outras máscaras não são certificadas pelo CITEVE, apesar de terem espaço para a colocação de filtros de indicados para a proteção adequada.

«Tenho sempre o cuidado de fazer a salvaguarda de que não são máscaras certificadas, mas estou a fazer as coisas com todas as indicações que são dadas. As máscaras são entreteladas na parte da frente para dar alguma impermeabilização. Na parte de dentro, tentamos ter um tecido que seja mais absorvente. O tecido fechado que seja poliamida, poliéster com alguma impermeabilidade do lado de fora e uma parte absorvente do lado de dentro protege as pessoas. Não tenho os testes de certificação para saber quantas lavagens aguenta, mas penso que até dez aguenta. As máscaras são acompanhadas com um papel que explica como deve a máscara ser usada. Enviamos sempre a máscara com cinco filtros que devem ser postos dentro das máscaras, que devem ser substituídos a cada utilização», esclarece Susana Bettencourt.

A lavagem entre cada utilização é fundamental para que estas ou outras máscaras reutilizáveis sejam seguras. Mesmo no caso das máscaras com a estética HIBU, que são reversíveis, tendo tecidos diferentes na parte de dentro e na parte de fora.

Também Luís Buchinho reforça a importância da lavagem e da mudança de filtro a cada utilização: «Esta não é uma máscara certificada, é uma máscara de uso social, embora permita as lavagens que forem precisas, porque os materiais são resistentes, e tenha um depósito para filtros que devem ser mudados regularmente».

Máscaras solidárias

Algumas destas máscaras são ainda solidárias. «Desde do início que soube que queria doar uma parte do dinheiro. No início, achei que isto ia durar só uma semana ou duas e, então, a ideia era doar parte do dinheiro desse tempo a uma instituição, que queria que fosse de apoio aos sem abrigos, por isso acabei por escolher a Associação Casa», conta Marta Gonçalves. Mas o que seria um projeto de quarentena de apenas alguns dias, cresceu, tendo já uma fábrica a produzir máscaras. Com o crescimento da produção também cresceram as doações. O processo é simples: a cada semana, Marta doa 25% do lucro a uma instituição diferente. Por esta altura, já contribui para: a Casa, a Cantina Social do Regueirão dos Anjos e os Médicos do Mundo. Esta semana, a doação é para a associação Transmissão.

 

 

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Thank you to everyone that ordered last week🤍 it has been getting harder to keep up, thank you for your patience. The masks will be ready to be delivered on Monday. With this weeks sales we will be able to donate to TransMissão, a Portuguese organization that is giving support to trans and non binary people in Portugal at this time where many have little support from the community. There is a new model available made from last week’s handmade tie-dyes with an orange and red on opposite sides and as you can see all masks now have an opening for a filter that can be changed (Filter not included). We now also have kids sizes! I will try to answer all your messages and orders ASAP😙

Uma publicação partilhada por Marta Gonçalves (@martahibu) a

Gio Rodrigues, que continua a produzir material de proteção para doar a hospitais, está também a utilizar 15% das vendas das máscaras para comprar material para a produção dos EPI solidários.

Também Filipe Faísca criou uma edição limitada de máscaras que revertiam para o IPO, mas que esgotaram logo após o seu lançamento. Em causa estavam máscaras criadas com o tecido estampado com os desenhos de 9 crianças do IPO. Estes restos de material pertenciam a uma coleção apresentada em 2015. Agora, Filipe Faísca continua a vender outras máscaras em 100% linho, em branco, preto, rosa e azul-cinza, que podem ser costumizadas.