Lenços dos Namorados Reinventados Para Sensibilizar Para a Violência no Namoro

A ilustradora Clara Não está envolvida neste projeto. Por: Inês Aparício Imagens: © D. R.

Dizem ser a «exposição menos romântica de sempre», mesmo estando patente durante o mês do amor. E, talvez, não seja para menos. Até 16 de fevereiro, os tradicionais lenços dos namorados, reimaginados de forma a chamar atenção para as relações abusivas entre os jovens, vão estar expostos na Fnac do Centro Comercial Colombo, em Lisboa. Esta é uma iniciativa da Fox Life pensada precisamente para assinalar o Dia dos Namorados.

Nesta mostra passam a chamar-se lenços dos ex-namorados, mais uma forma de frisar a mensagem contra a violência no namoro. Em Portugal, 67% dos jovens pensam que a violência no namoro é normal, de acordo com o estudo Violência no Namoro 2019, da União de Mulheres Alternativa e Resposta.

A palavras e formas de Clara Não

Um destes, teve a mão da artista (e ativista) Clara Não, que se uniu à campanha da Fox Life contra a violência no namoro. «Ele/Ela foi violento/a comigo, mas eu mereci. Não, não mereceste!», é a expressão bordada no lenço dos ex-namorados da ilustradora.

Clara Silva partiu da realidade com que muitas vezes é confrontada através das histórias das suas seguidoras no Instagram. «Esta frase surgiu das coisas que as pessoas me dizem, das mensagens que me mandam», começa por explicar Clara Não, à ELLE.pt. «Cerca de 87% dos meus seguidores são mulheres, por isso a maior parte das mensagens que recebo são de mulheres. Muitas dizem-me que ‘ele foi violento comigo, fez-me isto, isto e isto, mas eu também, depois, lhe disse um palavrão e fiquei a sentir-me super culpada. Uma delas até tinha respondido com violência, porque ele também lhe tinha batido. E o que tentei fazer com elas foi dizer-lhes que a culpa não é delas. Era a questão do ‘eu fiz isto, mas’. A partir daí, criei a ilustração que reflete isto», adiciona.

Lenço dos namorados

Os remorsos numa relação abusiva não foram, contudo, a sua primeira ideia. No seu trabalho a ilustradora aborda diversas questões, desde a estereotipização da mulher a assuntos ainda tabu – como a menstruação ou a masturbação feminina.  No entanto, foram as temáticas como a dualidade da dor – pois «sente-se dor por estar numa relação abusiva, mas também se sente dor porque não se consegue imaginar a vida sem aquela pessoa» – e o papel da mulher na sociedade, que também estiveram para ser bordadas nos lenços dos ex-namorados. Ainda assim, esta optou por evidenciar a culpabilização da vítima. «É uma mensagem direta», esclarece, acrescentando que reflete também as outras mensagens que ponderou passar.

Vítimas de ambos os géneros

De entre os 20 lenços, o de Clara Não era o único que reforçava a dualidade de género das vítimas, através da utilização quer do pronome masculino, como feminino na sua frase. «Acho que se falarmos dos dois géneros vai fazer com que mais homens que são vítimas de violência doméstica também apresentem queixa», nota, justificando que muitos não o fazem «porque têm vergonha» ou por acreditarem que é um reflexo de fragilidade.

Ainda que esta realidade seja transversal a homens e mulheres, de acordo com um estudo da UMAR, a legitimação da violência no namoro é maior no género masculino que no feminino, em todos os parâmetros analisados (controlo, perseguição, violência sexual, violência nas redes sociais, violência psicológica e violência física). Apesar de as estatísticas mostrarem uma validação da agressão, independentemente da sua forma, nas relações, a discrepância entre sexos é maior no que a violência física e sexual diz respeito. Enquanto no primeiro caso, 10% dos rapazes e 4% das raparigas legitimam os atos, a violência sexual (coação, abuso ou violação) é consentida por 34% dos rapazes e 15% das raparigas.

Um entre 20

A peça desenvolvida pela autora do livro Miga, Esquece Lá Isso é apenas um dos 20 lenços dos ex-namorados que procuram consciencializar o público para a violência no namoro. Destes, destacam-se expressões como «Mais uma humilhação, menos uma relação», «Conversa violenta e swipe para a esquerda» ou «Se condenas a maquilhagem, passou-bem e boa viagem».

Todas bordadas à mão, as peças tradicionais da região do Minho estiveram a cargo da associação A Avó Veio Trabalhar (incluindo a da Clara, ainda que esta o saiba fazer, tendo-o provado já em exposições e no Instagram). No caso do lenço desenvolvido pela artista, houve uma parceria com a instituição, com sugestões de ambos os lados, para chegar a este resultado final.

Lenço dos namorados

«Enviei o desenho e depois foi uma colaboração [com a Avó Veio Trabalhar]. Alguns dos elementos que estão ali foram sugeridos pela associação e eu claro que gostei, porque faz mesmo lembrar as tatuagens dos desamores, da guerra. Achei que fazia todo o sentido e fiquei muito contente por podermos colaborar», declara, reparando numa mudança de mentalidade dos membros desta associação, composta por mulheres já reformadas, relativamente à violência nas relações. «No tempo daquelas senhoras, havia a questão tradicional de ser a cruz do casamento, a mulher ter de lidar com a violência. Eu cresci em Grijó, que é uma vila, e por isso vivi perto de pessoas de mais idade e ia sabendo histórias muito preocupantes em que a resposta era muitas vezes ‘é o teu marido, é a tua cruz, tens de lidar com isso’», menciona.

Passos a dar

Iniciativas como esta procuram inverter a explícita escalada de violência entre casais, mas existem outros passos que devem ser tomados para contrariar as estatísticas. Clara Não defende que «o principal é abrir discussão e não deixar de falar sobre isto», além de acreditar que é necessário explicar como devemos reagir ao descobrir que alguém está a ser vítima de uma relação abusiva.

«É preciso criar um elo de confiança e elucidar as pessoas de como devemos tratar estes assuntos. Por exemplo, quando alguém me conta que está a ser vítima de violência, o que posso responder? Porque se disseres à pessoa que tens de o [o agressor] abandonar, não a estás a apoiar, estás a ordenar. E se, por acaso, acontecer, no meio de uma discussão com o namorado, dizer ‘ah, mas a minha amiga disse que nem devo estar contigo’, normalmente o que a pessoa violenta faz é isolar e puxar a pessoa para si, isolar dos amigos. Para não criar este isolamento, tem de haver uma conversa para a pessoa não deixar de dizer o que se passa e sentir que está a ser apoiada», frisa.

Também o trabalho de instituições como a APAV, a Uni+, a Corações com Coroa ou do movimento #nãoénormal e a utilização das redes sociais como plataforma para discutir estes assuntos, principalmente pela parte de quem tem uma maior influência no público, são referidos pela ilustradora como caminhos para alertar para estas questões.