Cara Delevingne: «A moda até me prejudicou quando comecei a representar»

A mais intrigante polímata da moda tirou as máscaras na conversa com o amigo de longa data, Derek Blasberg. Por: Derek Blasberg -- Imagens: © Liz Collins.

São nove horas da noite de uma quinta-feira e Cara Delevingne não quer sair. Marcamos um jantar no restaurante chique do lobby do seu hotel em Paris, mas quando chego, ela manda-me uma mensagem para subir ao seu quarto. Quando entro, encontro-a de pijama (melhor, com uma t-shirt velha e umas leggings pretas), aconchegada entre as cobertas da cama. Um grande contraste com a pessoa que vi uma hora e meia antes, no Grande Palais, envergando um vestido cor-de-rosa Chanel, no momento em que disse o adeus definitivo a uma das figuras mais importantes da sua vida: o designer Karl Lagerfeld. Na cerimónia fúnebre, ela leu um poema sobre gatos da escritora francesa Colette – um tributo à amada companheira de Lagerfeld, a gata Choupette. Cara não se intimidou quando a ela se juntaram Pharrell Williams, Tilda Swinton e Helen Mirren, mas a emoção de dizer adeus a um dos seus heróis foi forte. «O que me pôs realmente triste foi, no final do desfile, procurá‐lo para lhe dizer que tinha sido um ‘grande espetáculo!’ e ter percebido: ‘Oh não, ele não está cá”», diz.

A modelo de 27 anos, rosto da Dior Beauty e atriz, tem feito a sua carreira como a rapariga engraçada e sorridente da porta ao lado, mas eu conheço-a há tempo suficiente (desde que ela era uma adolescente rebelde) para reconhecer que, sob o seu exterior extrovertido e sempre ativo, está uma miúda que também pode ser arrebatada pela emoção. Olhei para os olhos escuros debaixo do edredão e soube que tinha de ligar para o concièrge para cancelar o jantar. Fechei as cortinas, deitei-me ao lado dela e fiz a entrevista entre as almofadas.

Derek Blasberg: Conheci‐te quando tinhas cerca de 16 anos e gostavas mais de pizza do que de moda. A ideia de fazeres carreira na moda surpreendeu a tua família, não foi?

Cara Delevingne: Continuo a não ser uma fashionista. Em comparação comigo, qualquer pessoa é mais fashion do que eu. Penso que a minha família é mais fashion do que a maioria. O meu pai [Charles, um promotor imobiliário] é uma pessoa elegante, embora goste muito de estar nu, e a minha mãe [Pandora] também é elegante – é uma espécie de acumuladora. A minha avó também tinha muita roupa.

Estás a referir-te à tua avó que era dama de companhia da princesa Margaret e que tinha um caráter vincado e era uma personagem e tanto?

Sim, a mãe da minha mãe. Pensando nisso, fui sempre a pessoa menos fashion da minha família.

Sei que Joan Collins é a tua madrinha. Quando eras criança, sabias que ela era aquela figura cultural e fabulosa?

Ela conheceu o meu pai e a minha mãe separadamente. Na altura, eram bons amigos. Eu nem sequer sabia o que era ser fabuloso. Penso que ir de férias para o sul de França [nas férias de família] parecia muito glamoroso, e era obviamente. E a Joan fazia parte disso.

Que tipo de estudante eras?

Queria ir para a escola de teatro, mas acabei por ir para uma escola de arte. Estava gravemente deprimida e sabia que não ia dar-me bem na escola. Lutei muito [naquele momento] para ultrapassar a minha depressão.

E pensaste que o mundo da moda poderia ser uma boa aposta para uma pessoa deprimida?

Como não sabia nada de moda, não me parecia um mundo intimidante. Pensei que seria como o Zoolander ou como O Diabo Veste Prada. Claro que ninguém foge da depressão, e esses sentimentos voltavam casualmente. Mas, no início, a moda parecia um mundo algo ridículo.

Fizeste amigos depressa. Do teu grupo faziam parte Georgia [May Jagger], Kendall [Jenner] e Jourdan [Dunn]. Penso que o truque para sobreviver neste negócio é encontrar amigos verdadeiros, não apenas amigos da moda.

Lembro‐me de que a Georgia, que já estava a ser perseguida pelos paparazzi, me dizia: ‘Cara, não podes sair de uma discoteca com os teus sapatos de salto na mão. Tens de estar sempre apresentável; as pessoas vão tirar fotografias!’ E eu pensava: ‘Não. Ninguém vai querer fotografar-me, isso é ridículo.’ Em menos de um ano, fotografavam-me em todo o lado e apanharam-me com os sapatos nas mãos. A Georgia dizia: ‘Cara, eu avisei‐te!’

Foi fácil fazer amigos?

Honestamente, tinha expectativas muito baixas de fazer amigos nesta indústria porque: a) nunca pensei que as pessoas quisessem ser minhas amigas e b) não sabia se fazer amigos durante este processo seria inconstante ou pareceria irreal. Portanto, fui agradavelmente surpreendida. A Jourdan e a Karlie [Kloss] já eram amigas, mas não conheci logo a Kendall. Fiz alguns desfiles com ela, mas não dirigíamos uma única palavra uma à outra. Casualmente, começámos a falar e disse-lhe qualquer coisa como ‘Oh, tu és fixe. Devía-mos sair quando isto acabar.’ E ela disse: ‘Bora.’ Foi muito fácil. Descobri que sabemos naturalmente quando alguém está a fazer um esforço que não é verdadeiro e quando uma amizade parece artificial.

Aprendeste a confiar nos teus instintos?

Mais ou menos. Às vezes, os meus instintos estão corretos, outras, terrivelmente errados. Algumas pessoas conseguem enganar as nossas intuições.

Estiveste nos primórdios do fenómeno da presença dos modelos nas redes sociais, quando a moda e os diretores de casting sucumbiram ao poder da internet. Alguma vez publicaste alguma coisa de que te arrependeste?

Não.

A sério?

Sim. Honestamente. É como alguém perguntar-me: ‘Arrependes‐te de alguma coisa?’ Sim, mas não. Qual é o sentido? Estou aqui agora e foi tudo isto que me trouxe até aqui.

Alteraste a forma como usas as redes sociais?

Definitivamente. Atualmente, as pessoas dizem-me que deveria usá‐las – mas não posso. É difícil. Às vezes, oiço: ‘Oh, adorava o teu Instagram. Era divertido!’ Quando comecei a sentir pressão para publicar coisas, comecei a sentir que era um trabalho.

Fala-me sobre os teus momentos mais memoráveis no mundo da moda.

Um dos melhores e um dos piores momentos foi quando fotografei a minha primeira campanha para a Burberry com a Kate [Moss]. Foi assustador! Como iria conseguir tirar fotografias ao lado dela? É como se estivesses a fotografar com uma pantera. Ela é a rainha do set, mas também podia anular-me. Estava apavorada, mas a tentar tirar as melhores fotos. Sempre que estava a fotografar, estava a olhar para ela em vez de olhar para a câmara.

Reproduziste na representação algumas das coisas que aprendeste na moda?

Honestamente, a moda até me prejudicou quando comecei a representar. Quando fiz o meu primeiro filme – Anna Karenina, no qual não tinha qualquer diálogo – sempre que estava a filmar, o realizador (Joe Wright) vinha ter comigo e dizia-me: ‘Cara, estás a fazer de modelo. Para de tentar parecer bonita.’ Eu era apenas uma figurante entre 60 pessoas nas filmagens e perguntei-lhe o que significava aquilo, ao que ele respondeu: ‘Não estás no momento, estás apenas a tentar parecer sensual.’ Nunca tinha pensado que fazia isso. Enquanto modelos, temos de saber sempre onde está a câmara, mas temos de esquecer isso quando estamos a representar.

Concordas ou discordas: a representação e a moda têm a reputação de ser mundos muito competitivos e terríveis para a autoestima…

Concordo. Ser modelo é mais superficial, representar é um pouco mais profundo, mas nos dois casos podemos ser rejeitados em qualquer momento. Esta hipótese de rejeição foi algo em que tive de trabalhar durante muito tempo.

Como é que manténs a tua mente em paz enquanto percorres esses dois mundos?

Faço ioga e meditação todas as manhãs e noites, mesmo que seja apenas cinco minutos.

Não acredito. Fazes mesmo?

Sim! Durmo com o meu telefone em modo avião e, antes de o ligar, deito-me e respiro durante cinco minutos.

Estou sempre a dizer que tenho de pôr o telefone em modo avião, mas nunca o fiz.

Sinceramente, sinto diferença nas ondas eletromagnéticas dos espaços se não o fizer. Sei que se acordar durante a noite com mensagens de telemóvel, isso vai prejudicar-me. Quando o desligo, consigo literalmente dormir a noite inteira.

 

«Num determinado momento, não fui forte o suficiente para dizer ‘não’ a certas coisas»

 

Fazes terapia?

Não tenho feito, mas deveria. Adoro escrever música e poesia. Tudo isso [criatividade] surge de alguma forma do meu trauma – todos os desgostos e experiências que me aconteceram durante a infância. Independentemente do tipo de relação que tenhas com os teus pais, deves tentar encontrar algo de positivo. A minha mãe presenteou-me com a capacidade de ser confusa e atormentada. Sinto-me grata quando as pessoas me perguntam sobre a doença da minha mãe. Tive de encontrar a minha própria maneira de expressar essa emoção e esse sentimento; foi assim que descobri a música e a escrita. É doloroso, mas é uma maneira de me conectar.

Tens medo de te focares mais na representação e na música e menos na moda?

Falei hoje sobre isso com a Helen Mirren. Perguntei-lhe: ‘Já alguma vez fez alguma coisa que fosse fácil?’ Ela disse, ‘Nunca.’ Não é que ser modelo tenha sido fácil de todo – não foi. Nunca pensei que iria ser bem-sucedida, de qualquer forma. Mas poucos anos depois de estar na moda, percebi que não era bom para mim, física e emocionalmente, e tinha de tentar coisas novas e diferentes.

Disseste-me anteriormente que não achas que ser modelo seja um porto seguro.

Num determinado momento, não fui forte o suficiente para dizer ‘não’ a certas coisas. Ser modelo alimentou o sentimento de que apenas gostava de mim nas fotografias em que estava a ser bonita. Tirando isso e os cartazes, não restava mais nada. E não era que me achasse bonita – a pessoa que estava nos anúncios é que era. Tornou-se uma forma distorcida de ver o mundo. Sabia que isso não contribuiria para um estilo de vida saudável nem para a interação humana.

Quais são os atores que mais admiras?

Todos com quem trabalhei hoje: Tilda Swinton, Helen Mirren. Mais? Jennifer Lawrence, Phoebe Waller-Bridge.

As mencionadas são todas mulheres. É bom trabalhar em Hollywood numa época em que o sexo feminino está a ganhar poder e controlo?

Sim. Mas, às vezes, sinto que estamos na mesma. Na minha opinião, especialmente nestes movimentos, assim que temos uma hashtag para qualquer coisa, sentimos que está feito. Mas não é esse o caso. Está a começar e penso que as pessoas precisam de se lembrar que [a discriminação de género] está sempre a acontecer. As mulheres têm mais oportunidades, mas ainda há pessoas que estão exatamente iguais ao que eram há três anos. Não basta colocar uma hashtag nas redes sociais e esperar que o problema desapareça.

Partilhaste publicamente a tua história com Harvey Weinstein, recordando o dia em que ele pediu para fazer um trio contigo e outra mulher. Foi terapêutico partilhar isso?

Não pensei nisso durante cinco anos, até que a Rose McGowan falou. Estranhamente foi terapêutico, mas eu não tinha lidado com isso. Eu não sabia o que era o assédio. Espero que [Harvey] seja condenado e, claro, quero que se faça justiça. Acontece que quase todas as mulheres que conheço ou com quem trabalhei já foram assediadas ou agredidas de alguma forma. E eu simplesmente não sabia disto.

A tua nova série, Carnival Row, é uma referência às crises modernas. O que devo saber sobre ela?

É um mundo de fantasia neovitoriano e eu faço de uma fada bissexual. É uma discussão sobre imigração e a crise dos refugiados num mundo de fantasia. Tem muitas histórias e muitas personagens e criaturas diferentes. É feita para geeks e fanáticos e pessoas que gostam de ir para as profundezas de outro mundo. Para ser honesta, se não tivesse o texto para ler, não sei se iria perceber tudo desde o início.

O que é que a Cara Delevingne faz para relaxar?

Gosto de ser espontânea. Todos os outros momentos da minha vida são planeados.

Qual foi a última coisa espontânea que fizeste?

Conduzi até Big Sur. Espontaneamente. Também gosto de fazer noites de cinema.

Uau, ir ao cinema. A viver no limite, Cara! Estás a viver para o teu perfil público. Conheci-te quando eras uma adolescente louca. Ainda és?

Ah, só tens de esperar até eu ter uns dias de descanso. Depois, volto a enlouquecer. Este ano, não fui a Glastonbury nem ao Burning Man, o que é triste. Quando era mais jovem, podia ser louca e trabalhar. Agora não posso fazer as duas coisas.

Estás numa relação estável atualmente, e revelaste isso mesmo quando recebeste o prémio Hero Award do Trevor Project [uma organização nacional não lucrativa dedicada a garantir intervenção em casos de crise e serviços de prevenção do suicídio em jovens da comunidade LGBTQ baseada em Nova Iorque [Cara foi acompanhada pela sua parceira, a atriz Ashley Benson]. No teu discurso disseste que estavas verdadeiramente apaixonada. O que é o amor para ti?

Sou melhor quando estou apaixonada. E não tem de ser por outra pessoa. Pode ser por mim. Mas é incrível não estar sozinha e enfrentar o mundo com outra pessoa.

Porque é que hesitaste em falar sobre a tua vida amorosa na imprensa?

Porque é sagrada. Percebo que as pessoas se interessem tanto e não quero ser secreta ao ponto de pensarem que tenho vergonha de alguma coisa. Mas nunca estive numa relação tão pública, ou na qual tenha publicado fotos de alguém. Isto parece diferente. Chegámos ao ponto de querer guardar segredo, ou, pelo menos, de não querer atenção, e agora sinto que vou orgulhar-me disto. O que não é a mesma coisa de querermos posar na passadeira vermelha juntas. As pessoas fazem as suas suposições e é isso que me preocupa. Porque se é uma coisa tão boa, não queremos que ninguém mude isso, mesmo que as pessoas não tenham esse poder.

Disseste que o mote da tua vida é ‘aceita a tua estranheza’. Como é que aceitaste a tua?

Quando digo ‘aceita a tua estranheza’, significa que devemos aceitar as coisas das quais não gostamos em nós. Durante algum tempo, para mim, isso era quase tudo. Mas aprendi a aceitar todas as coisas que encontro em mim, sejam elas boas ou más. Afinal de contas, apaixonei-me por alguém por causa dos seus defeitos. E aprendi a amar-me também com todas as minhas falhas.

 

 

O artigo foi originalmente publicado na revista ELLE de novembro de 2019.