Depois de Banidos, Brinquedos Sexuais Voltam A Surgir Em Feira de Tecnologia

Mas, por agora, terão apenas espaço na CES este ano, para que a organização perceba a receção do público. Por: Inês Aparício Imagens: © D. R.

A naturalidade com que Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte falavam sobre brinquedos sexuais (ou qualquer outra questão relacionada com sexo, na verdade) em O Sexo e a Cidade fez com que muitas mulheres ganhassem coragem de fazer o mesmo, ainda que o preconceito e os tabus relativamente a estes instrumentos não tenham desaparecido por completo.

Prova disso, foi a atribuição de um galardão a um destes objetos, numa das maiores feiras de tecnologia do mundo, a CES, e a posterior remoção do prémio, considerado «um erro» por «não encaixar em nenhuma categoria» do evento. Isto em 2019, 20 anos depois da primeira temporada de O Sexo e a Cidade. No entanto, após críticas à decisão, a CES abriu, este ano, espaço para estes dispositivos na convenção que se realiza em Las Vegas, esta semana.

Com um cariz experimental, a organização autorizou que as empresas de tecnologia ligadas ao mercado da sexualidade expusessem os seus produtos, de modo a perceberem a receção do público. Estas – que acreditam que os seus artigos são uma forma de «empoderamento do género feminino» – estarão localizadas no espaço dedicado a saúde e bem-estar. Entre vibradores, dispensadores de lubrificante e outros brinquedos sexuais, está o Osé, da Lora DiCarlo, o «massajador pessoal» que venceu, no ano passado, o Prémio Inovação, nesta feira, na categoria de robótica e drones.

«Imoral, obsceno, indecente»

Como conta a fundadora da marca, Lora Haddock, num artigo do The Washingon Post, após a atribuição do galardão, em 2019, o presidente da Consumer Technology Association (a organização), Gary Shapiro, escreveu-lhe um email no qual explicava que a distinção tinha sido «um mal-entendido». De acordo com este, o produto não completava as «condições necessárias para a seleção em nenhuma das categorias existentes», pelo que «não poderia ser aceite». Além disso, esclarecia que organização podia «rescindir a entrega de prémios a dispositivos que fossem considerados imorais, obscenos, indecentes, profanos ou que não refletissem a imagem da CTA».

Claro que Haddock não ficou de braços cruzados, principalmente após descobrir que o seu item nem poderia ser exibido na feira de tecnologia. Esta juntou-se a outras mulheres com empresas voltadas para a indústria da tecnologia sexual e entrou em conversações com a organização. A instituição acabou por reatribuir o prémio e pedir desculpa pelo sucedido.

Brinquedos sexuais não entram mas o sexismo sim

Depois de críticas ao sexismo demonstrado pela CTA – tal como o The Washington Post faz notar, apesar de ter banido o Osé, esta havia permitido robots sexuais que se assemelhavam a humanos, destinados aos homens, no ano anterior, e a feira escolhe, habitualmente, apenas oradores masculinos para as palestras -, a organização uniu-se a «um parceiro oficial para a igualdade». O The Female Quotient, que apoia empresas na adoção de práticas mais igualitárias no seio das mesmas, irá ajudar a assegurar uma representatividade de género mais equitativa no evento.

Também o dress code foi atualizado, de modo a impedir que as empresas contratem modelos para vestir roupa «considerada reveladora» e chamar, desse modo, atenção para as suas bancas, avança o The Verge. Este comportamento já havia sido tecnicamente banido, mas, apenas agora, foram adicionadas sanções para quem não cumprir as regras.

O preconceito na indústria da tecnologia sexual

Ainda que a tecnologia voltada para o universo sexual exista há várias décadas, a mentalidade da sociedade relativamente a esta indústria permanece bastante fechada. Assim como o The Washington Post menciona, são várias as mulheres que admitem ter visto as suas propostas de negócio recusadas por investidores. Os argumentos utilizados por estes prendem-se com a «falta de decência» e a comparação com a pornografia.