Audrey Azoulay: «As Mulheres Estão a Ser Mais Afetadas Por Esta Crise»

Falámos com a Diretora Geral da UNESCO sobre os impactos da pandemia no mundo atual. Por: ELLE Portugal Imagens: Christelle Alix, Luc Valigny - Por: Virginie Dolata

A UNESCO cresceu durante uma profunda crise marcada, entre outras coisas, pela retirada dos Estados Unidos e Israel em 2017. Hoje, na celebração dos seus 75 anos, esta respeitável instituição, líder da Organização das Nações Unidas, está a recuperar o seu estatuto graças à sua Diretora Geral, Audrey Azoulay.

Desde 2017, esta mulher brilhante Franco-Marroquina de 48 anos, com uma carreira irrepreensível, que oscila entre a cultura, política (Ministra da Cultura do antigo Presidente, François Hollande) e as finanças, tem encorajado os seus 195 países membros a fazer parte da discussão. Impulsionada pela sua pluralidade e diversidade, Audrey Azoulay apela a compromissos por respeito e consentimento e reafirma as missões primárias da UNESCO. É através do acesso à cultura, ciência e educação que as crises atuais vão encontrar solução, assim como os problemas ambientais. E as mulheres desempenham um papel essencial. Através do lançamento do fórum “Imagining the World to Come”, ele inicía o debate.

ELLE: A UNESCO está a celebrar o seu 75º aniversário este ano, tal como a revista ELLE. Qual era a sua missão principal quando foi criada em 1945?

Audrey Azoulay: O conceito fundador da UNESCO é bastante simples: quanto mais as pessoas se respeitam, menos declaram guerra umas às outras. As trocas económicas e os acordos políticos entre países são importantes, mas se a nossa meta for construir uma paz duradoura, a solidariedade das pessoas deve ser construída numa base mais profunda.

 

Quais são então os pilares deste fundação?

A partilha de culturas, educação, cooperação científica e a livre circulação de conhecimento, que é algo que nos torna mais conscientes da nossa humanidade e  da nossa igual dignidade, independentemente das nossas diferentes origens, línguas ou opiniões. Através de todas as suas ações, a UNESCO construiu gradualmente uma diplomacia intelectual genuína, cuja verdadeira vocação é a de tranquilizar as pessoas face aos movimentos tecnológicos, demográficos e ambientais que o mundo está a enfrentar.

 

Com Emmanuel Macron, Presidente de França, no 30º aniversário da Convenção Internacional dos Direitos das Crianças na UNESCO, Novembro 2019

 

Do seu ponto de vista, qual é um dos pontos fortes da UNESCO?

Como uma organização multilateral e de entidade intelectual, a UNESCO tem sempre sido um Laboratório de Ideias: esta função está no centro da nossa identidade e é um dos nossos pontos mais fortes. Foi na UNESCO que alguns conceitos que ainda estruturam a vida global das ideias de hoje nasceram: os direitos de autor, a noção de diversidade cultural, património mundial, sociedades de conhecimento global, etc. Foi na UNESCO que as grandes vozes do mundo intelectual, desde Levi Strauss a Pablo Neruda, Nelson Mandela, ou, mais recentemente, Jane Goodall ou Robert Badinter, progrediram a reflexão humanista.

 

Neste contexto de crise mundial da COVID-19 está a lançar o fórum da UNESCO “Imagining the World to Come”. Pode partilhar mais sobre o seu conceito e objetivos?

Com a pandemia da COVID-19, pudemos ver o quão urgente era a necessidade de avaliar o mundo: a crise trouxe-nos uma grande consciencialização de problemas atuais e um profundo questionamento dos nossos valores e da imagem que queremos apresentar ao mundo. Adotámos, portanto, o lançamento do fórum, de forma a estar online, começando por dar voz às mulheres. O mundo que está para vir não pode ser construído sem elas – e, infelizmente, parece-me que não temos ouvido falar muito delas desde o início da crise.

 

E quem vão ser estas mulheres?

Quer sejam intelectuais, artistas, ativistas ou especialistas em áreas que vão desde a climatologia a relações internacionais, incluindo física e estudos Africanos, a sua contribuição é inestimável para enriquecer a nossa reflexão e pensar na crise em toda a sua complexidade. Convido calorosamente os seus leitores a ouvir!

 

Audrey Azoulay, Diretora Geral da UNESCO na cerimónia de abertura da 40º Conferência Geral na presença de António Guterres, Secretário Geral das Nações Unidas, Novembro 2019

 

Acredita que a “Inteligência Coletiva” ainda é possível num mundo dividido e em sofrimento?

Não é apenas possível, mas indispensável como esta época tem demonstrado! A convicção que levou à criação das Nações Unidas, num mundo que tinha acabado de emergir da guerra, foi precisamente para que apenas pudéssemos construir um futuro melhor ao unir forças.

 

Mas hoje o problema é diferente, certo?

Contudo, a lógica é a mesma se quisermos sair desde crise global multi-facetada, mas também, em geral, de atender aos principais desafios do século XXI. A revolução tecnológica e as suas implicações éticas, grandes migrações, mudanças climáticas e o colapso da biodiversidade… Todos estes desafios são globais e complexos – e para os alcançar precisamos de especialistas, filósofos, agentes de todos os caminhos da vida e de diferentes partes do mundo. Neste sentido, o aspeto multidisciplinar que caracteriza a UNESCO é valioso porque permite-nos pensar em cada crise na sua totalidade.

 

Acredita que os homens e as mulheres estão a ser afetados de formas diferentes pela crise da COVID-19?

Sim, infelizmente, conseguimos ver que raparigas e mulheres estão a ser mais gravemente afetadas por esta crise. Em primeiro lugar, porque representam 70% dos profissionais de saúde do mundo e ocupam a maioria dos trabalhos de baixa remuneração, que são agora reconhecidos como sendo essenciais. Em segundo lugar, porque, lamentavelmente, ao longo do confinamento têm sido, em particular, vítimas de abusos sexuais e de violência doméstica.

 

Que outras desigualdades emergiram com esta crise?

Esta crise revelou e realçou todas as desigualdades estruturais e toda a violência a que as mulheres estão sujeitas. Deste modo, no contexto do fecho das escolas e do ensino à distância, e em geral da mudança da vida cultural, informação e comunicação para espaços online, raparigas e mulheres tornaram-se ainda maiores vítimas da divisão digital que já existia entre sexos. Um relatório publicado pela UNESCO em 2019, “I would blush if I could”, já tinha calculado esta medida – raparigas e mulheres são quatro vezes menos prováveis de dominar capacidades digitais básicas do que os homens. A UNESCO tornou a igualdade de género uma prioridade transversal, e estamos a ter em consideração as situações específicas de raparigas e mulheres na nossa resposta à crise. Também vamos ter em atenção as suas consequências a longo prazo.

Na cerimónia de abertura da 40º Conferência Geral, Novembro 2019

 

Antes do Coronavírus, a UNESCO estimava que 258 milhões de crianças em idade escolar não tinham acesso à educação. A UNESCO agora estima que 1.5 mil milhões de alunos  tenham sido afectados pelo fecho das escolas. Qual é a sua análise?

Numa escala global, a crise que estamos a enfrentar é algo sem precedentes. Revelou que as soluções digitais podem ser valiosas, mas que não podem ser a única resposta, visto que 43% (706 milhões) dos estudantes do mundo não têm acesso à Internet a partir de casa e que dois terços dos professores não têm capacidades digitais suficientes para assegurar a continuidade pedagógica.

 

Quais acredita que vão ser as consequências desta interrupção escolar, mais cedo ou mais tarde? Quais são as suas soluções?

Nestas condições, o maior risco seria que as crianças em situações mais desfavorecidas abandonassem as escola para sempre. Sacrificar uma geração inteira de crianças desta forma teria consequências incalculáveis, sendo esta a razão pela qual reagimos rapidamente ao reunir a maioria dos ministros e responsáveis pelas decisões em educação de todo o mundo para estabelecer uma Coligação Mundial para a educação cujo objetivo era o de prevenir este abandono em massa. Fizemos questão de incluir membros de uma vasta variedade de origens, tal como os principais operadores de telecomunicações, o que nos permite, por exemplo, oferecer pacotes gratuitos de acesso a conteúdos educacionais em diversos países Africanos. Estamos, também, a tentar desenvolver conteúdo educacional transmitido através da rádio ou televisão, porque em áreas indígenas ou rurais esta é a melhor e, às vezes a única, forma de alcançar uma audiência maior. É graças a esta Coligação que hoje somos capazes de apoiar mais de 50 Estados ao assegurar a continuidade da educação, adaptando-nos às características de cada contexto.

 

Que lições pessoais retira desta crise?

A crise que acabámos de viver será rica em lições. Acredito que realçou tanto as oportunidades, como as limitações da era digital, que nunca pode substituir o professor: a pedagogia não se trata apenas de códigos e técnicas, é uma questão de psicologia, empatia e de presença.

 

Com que olhos vê o futuro?

A missão da UNESCO é também a de preparar para o futuro. Em dezembro do ano passado, preparámos uma Comissão para definir o Futuro da Educação, porque a educação e a pedagogia têm de evoluir bastante nos próximos anos, com a tecnologia digital ou a inteligência artificial. Esta é a razão pela qual a UNESCO iniciou um trabalho, no último inverno, para projetar a primeira Recomendação Mundial na ética da Inteligência Artificial. Esta é uma ferramenta extraordinária se a direcionarmos para o bem comum, mas se não tivermos cuidado, com os preconceitos que implica, particularmente em termos de género, vai, pelo contrário, multiplicar as falhas do nosso mundo, alimentando a discriminação e enfraquecendo as liberdades individuais.