Alexandra Moura: «Sempre Fui De Me Arriscar E Aventurar»

A designer falou com a ELLE sobre a sua colaboração com a Decenio. Por: Margarida Brito Paes -- Fotos: ModaLisboa.

Alexandra Moura apresentou, na ModaLisboa, com o apoio do Portugal Fashion, a sua coleção para a Decenio. A marca está a reestruturar a sua imagem e pediu a visão da designer portuguesa para se reinventar. Uma parceria única entre uma marca de indústria e um designer nacional. Alexandra Moura falou com a ELLE sobre os detalhes desta parceria e sobre a sua importância para a moda nacional.

Qual é importância desta colaboração?

É muito positivo. Para todas as partes. É a parte indústrial que se aproxima mais da moda de autor, da moda conceptual, do trabalho mais manual, mais de atelier. E é a moda de autor que consegue ganhar capacidade para conseguir coisas através da força da indústria, portanto só pode ser um casamento feliz.

Esta coleção, com esta ligação maior à indústria, permitiu-te fazer coisas diferentes?

Esta coleção foi toda feita no atelier. Foi toda desenhada e modelada por nós, foi toda confecionada nos sítios onde eu costumo produzir as minhas coleções, que são confeções e ateliers que estão habituadas a criar peças mais especiais. Até isso é uma viragem na visão da Decenio, que é uma instituição, uma marca enraizada, mas que sentiu vontade de conhecer o outro lado e explorá-lo. Esta coleção ainda foi tão enraizada e nossa que ainda não foi implementada propriamente na indústria. Isso acho que vai ser o processo seguinte.

As peças vão estar à venda nas lojas da Decenio?

Vão estar algumas peças, primeiramente, no online e só depois é que gradualmente vai ser feita a ligação com as lojas. Isto é um marco também. Ainda nenhuma marca tinha feito algo assim, e só nisso a Decenio foi incrível. Este tem de ser um processo gradual para que as pessoas comecem a encaixar esta mudança que aconteceu e as coleções começem a coexistir.

E a produção das peças que irão para venda será um processo industrial ou mais manual como a moda de autor?

Vai depender muito das peças. Algumas podem ser feitas a um nível mais industrial, porque a sua complexidade não é extraordinária. Mas há outras que serão sempre provavelmente mais limitadas.

Desenhaste esta coleção sem a pressão comercial que uma marca normalmente tem?

Sem pressão nenhuma, foram incríveis.

Mas tiveste esse cuidado tendo em conta a marca que estavas a trabalhar?

Eu acabo sempre por ter esse cuidado. Eu, na minha marca, também sinto que o lado mais comercial coabita com o lado mais conceptual e até lhe dá mais força. Portanto faz todo o sentido. Inevitavelmente, há peças que são desenhadas para deixar respirar, que são um balão de oxigénio num alinhamento, para dar força àquelas que são mais conceptuais.

Esta é uma colaboração que vai continuar?

Eu penso e espero que sim.

Mas, por agora, foi só esta coleção em particular ou já falaram dos passos seguintes?

As coisas já estão a ser faladas, mas não há nada como experienciar uma coisa de cada vez. Acho que, hoje em dia, na vida, é mesmo preciso viver o momento.

Esta coleção, apesar de se uma parceria com a Decenio, tem muitos elementos Alexandra Moura. Como é que esta coleção se vai distanciar da coleção de autor que vais apresentar no Portugal Fashion?

Esta coleção tem muito do meu ADN, porque me foi pedido. Era suposto isto acontecer. Era suposto eu dar a minha visão da Decenio. Então aquilo que se distancia da minha, é que a minha é mais forte ao nível do conceito. É mais levada ao extremo, enquanto aqui é mais suavizada. Há os detalhes característicos meus, mas depois há peças muito comerciais. Esse balanço é muito mais notório aqui que na minha.

Os materiais também são diferentes?

Sim, foram escolhidos para esta coleção. Quando me lançaram este desafio fiz questão de ir ao espólio da Decenio e perceber os materiais que usavam e quais faziam sentido para esta coleção.

E o que trouxeste de lá?

Trouxe tudo praticamente. Só não trouxe o padrão, que teve de ser feito de raiz. Foi feito a partir de uma fotografia que eu tirei. Também não trouxe o mesh preto, mais tecnológico, que foi trazido por nós para introduzir um lado mais sport e tecnológico.

Esta colaboração entre marcas grandes e designers é uma coisa que já se vê muito lá fora, cá dentro não se vê muito…

Não se vê nada, é a primeira vez.

Achas que estas colaborações podem fazer a diferença para a moda de autor, dá um balão de oxigénio financeiro?

Dá, claro, a todos. Dá um balão financeiro, de modernidade, de inovação. É positivo para todos.

Na Semana de Moda de Paris assistimos ao passo seguinte no que toca a colaborações. O Dries Van Noten e o Christian Lacroix juntaram-se para desenhar uma coleção juntos. Achas que algum dia vamos ver esse tipo de colaboração entre dois designers em Portugal?

Porque não?!

É algo que te imaginas a fazer?

Depende muito de quem fosse a pessoa, obviamente. Se partilhássemos universos, porque não?! Eu sempre fui de me arriscar e aventurar. Nunca devemos dizer não a nada.